Oscar Salavia Sáez, Esse obscuro objeto da pesquisa
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Oscar Salavia Sáez, Esse obscuro objeto da pesquisa


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na atividade dos cientistas: 
veja-se o meu artigo de 2013. Sobre o tema das citações é de interesse a 
abordagem crítica de MATTOS 2012
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Oscar Calavia Sáez
A ética na pesquisa
O tema da ética na pesquisa não será desenvolvido neste breve 
tratado porque seria necessário para isso pelo menos outro volume 
equivalente. E a ética na pesquisa tem recebido uma notável atenção 
da parte dos antropólogos nos últimos decênios, que não terá passado 
desapercebida a nenhum estudante. Suas manifestações vão desde 
códigos formais de conduta \u2013a ABA tem um- a consultórios casuísticos 
sobre as situações mais variadas que um pesquisador possa encontrar 
antes, durante e depois do campo \u2013a AAA mantinha um, tempos atrás, 
e é possível que ele ainda exista- passando por livros, capítulos, artigos 
e seminários dedicados ao tema. Não vou tentar resumir aqui os seus 
argumentos, dificilmente resumíveis.
É obvio que falar de método, projeto, pesquisa, etc. não seria 
possível sem uma reflexão ética acompanhando, e considerações de 
caráter ético estão presentes (espero que o leitor o perceba) no que aqui 
se diz a respeito de método, de trabalho de campo, de entrevista, de 
sujeito, de citação. 
Mas mesmo assim quiçá seja recomendável dizer alguma coisa a 
respeito da relação entre essa reflexão ética e outras reflexões e 
circunstâncias pertinentes na situação de pesquisa. A isso se dedica 
este breve capítulo, que não entrará no detalhe dos dilemas e as 
tentações com que o pesquisador se cruza na sua atividade, mas fará 
algumas considerações gerais sobre como a ética se situa na formação 
dos pesquisadores e na gestão universitária de pesquisa. Seguindo um 
modelo muito arcaico da literatura moral, assumirá a forma de 
decálogo ou quase-decálogo, composto por quase-mandamentos. 
1. O senso comum diz que falar e conduzir-se eticamente são 
duas coisas diferentes, e que quem faz muito uma delas 
costuma não ter tempo nem forças para a outra. Não se 
descobriu ainda nenhuma razão que isente os pesquisadores 
desse juízo.
2. A ética trata fundamentalmente, salvo erro meu, de condutas 
(algo que se faz); e acessoriamente de propósitos (algo que se 
diz). Que as comissões de ética das universidades tenham se 
instaurado para julgar projetos é indício de que há mais 
interesse na fala que na conduta ética, o que nos devolve ao 
ponto 1. 
3. Escolher entre o Mahatma Gandhi e Adolf Hitler não é um 
bom exemplo de dilema ético. O pesquisador deveria 
desconfiar daqueles discursos sobre a ética na pesquisa que 
apenas reiteram \u2013para fulmina-los- exemplos do que as 
ciências têm perpetrado de mais canalha. Uma reflexão sobre 
a ética deve dar conta de questões muitíssimo mais equivocas, 
que são as que normalmente o pesquisador enfrenta. 
4. A validade científica de uma pesquisa já é, em si, um requisito 
de tipo ético, que inclui o respeito de uma série de regras 
aceitas. Uma pesquisa cientificamente inválida apesar da sua 
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qualidade ética, ou pior, em prol de sua qualidade ética, é uma 
contradição nos termos. 
5. As questões éticas são parte constitutiva do método, pois 
impõem certas condições à pesquisa. Sendo parte, não podem 
substituí-lo. Para que uma pesquisa seja boa, não basta que ela 
seja do bem.
6. Variante do anterior: a lisura ética de uma pesquisa não é 
garantia de que ela seja interessante; é dever do pesquisador 
conseguir que não seja garantia do contrario.
7. Não é provável que o pesquisador, ao fazer sua equipagem 
para o campo, possa tirar do armário uma ética que não usou 
durante anos nas relações com colegas \u2013alunos, professores e 
outros seres próximos. A ética in partibus é um objeto muito 
discutível.
