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Bartholomeu, R. (2010) ANÁLISE DOS REGISTROS PALINOLÓGICOS COSTEIROS QUATERNÁRIOS NA ÁREA DA LAGOA DE ITAIPU , ESTADO DO RIO DE JANEIRO , BRASIL

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físicos e químicos, tais como os grãos de pólen, esporos, 
acritarcas e quitinozoários (CRUZ, 2000). 
A utilização de palinomorfos em estudos paleoambientais deve-se a diversas 
características que facilitam sua identificação, assim como a sua interpretação em 
sedimentos analisados. Possuem características morfológicas determinadas 
geneticamente, tais como forma, número, tipo e posição de aberturas, ornamentação e 
tamanhos variados, permitindo, muitas vezes, a identificação ao nível de hierarquias 
taxonômicas das plantas que os originaram. A parede externa dos grãos de pólen e 
esporos pode ser preservada sem alterações estruturais e de sua composição química por 
ser constituída por esporopolenina, que é, provavelmente, a matéria orgânica mais 
resistente a degradações químicas, microbiológicas e físicas, permitindo o 
reconhecimento e a identificação dos palinomorfos em sedimentos diversos. O emprego 
de palinomorfos em estudos paleoambientais apresenta, todavia, algumas limitações, 
tais como dificuldade de preservação em depósitos arenosos, em sedimentos muito 
oxidados e/ou em condições de alta alcalinidade, temperatura e pressão (BARROS, 
1996). 
 
 
2.1. PALINOLOGIA DO QUATERNÁRIO COSTEIRO DO RIO DE JANEIRO E 
DE ÁREAS ADJACENTES 
 
Pesquisas em Palinologia do Quaternário são desenvolvidas tanto em áreas 
continentais quanto na região costeira em lagos, lagoas, lagunas e manguezais. Em 
relação a estas áreas foram divulgados vários dados referentes a mudanças ambientais 
durante o Quaternário. 
BELÉM (1985) a partir de estudos palinológicos em sedimentos retirados do 
manguezal de Guaratiba, no Rio de Janeiro, classificou os tipos polínicos observados e 
estudou a dispersão dos grãos de pólen e sua relação com a sedimentação. A 
classificação taxonômica dos tipos polínicos foi, quando possível, realizada até o nível 
de espécie. Os sedimentos estudados apresentaram um intervalo de 4.000 anos, 
correspondendo ao pós-glacial Flandriano. Através da análise palinológica, a autora 
concluiu que a vegetação de mangue persiste, na área, desde o início do intervalo de 
tempo citado até os dias atuais. Também foi observado que nos sedimentos de fração 
mais fina, isto é, argila e sílte, há uma maior percentagem de grãos de pólen. Isto se 
 
 
 
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deve ao fato do tamanho da litologia ser equivalente ao diâmetro médio dos grãos de 
pólen. 
LUZ (1997) analisou um testemunho de sondagem de 4,17m de comprimento, 
obtido na lagoa de Cima, município de Campos dos Goitacazes, no Norte Fluminense. 
As datações radiocarbônicas obtidas neste trabalho foram: 6.100 ± 100 anos A.P. aos 
405-410 cm de profundidade; 6.500 ± 60 anos A.P. aos 247-257 cm de profundidade; 
3.910 ± 50 anos A.P. aos 65-70 cm de profundidades; 5.470 ± 60 anos A.P. aos 24-30 
cm de profundidade. Assumiu-se que as idades de 6.500 ± 60 anos A.P. e 5.470 ± 60 
anos A.P. foram resultado de material alóctone retrabalhado. As análises palinológicas 
indicaram a presença da mata paludosa nas áreas brejosas, assim como de formações 
pioneiras de campo aberto seco bem desenvolvido nas planícies. A Mata Pluvial ficou 
confinada às encostas e vales mais úmidos. A Floresta Tropical Estacional 
Semidecidual, tolerante à seca, permaneceu em estágio adiantado na sucessão vegetal. A 
lagoa progressivamente perdeu água, desenvolvendo-se ampla área pantanosa. No final 
do período, a ingressão de sedimentos arenosos prejudicaram a deposição dos 
palinomorfos. Pode-se concluir que, durante o período de tempo abordado no presente 
estudo, o nível de espelho d‟água da lagoa de Cima oscilava em função das condições 
ambientais variáveis, detectadas através da Palinologia, entretanto, segundo provaram as 
associações vegetais, a lagoa nunca secou totalmente, embora várias vezes estivesse 
reduzida com o desenvolvimento de ampla área paludosa. 
TOLEDO (1998), analisando um testemunho da lagoa Salgada ao norte do 
estado do Rio de Janeiro, no litoral do município de Campos dos Goytacazes, obteve 
conchas datadas com uma idade de 3.050 ± 70 anos A.P. A análise palinológica de 
sedimentos do fundo lagunar indicou um conjunto de palinomorfos característicos de 
ambiente aberto e seco. A maior concentração de grãos de pólen e esporos foi localizada 
na parte central da lagoa. A análise palinológica em conjunto com a isotópica, em um 
testemunho de sondagem, permitiu caracterizar a alternância entre fases de clima úmido 
e de clima seco na área de estudo. 
COELHO (1999), através da análise palinológica em um testemunho de 5,30 m 
de comprimento obtido na planície de maré inferior do manguezal de Guaratiba, Baía de 
Sepetiba, pode identificar quatro mudanças climáticas ao longo dos últimos 6.300 anos, 
podendo ser observado uma alternância de ambientes úmidos e secos, incluindo o 
primeiro registro da Pequena Idade do Gelo no Brasil. Foram também observados dois 
eventos transgressivos, o primeiro correspondendo ao máximo marinho mais antigo do 
 
