Oscar Salavia Sáez, Esse obscuro objeto da pesquisa
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Oscar Salavia Sáez, Esse obscuro objeto da pesquisa


DisciplinaAntropologia e Sociologia Jurídica222 materiais2.906 seguidores
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adequadas, isto é, desenhadas 
especificamente para certas configurações fixas do objeto. Chaves 
apropriadas para a bitola dos parafusos ou das porcas, cabos com a 
longitude suficiente para alcançar os elementos na situação em que 
eles se encontrarão dispostos. No caso da pesquisa, as ferramentas 
adequadas consistirão em fórmulas, protocolos de pesquisa ou 
conceitos já utilisados com sucesso para descrever a questão que nos 
interessa. 
A metáfora de Foucault é muito mais reveladora e realista se 
entendemos que aponta para uma relativa inadequação das 
ferramentas ao objeto. Ou seja, a uma dessas caixas de ferramentas 
(des)organizada pela história pessoal do seu proprietário, onde se 
reúnem restos de caixas anteriores, úteis avulsos comprados para uma 
ocasião, e objetos imprevisíveis como uma faca quebrada, pedaços de 
madeira ou retalhos de borracha. No caso da pesquisa, a caixa de 
ferramentas guarda, na verdade, toda a sua experiência: os conceitos, 
as referencias científicas e literárias, as aspirações políticas, etc. 
O ponto está em que um pesquisador \u2013isso é muito mais claro nas 
ciências humanas- mesmo se providenciou alguma teoria-caixa do 
primeiro tipo (ferramentas adequadas), sempre carrega esse segundo 
tipo de teoria-caixa, e sempre se vê antes ou depois obrigado a usá-la. 
É fácil entender porquê: uma pesquisa com o tipo de caixa 1 exige 
um controle suficiente do objeto, com o fim de que nele não apareçam 
configurações imprevistas. É uma situação plausível na pesquisa de 
laboratório, mas dificilmente disponível numa pesquisa de campo. A 
busca de um rigor científico por meio das ferramentas adequadas pode 
resultar numa pesquisa exemplarmente não-rigorosa, em que variáveis 
imprevistas sejam sacrificadas em aras de um pseudo-rigor. 
A caixa de ferramentas de tipo 2, apesar ou por causa de sua 
inadequação, possibilita a improvisação perante situações novas. Nela 
estão, de resto, aqueles conceitos com os que o pesquisador deverá 
lidar para tornar públicos os resultados de sua pesquisa. Desde que as 
ferramentas de um pesquisador em ciências humanas consistem, até 
demonstração em contrário, em palavras, a questão das ferramentas 
pode se reduzir à questão da linguagem comum, da que tratamos em 
outro item. 
Excursus: O artesanato.
Não é raro ouvir lamentações de que as pesquisas de uma área 
como a da antropologia \u201cpermanecem num nível artesanal\u201d. Em geral, 
esses diagnósticos denunciam um ranço industrialista, e uma noção já 
envelhecida do artesão, como um agente limitado a um saber 
\u201ctradicional\u201d (no sentido de \u201cestagnado\u201d), de produção escassa e 
precária. Depois de um século e meio de produção em massa, já 
deveríamos ter revisado essa idéia: há um tipo de precariedade próprio 
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Oscar Calavia Sáez
da produção industrial, há um tipo de vantagem no artesanato quando 
se repara não só no lucro de escala mas também na qualidade e nas 
externalidades do trabalho, e é possível um investimento técnico mais 
variado no processo artesanal que no industrial. De resto, já não é mais 
possível negar ao artesão o seu papel inovador, nem a sua capacidade 
de assimilar novas técnicas. Os primeiros microcomputadores, como 
sabemos, foram produções artesanais que acabaram por se impor à 
grande indústria: não há uma fronteira bem definida entre o bricoleur 
e o engenheiro, nem está claro que o artesão esteja mais do lado do 
primeiro que do lado do segundo. Não há signos de que o artesão 
pertença necessariamente ao passado de qualquer atividade. Todas 
essas considerações, nem precisaria dizer, pode se transferir do 
artesanato para a pesquisa artesanal.
