AGOSTINHO DA TRINDADE
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AGOSTINHO DA TRINDADE


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uma natureza corrompida pelo contágio da transgressão, mas o remé-
dio único de toda essa espécie de vícios. Nascia, repito, um homem que
não tinha, jamais viria a ter absolutamente nenhum pecado, por quem
renasceriam para serem libertados do pecado aqueles que não podiam
nascer sem pecado. Ainda que a castidade conjugal possa fazer uso
correcto da concupiscência carnal centrada nos órgãos genitais, esta,
contudo, tem movimentos involuntários pelos quais mostra que, ou não
podia ter existido no Paraíso antes do pecado, ou, a ter existido, não era
de molde a já então se opor à vontade. Presentemente sentimos que a
sua natureza é tal que, combatendo a lei da mente, incita à união carnal,
mesmo sem qualquer intenção de procriar, com o que, se lhe cedermos,
232 1 Tm 2: 5.
233 Cf. Lc 1: 26-38.
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saciamo-nos, pecando; se não lhe cedermos, refreamo-la, não consen-
tindo: quem poderá duvidar de que estas duas tendências não existiam
no Paraíso antes do pecado? Nem a virtude praticava o que quer que
fosse de menos digno, nem a felicidade era objecto de qualquer tur-
bação. Era, pois, necessário que esta concupiscência carnal estivesse
radicalmente ausente quando era concebido o fruto da Virgem, no qual
o autor da morte nada havia de encontrar que merecesse a morte, e, no
entanto, havia de matá-lo, sendo vencido pela morte do autor da vida.
Vencedor do primeiro Adão e tendo sob o seu domínio o género hu-
mano, foi vencido pelo segundo Adão e, de entre o género humano,
perdeu o povo cristão, libertado do pecado humano por aquele que não
estava no pecado embora fosse do género humano, para que esse im-
postor fosse vencido por aquela mesma raça que vencera pelo pecado.
E isto aconteceu desta forma para que o homem não se orgulhe, mas
para que aquele que se gloria se glorie no Senhor234 . Aquele que foi
vencido era apenas homem, e foi vencido porque orgulhosamente am-
bicionava ser Deus; aquele que venceu era não só homem, mas também
Deus e, por isso, deste modo venceu nascendo da Virgem, porque Deus
não conduzia aquele homem do mesmo modo que conduz os outros
santos, mas humildemente o levava em si. Estes tão grandes dons de
Deus e quaisquer outros, sobre os quais seria moroso investigar e dis-
sertar agora neste contexto, não existiriam se o Verbo se não tivesse
feito carne.
[A nossa ciência é Cristo: Cristo é também a nossa sabedoria.]
XIII. 19. 24. Tudo isto que o Verbo feito carne fez e sofreu por
nós, no tempo e no espaço, respeita, segundo a distinção que empreen-
demos estabelecer, à ciência e não à sabedoria. Aquilo que o Verbo é
sem tempo e sem espaço é co-eterno ao Pai, e é todo em toda a parte;
se alguém pode, e na medida em que pode, proferir sobre ele uma pa-
lavra de verdade, essa será palavra de sabedoria235 ; e, por consequên-
234 2 Cor 10: 17.
235 1 Cor 12: 8.
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cia, o Verbo feito carne, que é Jesus Cristo, tem em si tesouros não só
de sabedoria, mas também de ciência. Escrevendo aos Colossenses, o
Apóstolo afirma: Quero que saibais como é grande a luta que travo por
vós e pelos que estão em Laodiceia, e por quantos nunca me viram em
pessoa, para que, unidos no amor e em todas as riquezas da plenitude
da inteligência para conhecer o mistério de Deus, que é Jesus Cristo,
em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciên-
cia, sejam consolados os seus corações236 . Quem pode saber em que
medida o Apóstolo conhecia esses tesouros, quanto deles tinha pene-
trado e, neles, até que profundidade tinha chegado? Quanto a mim, em
função do que está escrito: A cada um de nós é dada a manifestação do
Espírito para proveito comum. A um é dada, pela acção do Espírito,
uma palavra de sabedoria, a outro, uma palavra de ciência, segundo
o mesmo Espírito237 , quanto a mim, se a diferença entre estas duas
coisas está no facto de a sabedoria estar atribuída às coisas divinas e a
ciência às humanas, eu reconheço-as ambas em Cristo, e comigo todos
os seus fiéis. E quando leio: O Verbo fez-se carne e habitou entre nós,
em Verbo entendo \u2018verdadeiro Filho de Deus\u2019, em carne reconheço \u2018o
verdadeiro Filho do Homem\u2019, e ambos reunidos pelo dom inefável da
graça numa única pessoa de Deus e homem. Por isso é que, a seguir,
o Evangelista diz: E vimos a sua glória, glória que tem como Filho
unigénito do Pai, cheio de graça e de verdade. Julgo que, se ligar-
mos graça a ciência e verdade a sabedoria, não nos afastamos daquela
distinção que estabelecemos entre ambas.