 
 
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chamado Nível Marinho Alto Holoceno. O segundo, entre cerca de 1.000 e 213 anos 
A.P., aparentemente se restringe à área de estudo. Foi identificado neste mesmo trabalho 
uma grande influência da Floresta Ombrófila Densa e da Formação Pioneira de 
Restinga, onde atualmente se tem o domínio do manguezal. Foi possível através das 
análises palinológicas marcar a intensa interferência antrópica na região devido à brusca 
diminuição dos representantes polínicos arbóreos, principalmente da Floresta Ombrófila 
Densa, no topo do testemunho. 
SANTOS (2000) realizou estudos palinológicos em um testemunho de 
sondagem de 510 cm de comprimento na fácies mangue-planície de maré inferior do 
manguezal de Guaratiba, com o objetivo de fornecer informações sobre as variações 
climáticas, ambientais e do nível médio do mar nos últimos seis mil anos. As análises 
realizadas permitiram identificar seis oscilações climáticas nos últimos 6.300 anos A.P., 
com alternância de clima úmido a seco, fenômenos climáticos do tipo “El Nino”, 
identificação da Pequena Idade do Gelo no Brasil, dois eventos transgressivos e 
alterações climáticas associadas ao intenso e desordenado processo de ocupação da 
Baixada de Sepetiba nos últimos 100 anos. 
LUZ (2003) investigou a dinâmica da vegetação do norte do Estado do Rio de 
Janeiro nos últimos 7.000 anos A.P. baseando-se nos resultados obtidos pelas análises 
palinológicas de (1) sedimentos superficiais do fundo de duas lagoas situadas no 
município de Campos dos Goytacazes, (2) sedimentos recentes de solos periféricos a 
estas lagoas e (3) sedimentos de dois testemunhos, um coletado na Lagoa de Cima e 
outro na Lagoa do Campelo. Foram considerados como palinomorfos os grãos de pólen, 
os esporos de Pteridophyta e Bryophyta, zigósporos e cenóbios de algas verdes. De 
acordo com os resultados obtidos foram caracterizados: 1. A dinâmica espacial na 
deposição recente de palinomorfos na superfície de fundo das lagoas. Foram analisadas 
15 amostras de um transect de direção nordeste/sudoeste pela Lagoa de Cima. Os grãos 
de pólen em sua maioria refletiram a floresta que beira a lagoa e os afluentes Imbé e 
Urubu, com contribuição expressiva dos taxa regionais, bem como a importante 
contribuição de plantas hidrófitas e palustres e de plantas ruderais das vastas pastagens 
encontradas na área. Indicaram que na atualidade a tendência deposicional dos 
palinomorfos na Lagoa de Cima está condicionada pelos influxos dos rios Imbé e Urubu 
ocasionando uma diferenciação espacial na sedimentação conforme o tamanho dos 
palinomorfos, a proximidade do local de sedimentação em relação a desembocadura 
desses rios e a batimetria do leito da lagoa. Já na Lagoa do Campelo as 4