Isso não quer dizer que a pesquisa artesanal não possa ser uma 
limitação. Mas o é, fundamentalmente, quando se exigem quantidades. 
O número dos dados que devem ser processados e as suas dimensões 
podem impor a necessidade seja de máquinas inscritoras, seja de 
processadores que analisem essa informação, seja do trabalho 
coordenado de um grande número de pesquisadores. Mas esta 
necessidade quantitativa distribui-se de um modo irregular: não 
aparece do mesmo modo em todos os momentos da criação científica, 
nem em todos os ramos da ciência. Nas ciências humanas tem uma 
aplicação bastante restrita. Evidentemente, não é possível uma 
demografia artesanal, ou uma lingüística artesanal, e qualquer 
pesquisa, mesmo a mais dependente das sutilezas, deve se apoiar numa 
organização de dados \u2013a organização que possibilita as bibliotecas, as 
bases de dados, e muitas outras coisas- que é universalizante, 
homologada e em soma não-artesanal. Mas sempre sobra um 
momento em que os préstimos do artesão acabam se revelando 
necessários. Um deles, significativamente, é o da produção teórica. 
Voltando a um item anterior, máquinas são por definição incapazes de 
produzir teoria, embora a reproduzam com facilidade. 
As metáforas sociais
Outro modo de definir as teorias é pensar nas relações que mantêm 
entre elas, caminho muito pertinente porque, como devemos saber, 
não há teoria isolada, que não se deva na sua concretude à interação, às 
vezes agonística, com outras teorias. Virtualmente qualquer termo 
usado para descrever a socialidade humana, da horda primitiva à 
sociedade anônima por ações, pode ser adaptado para uma descrição 
do campo teórico. É claro que só vamos lembrar de algumas.
Genealogias 
Um dos modos mais práticos de agrupar os antropólogos e suas 
teorias é agrupa-los em linhagens. Afinal, uns e outras surgem num 
local, a universidade, em que as relações pessoais lembram aquelas 
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que protagonizam a teoria da descendência. Não é necessária muita 
imaginação para distinguir pais ou mães, filhos ou filhas, netos, 
primos, irmãos, gerações, grupos de idade. É claro que todos os 
percalços dos sistemas linhageiros \u201creais\u201d se observam igualmente 
nestas linhagens fictícias: disputas pela herança, secessão de linhagens 
menores, tensões em torno ao prestígio, ou mesmo ruptura da 
linhagem à procura de alguma ancestralidade clánica fictícia. 
Apesar de tudo isto, entende-se que os componentes de uma 
linhagem guardam, inclusive à sua revelia, uma razoável semelhança 
que se deixa ver nos temas, nas percepções, no léxico usado, no perfil 
teórico, no estilo. Avaliações conservadoras podem dizer até que a voz 
do sangue prevalece sempre sobre as lamentáveis disputas caseiras, 
que filho é sempre filho e mãe sempre mãe. 
Nenhum antropólogo poderia desatender um modo de classificação 
tão próprio da mais pura tradição antropológica, de modo que a 
genealogia dirá sempre muito de uma teoria. Que alem de dizer muito 
o diga todo depende, fundamentalmente, do bom comportamento dos 
filhos. A ênfase na linhagem pode pecar de um certo conservadurismo, 
invisibilizando a contribuição muito destacável das ovelhas negras. 
O campo científico
Em sentido oposto mas complementar à anterior, pode se citar a 
noção de campo, de campo científico neste caso, usando esse conceito 
de Bourdieu que pode se aplicar sem mudança apreciável para 
entender o mundo da religião, da moda, da arte, etc. 
Nesse sentido, as teorias, ou os seus autores, estão inseridas num 
campo que disputam entre si, pretendendo conseguir legitimidade, 
prestígio, recursos, y em definitiva hegemonia sobre as outras. Nessa 
luta as mais diversas armas podem ser usadas: a própria genealogia, os 
requisitos epistemológicos, as teorias, a relevância dada ou negada aos 
temas de estudo, etc. É sua eficiência na disputa o que faz de qualquer