Oscar Salavia Sáez, Esse obscuro objeto da pesquisa
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Oscar Salavia Sáez, Esse obscuro objeto da pesquisa


DisciplinaAntropologia e Sociologia Jurídica222 materiais2.906 seguidores
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situações muito mais 
banais. A etnografia pode ser afinal uma atividade anticlimática, antes 
de que se lhe agregue toda uma parafernália exótica que se encontra 
mais em relatos que no dia a dia do pesquisador. 
Como transformar o exótico em familiar
Mas por muita razão que assista a todas essas ressalvas, e melhor 
evitar que elas nos levem a anular as próprias premissas da 
antropologia, em particular a do valor cognitivo do encontro com o 
outro. O campo clássico, aquele em que o pesquisador se afasta do seu 
lar e do seu cotidiano, comporta alguns obstáculos físicos às vezes 
consideráveis, e também algumas (grandes) facilidades metodológicas. 
No campo clássico, digamos numa aldeia indígena amazônica, o 
pesquisador, razoavelmente afastado da sua rotina original \u2013
comunicação, hábitos alimentares, de higiene \u2013 sofre; não 
necessariamente muito, mas sofre. E esse sofrimento não é indiferente 
para os seus objetivos. Enquanto tenta superar sua malaria ou sua 
amebíase \u2013inconvenientes às vezes sérios de uma pesquisa, mas em 
geral periféricos ao cerne da sua investigação- o pesquisador sente que 
os seus pressupostos são questionados sem que ele deva se empenhar 
em alguma disciplina da percepção. Não tem que se esforçar em 
imaginar outro modo de fazer ou pensar as coisas, esse outro modo 
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Oscar Calavia Sáez
está aí, ou se lhe impõe. As pessoas fazem coisas que lhe parecem 
descabidas, ou demoram horas ou dias para fazer o que ele imagina 
questão de minutos, dão importância a questões que ele julga banais e 
rim da sua preocupação com outras. E isso acontece vinte e quatro 
horas por dia: está presente na sua infantilização mais ou menos 
explicita, ou seja, nas dificuldades que encontra para realizar qualquer 
tarefa cotidiana, para se comunicar, para ser levado a serio. Ou, 
resumindo, na sua quase total perca de autoridade: seus juízos 
intelectuais ou morais ficam de repente sem valor, a não ser esse valor 
imposto por sua condição de citadino, ou de acadêmico, ou de rapaz de 
classe média, ou no limite de Homem Branco ou Mulher Branca; e o 
antropólogo/a nunca quer que o confundam com o Homem Branco ou 
a Mulher Branca, às vezes tem motivos suficientes para achar estranha 
essa identificação, e mesmo se não os tem lhe pesa. 
Nessa situação deprimente, o antropólogo esta preparado, 
finalmente, para perceber que pode se viver de modos muito 
diferentes, e que o exótico, visto de perto, é normal, inevitável, até um 
tédio eventualmente. É um modo pessimista de conta-lo, mas talvez 
seja o mais efetivo. Provavelmente não seja necessário que a 
antropologia se pratique nessas ilhas e aldeias distantes, mas é difícil 
pensar que pudesse ter nascido em outro lugar, como pesquisa em que 
outro modo de viver se faça não apenas concebível, mas se imponha 
corpo a corpo. Entender que certas pessoas acreditem na ação dos 
espíritos ao seu redor não é o mesmo que viver entre pessoas que o 
fazem e depender delas: é numa circunstância como essa onde pode se 
empreender genuinamente uma comparação. 
