Oscar Salavia Sáez, Esse obscuro objeto da pesquisa
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Oscar Salavia Sáez, Esse obscuro objeto da pesquisa


DisciplinaAntropologia e Sociologia Jurídica222 materiais2.910 seguidores
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filósofos, sociólogos ou antropólogos da ciência. 
O mais famoso entre eles é sem duvida Thomas Kuhn, quem 
postulou que a ciência não se da como uma espécie de linha continua 
de descoberta, mas em forma de paradigmas. Ou seja, as verdades 
científicas só existem dentro de conjuntos de pressupostos conceituais 
e metodológicos, de critérios de legitimidade e relevância concretos, 
limitados, não universais nem eternos. Os paradigmas são em último 
termo irredutíveis uns aos outros, e o que define a sua preponderância 
não é algum critério eterno, mas verdadeiras revoluções que cancelam 
os pressupostos, os critérios os objetos e os autores em vigor e os 
substituem por outros. Na medida em que um paradigma acede a uma 
hegemonia indisputada, ele da lugar a um período de ciência normal. 
Assim, por exemplo, a revolução darwiniana trouxe às ciências 
biológicas um paradigma evolucionista que, nos dias de hoje, é 
absolutamente hegemônico. O darwinismo pode ser reformado ou 
aprimorado, mas hoje em dia, pelo menos nos meios acadêmicos, se 
aplica, não se discute. Há, é claro, outros possíveis paradigmas que 
talvez um dia desloquem o darwinismo de sua atual posição; mas por 
enquanto são heterodoxias científicas sem reconhecimento geral. É o 
darwinismo quem impõe os temas e os critérios.
Essa revisão do ideal cientifico pode desagradar à santimônia 
iluminista que ainda floresce um pouco por toda a parte, mas está 
longe de ser um manifesto anticientífico.
Nem sequer o é a obra de Feyerabend, que leva a proposta de Kuhn 
ao extremo com uma historização radical da ciência, afirmando que 
todo \u2013acaso, propaganda, micro ou macro-política, etc.- pode ser usado 
para fazer triunfar um paradigma científico, e que todos os meios 
racionais ou irracionais podem ser usados para fazer ciência. 
Isso pode ser anarquismo metodológico, mas é capaz de dialogar 
com a epistemologia. No limite, poderíamos fazer ciência (no sentido 
de Popper) com uma bola de cristal, se por acaso conseguíssemos com 
auxilio dela formular teorias refutáveis (o que, convenhamos, é 
bastante improvável). 
Os anarquismos de todo gênero não são, apesar do que digam os 
chefes de polícia, atentados contra a ordem, mas contra essa ordem 
supernumerária imposta pelo estado; ou contra a confusão resultante 
da conflação de ordem e poder. 
Kuhn mostrou que a ciência não desce do céu sobre as cabeças 
metódicas dos cientistas, ela é construída em terra. Feyerabend disse o 
que todo cientista sabe: que essa construção se vale de todos os meios 
ao seu alcance, e não só daqueles idealmente previstos pelos 
metodólogos e os epistemólogos. 
A diferença entre propostas como a de Feyerabend e formulações 
mais clássicas como a de Popper afeta à maior ou menor relevância 
que se outorga à, digamos, ordem constitucional do mundo da ciência. 
Popper tende a pensar a ciência como uma espécie de monarquia 
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Oscar Calavia Sáez
escandinava onde todo está previsto pela lei e os cidadãos nunca 
avançam no sinal fechado. Feyerabend, quiçá com mais respeito à 
realidade, a entende como um mundo bastante caótico em que a lei 
não deixa de existir, mas é sempre definida ou redefinida a posteriori. 
Na pratica, não são atitudes inconciliáveis, já que Popper situou o 
principio constitucional supremo \u2013o da falseabilidade- sempre no final, 
e não no início da atividade científica. 
O critério de cientificidade não equivale necessariamente a uma 
crença ingênua no saber positivo: ele pode ser um princípio invocado 
na disputa intelectual mesmo sabendo que ninguém o cumpre a 
contento.