8. Em que pese ao infinito prestígio que nos dias de hoje se 
atribui à ação (sintetizado na fórmula \u201cqualquer coisa tem que 
ser feita\u201d), abster-se continua sendo uma ação, e uma das mais 
raras neste mundo hiperativo. No âmbito que nos interessa, 
não pesquisar é sempre uma possibilidade, que sempre é 
eticamente preferível a fazer qualquer coisa. 
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Oscar Calavia Sáez
Nota Bibliográfica: Etica
A ética na pesquisa antropológica é mais um caso de Biblioteca de Babel: 
uma simples bibliografia multiplicaria por uma boa cifra o espaço total deste 
volume. O tema, aliás, aparecerá constantemente em outros capítulos, sendo 
difícil individualiza-lo em cada um deles. Opto assim por um breve 
panorama. Discussões gerais sobre a questão podem ser encontrados desde há 
muito tempo, veja-se BERREMAN 1969, pp. 845-857; ROSSI & 
O\u2019HIGGINS 1981, págs. 113-138.
Centrando as discussões no cenário brasileiro, podem se anotar coletâneas 
como a organizada por LEITE 1998 ou a de responsabilidade da Associação 
Brasileira de Antropologia (VÍCTORA e outros 2004).
Dentro deste mesmo capítulo poderiam se incluir propostas, ou com 
frequencia verdadeiros manifestos em favor de uma antropologia aplicada ou 
implicada. Veja-se BASTIDE 1979; CARDOSO DE OLIVEIRA1996 [1989], 
pp. 13-31; BRANDÃO, 1986; HAGUETTE 1990, pp. 95-148. Uma 
discussão recente da antropologia engajada se encontra no dossiê \u201cEngaged 
Anthropology: Diversity and Dilemmas\u201d (Vários Autores 2010)
Os textos acima arrolados estão ordenados, digamos, num sentido de 
premência e pungência ética, desde as propostas institucionais até relatos 
consideravelmente viscerais, mas se no polo inicial a necessidade de uma 
consciência ética na antropologia é consenso, as polêmicas surgem em 
direção ao segundo. Ou seja, como era de se esperar o repúdio das atitudes 
antiéticas do pesquisador é sempre mais fácil de formular que uma ética 
positiva, quase sempre objeto de outras dúvidas éticas. Veja-se o caso de 
Nancy Scheper-Hughes1992, comentado criticamente por Lygia Sigaud 1995. 
De especial interesse é o confronto dos artigos publicados simultaneamente 
por Scheper-Hughes e Roy D'Andrade em 1995 na revista Current 
Anthropology, com o debate correspondente. 
Em países, como o Brasil, onde a antropologia tem um papel institucional 
importante em temas de minorias, projetos de desenvolvimento que afetam a 
estas, etc. o panorama das discussões éticas tem algumas peculiaridades. 
Veja-se: ARANTES, RUBEN, & DEBERT, 1992; CARDOSO DE 
OLIVEIRA1978 ; ZARUR, CERQUEIRA LEITE \u2013 1976. 
Talvez a reflexão inicial sobre a relação -aliás, sobre a divergência- entre 
a atividade científica e a política, escrita por um cientista que teve uma 
atividade política formal, é a de Max Weber, em O político e o científico 
WEBER 1974.
Para além da ética como um aspecto integral ou estruturante da 
antropologia, ou das propostas de método de inspiração ética, existe também 
uma vasta literatura sobre a casuística que pode se apresentar nos diversos 
momentos da pesquisa antropológica. RYNKIEWICH & SPRADLEY1981.
Um tema que freqüentemente aparece nessa casuística, embora costume 
ficar envolvido em densas reticências, é o das relações sexuais na pesquisa, 
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Esse obscuro objeto da pesquisa
objeto de algumas coletâneas como : KULICK e WILLSON 1995; 
MARKOWITZ 1999.
Outro é o dos problemas causados pela divulgação dos estudos 
antropológicos longe do grupo estudado, ou -uma questão às vezes muito 
diferente, e que outrora rara, tem se tornado corriqueira- entre o próprio 
grupo. Veja-se BECKER1977; BRETTELL, 1993.
Enfim, as atitudes ética e políticas dos antropólogos são também, é claro, 
um tema de interesse para o estudo da história da disciplina. Veja-se 
GREENFIELD 2001.
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