Nas realidades que ocorrem no decurso do tempo, a suprema graça
é o facto de o homem estar unido a Deus em unidade de pessoa; ao
passo que nas realidades eternas, a suprema verdade atribui-se justa-
mente ao Verbo de Deus. Mas o ser ele mesmo o Unigénito do Pai,
cheio de graça e de verdade, isso foi feito para que ele seja o mesmo
nas realidades levadas a cabo no tempo a nosso favor, para o qual nos
purificamos pela mesma fé, a fim de o contemplarmos para sempre nas
236 Cl 2: 1-3.
237 1 Cor 12: 7-8.
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realidades eternas. Ora os maiores filósofos pagãos que puderam ver
as perfeições invisíveis de Deus entendidas por meio das coisas que fo-
ram criadas238 , dado que especularam sem mediador, isto é, sem Cristo
homem, não acreditaram nos Profetas, que diziam que ele havia de vir,
nem nos Apóstolos, que afirmavam que já tinha vindo. Como deles foi
dito, aprisionaram a verdade na iniquidade. Situados nas realidades
mais baixas, não puderam senão procurar alguns meios pelos quais pu-
dessem chegar às coisas sublimes de que se haviam apercebido e, desta
forma, sucumbiram aos demónios enganadores, pela acção dos quais
sucedeu que mudassem a glória de Deus incorruptível na semelhança
de uma imagem corruptível do homem, e das aves, e dos quadrúpe-
des, e dos répteis239 . Sob essas figuras criaram e adoraram ídolos. A
nossa ciência, portanto, é Cristo; a nossa sabedoria é também o mesmo
Cristo. É ele que implanta em nós a fé nas coisas temporais; é ele que
nos mostra a verdade das eternas. Por ele dirigimo-nos para ele, pela
ciência caminhamos para a sabedoria; e contudo não nos afastamos do
único e mesmo Cristo, em quem estão escondidos todos os tesouros
da sabedoria e da ciência240 . Mas agora falamos da ciência; da sa-
bedoria falaremos depois, na medida em que ele no-lo conceder. Não
tomemos estes dois termos como se não fosse possível chamar, ao que
radica nas coisas humanas, sabedoria, e ao que radica nas divinas, ci-
ência. De acordo com o uso mais comum de falar, uma e outra podem
considerar-se sabedoria, uma e outra podem considerar-se ciência. De
nenhum modo o Apóstolo teria escrito: A um é dada uma palavra de
sabedoria, a outro, uma palavra de ciência241 , se cada uma destas re-
alidades, de cuja distinção acabamos de tratar, não fosse designada por
um termo preciso.
238 Rm 1: 20.
239 Rm 1: 18; 23.
240 Cl 2: 3.
241 1 Cor 12: 8.
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[Do que se tratou neste livro.]
XIII. 20. 25. E, assim, vejamos desde já o que esta longa expo-
sição conseguiu, o que é que concluiu, até onde chegou. \u201cQuerer ser
feliz\u201d é próprio de todos os homens, mas não é própria de todos a fé
que purifica o coração e alcança a felicidade. Assim, acontece que é
pela fé, que nem todos querem, que se deve caminhar para a felicidade,
que não pode haver ninguém que não queira. \u201cQue todos querem ser
felizes\u201d, todos o vêem em seu coração, e neste ponto é tão grande o
acordo da natureza humana que não se engana o homem que, a partir
do seu espírito, o conjectura acerca do espírito de outro. Numa pala-
vra, nós sabemos que é isso que todos querem. Mas muitos não têm
esperança de poder ser imortais, quando ninguém pode de outro modo
ser aquilo que todos querem, isto é, ser feliz; mesmo assim, querem ser
imortais, se puderem,