Segunda discussão 
Tratemos, então, do contundente porém vago divorcio entre 
ciências humanas e inumanas. 
É claro que se duvidamos entre fazer ciência ou fazer outra coisa, 
uma terceira via pode ser a de se conformar com a prática de uma 
ciência diferente, o que nos leva ao segundo ponto antes esboçado \u2013o 
da necessária atualização dos divórcios. 
No tempo em que o positivismo clássico chegava ao seu auge, 
propôs-se uma legalidade independente para as ciências humanas. Vale 
a pena notar que a distinção entre humanidades e ciências exatas e 
naturais aparece na Alemanha no início do século XIX, com a reforma 
dos currículos universitários que possibilitou à universidade alemã sua 
liderança no século XIX. Antes disso, não estaria tão claro que a 
matemática, por exemplo, fosse uma ciência menos humana que 
outras. A operação no seu conjunto visava derrubar do trono do saber a 
teologia, sem por isso a abolir. A herança de Deus foi assim distribuída 
entre, de um lado, a objetividade da natureza, e de outro a 
subjetividade humana. Em torno desta última se encontrava o campo 
específico das ciências humanas. Dito seja de passagem, a teologia, 
perdido o trono e o cetro, se refugiava precisamente no hiato entre o 
objetivo e o subjetivo. 
Muitos foram os formuladores dessa diferença. Windelband falou 
em ciências nomotéticas e ciências ideográficas, Weber e Dilthey 
falaram em Ciências da Natureza e Ciências do Espírito; mais tarde, 
adotando um léxico anglo-saxão e intuitivo, temos vindo a falar em 
hard e soft sciences. 
Seja qual for o nome que lhes demos, as primeiras devem ser 
capazes de formalizar, enunciar regras e predizer. As segundas são 
saberes pouco formalizados, que se valem da linguagem comum e não 
da expressão matemática, parecem estar mais interessadas pelas 
descrições que pelas regras, e vão atrás dos fatos sem conseguir 
antecipa-los. 
O binômio pode estar composto, dependendo dos gostos, de termos 
eqüipolentes ou hierarquizados. Em outras palavras, as ciências 
humanas e as naturais podem ser ciências apenas diferentes. Mas 
podem ser também degraus desiguais do saber. 
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Esse obscuro objeto da pesquisa
O campo intelectual do Antigo Regime decretava sem empacho a 
inferioridade de qualquer estudo objetivo a respeito da natureza: o 
saber teológico e jurídico estava muito acima dos saberes que se 
ocupavam de bichos, tripas, plantas ou pedras; até o ponto de que, de 
todas as ciências com um pé fora dos livros, apenas a Medicina era 
admitida na Universidade, e isso com ressalvas e numa versão muito 
escolástica. O positivismo, invertendo essa antiga preeminência, fez das 
ciências humanas um estágio transitório no caminho do saber, que 
seria válido apenas até que um avanço suficiente da ciência em geral 
permitisse tratar dos assuntos humanos com o mesmo grau de 
formalização e exatidão das ciências naturais. Observemos que em 
ambos casos os diversos saberes estavam incluídos numa escala ou 
pirâmide comum, embora ocupassem degraus muito diferentes em 
dignidade. 
Ao postular um divórcio mais claro entre ciências exatas e 
humanas, descarta-se esse caráter transitório da ciências humanas, essa 
expectativa de avanço em direção ao nível das ciências naturais. Umas 
e outras são eqüipolentes e mutuamente irredutíveis. Tem assim, uma 
dignidade equivalente, mas às custas \u2013para quem considere isso um 
custo- da incomunicação. 
Entendo que a estas alturas é perfeitamente possível combinar a 
comunicação e a eqüipolência. A diferença entre ciências de um e 
outro tipo, que é muito grande, não se apóia em último termo em 
critérios de validade (que, como dissemos antes, podem ser comuns, 
numa versão austera desses critérios) nem na linguagem utilizada (que 
pode ou não ser diferente) nem no método como tal. O que realmente 
diferencia drasticamente ciências naturais e humanas são seus objetos, 
ou mais exatamente a distância que essas ciências