Na verdade, não é preciso viajar muito longe para encontrar essa 
iniciação ao saber antropológico; a diferença é o melhor distribuído 
dos atributos humanos, e a ascese não será menor numa favela, numa 
cadeia, num terreiro de candomblé, sempre que durante a sua pesquisa 
o etnógrafo viva nesses lugares. Isso nem sempre é possível, nem 
tentador, e o pesquisador buscará modos de graduar sua exposição a 
esse modo espinhoso de viver que os outros têm. Em geral, a pesquisa 
fora dos campos tradicionais, e sobretudo a pesquisa urbana, costuma 
ser uma pesquisa de imersão limitada, onde o pesquisador convive 
com seus nativos um certo número de horas ao dia, mas mantém para 
si algum espaço próprio. Isso, na verdade, acontece mesmo na aldeia 
mais remota, onde o pesquisador sempre se procurará um refúgio 
familiar, nem que seja dentro da sua tenda ou do seu mosquiteiro, com 
alguns livros ou um rádio; ou mesmo numa casa razoavelmente 
confortável facilitada pela FUNAI ou por alguma ONG. Não é 
necessário exagerar anunciando os efeitos semi-miraculosos do 
desenraizamento, o depaysement como dizem os franceses ou os 
anthropological blues dos que falou Roberto da Matta para admitir 
que todo esse difícil périplo é muito eficaz para cancelar idéias 
preconcebidas e cria um espaço de incerteza de onde podem surgir 
inspirações importantes. Uma pesquisa que prescinda do 
desenraizamento, onde o pesquisador consiga continuar sua vida 
cotidiana entremeada de encontros bem delimitados com o nativo, é 
-deve ser- mais difícil, e exige um esforço de imaginação muito maior. 
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O estranhamente por delegação.
Mas não estou seguro de que essa exigência seja levada 
verdadeiramente a serio no meio de uma produção massiva de teses de 
antropologia, que numa altíssima proporção vem se dedicando ao 
estudo de campos com os que o pesquisador tem uma relação pessoal 
de longa data: o movimento em que militou durante vinte anos, a 
profissão que pratica, as mesmas aulas que está freqüentando. Nada 
impede que essas pesquisas dêem lugar a estudos de alto valor; que 
sejam estudos antropológicos já é outra questão menos garantida: a 
antropologia/etnografia como tal pode ser incorporada a essa apenas 
como uma espécie de marcador retórico.
Ao \u201cali estava eu, sozinho com meus equipamentos, em meio a 
ilhéus desconhecidos\u201d substitui-se o \u201cigual que Malinowski entre seus 
ilhéus, lá estava eu entre meus colegas de trabalho, nativos da minha 
pesquisa\u201d. Não é necessário ter estado numa ilha solitária para cair na 
retórica da ilha solitária. O trabalho de campo no boteco da esquina ou 
nos corredores da universidade é tão trabalho de campo como o 
trabalho de campo numa ilha solitária, mas não é um trabalho de 
campo numa ilha solitária, porque raras vezes o antropólogo sofre nele 
o mesmo grau de estranhamento visceral e continuado. O pitoresco 
prestígio que o campo clássico \u2013aquele da ilha ou da aldeia remota- 
conserva, mal que pese a todas as ressalvas, é um signo de que a 
antropologia não conseguiu criar uma retórica independente para os 
seus desenvolvimentos não exóticos. Mas porque afinal a ilha remota 
deveria continuar pairando sobre essa associação de vizinhos, essa rede 
de usuários do orkut ou esses velhinhos da praça? Uma resposta cínica 
pode ser que, no contexto multiculturalista, a diferença vale como um 
rotulo legitimador, e o modo mais fácil de exibi-la é importa-la já 
pronta daqueles lugares onde ela abunda. Mas o pesquisador pode ser 
mais exigente consigo mesmo, e buscar a diferença que já estava lá 
antes que ele a cantasse em prosa.
Como tornar exótico o familiar
Se por qualquer motivo escolheu a antropologia como via de 
pesquisa e decidiu aplica-la a temas eminentemente familiares, e bem 
provável que deva arcar com essa contradição, e não saiba como ser 
um estranho logo ai no seu próprio ninho. O elogio do estranhamento 
se fez tão comum nos textos destinados aos estudantes que se iniciam 
na antropologia, que não é muito difícil se encontrar com alunos 
desacoroçoados:
- Professor, não alcanço o estranhamento!
Enviar alguém se estranhar com um meio que às vezes é muito 
familiar para ele é uma medida discutível. Mas se você foi, e quer 
continuar, não desespere.
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Para começar, ninguém está assim tão em casa na sua própria casa. 
Se você inventou de estudar antropologia e não qualquer outra coisa é 
provável que tenha alguma vocação mais velha para a dissidência ou 
para