Novo Código de Processo Civil comentado   OAB
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Novo Código de Processo Civil comentado OAB


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ausência de normas que regulem processos eleitorais, trabalhistas 
ou administrativos, as disposições deste Código lhes serão aplicadas supletiva e 
subsidiariamente.
Anotações aos artigos 13 a 15:
Artur Torres 
Doutor, Mestre e Especialista em Direito Processual Civil
Professor de Direito Processual Civil
Advogado
Artigos 13 a 14:
1. Direito intertemporal. O regramento processual oriundo da entrada em 
vigor do novo Código, seguindo tradição de longa data, terá aplicação imediata, 
ainda que o feito tenha se iniciado sob a vigência da legislação revogada.
2. Os atos processuais validamente realizados à luz do sistema processual 
precedente não serão prejudicados, ou refeitos, pelo só fato de a lei processual sob 
a qual se consolidaram não mais produzir efeitos.
ESA - OAB/RS
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Artigo 15:
1. Lacuna. Aplicação subsidiária. O Código de Processo Civil, no âmbito da 
jurisdição não criminal, serve de texto-base à disciplina processual. Assim sendo, 
os temas (processuais) que não encontrarem disciplina específica no âmbito de 
sua especialização serão regidos na forma que dispuser o NCPC.
2. O rol a que alude o art. 15 é meramente exemplificativo. A aplicação subsi-
diária do Código não se limita, à evidência, \u2013 aos processos: eleitoral, trabalhista 
e administrativo. Tratando-se de jurisdição não criminal, o Código tem aplicação 
secundária, no que tange à matéria processual, a quaisquer especializações, salvo 
disposição expressa de lei.
LIVRO II
DA FUNÇÃO JURISDICIONAL
TÍTULO I
DA JURISDIÇÃO E DA AÇÃO
Art. 16. A jurisdição civil é exercida pelos juízes e pelos tribunais em todo o 
território nacional, conforme as disposições deste Código.
Art. 17. Para postular em juízo é necessário ter interesse e legitimidade.
Art. 18. Ninguém poderá pleitear direito alheio em nome próprio, salvo 
quando autorizado pelo ordenamento jurídico.
Parágrafo único. Havendo substituição processual, o substituído poderá 
intervir como assistente litisconsorcial.
Art. 19. O interesse do autor pode limitar-se à declaração:
I - da existência, da inexistência ou do modo de ser de uma relação jurídica;
II - da autenticidade ou da falsidade de documento.
Art. 20. É admissível a ação meramente declaratória, ainda que tenha ocorri-
do a violação do direito.
Anotações aos artigos 16 a 20:
Artur Torres
Doutor, Mestre e Especialista em Direito Processual Civil
Professor de Direito Processual Civil
Advogado
ESA - OAB/RS
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Artigo 16:
1. Ao anunciar que a jurisdição civil será \u201cexercida pelos juízes em todo terri-
tório nacional\u201d conforme suas disposições, o Código pouco (ou quase nada) con-
tribui para a compreensão, em si, do fenômeno jurisdição. Do tema, um dos mais 
importantes para o processo civil, ocupam-se os doutos, há muito. Revelam-se de 
domínio geral entre os processualistas pelo menos as teorias sustentadas outrora 
por Giuseppe Chiovenda (substitutividade), Enrico Allorio (coisa julgada) e Fran-
cesco Carnelutti (lide) que, em boa medida, influenciaram o conceito de jurisdição 
albergado pelo revogado Código Buzaid. A concepção subjacente ao referido di-
ploma processual caracterizava-a como atividade substitutiva do juiz, cujo escopo 
era a eliminação de uma lide com força de coisa julgada, mediante realização de 
atividade estritamente vinculada à lei.
2. O conceito de jurisdição, na verdade, encontra-se despido de pacificida-
de, representando uma das poucas concordâncias doutrinárias acerca do tema, a 
afirmativa de que não há investigá-lo senão a partir de um estreito contato com a 
natureza de Estado (liberal, social e etc.) adotado no âmbito em que se pretenda 
conceituá-la.
3. O Estado brasileiro, que tem na dignidade da pessoa humana seu elemento 
estruturante, imiscuiu-se, claramente, em bem realizar os anunciados direitos fun-
damentais, mostrando-se válida a afirmativa tanto para o plano do Direito mate-
rial quanto para o do Direito processual. Salvo melhor juízo, parece-nos possível 
asseverar que, mais do que o cumprimento da lei, almeja-se, mediante prestação 
jurisdicional (subjacente ao Estado materialmente Constitucional), a obtenção de 
uma sentença justa, ou seja, deposita-se na atividade estatal a expectativa de que 
seu discurso esteja comprometido com os ditames de uma justiça material (leia-
se: de acordo com o direito, ainda que contra legem) compatível com a promessa 
constitucional. Deve-se perseguir tal objetivo, no cenário judiciário, mediante a 
realização de um processo justo (que não se esgota, à evidência, no singelo respeito 
às prescrições legais; nem se confunde, por outro lado, com o conceito de senten-
ça justa). É a partir da aludida nuance que apontamos a primeira das notas que 
caracterizam a jurisdição do século XXI: a juridicidade, inerente ao conceito na 
perspectiva do Estado Constitucional. A jurisdição de hoje visa (ou pelo menos 
deve visar) o justo, não apenas o legal.
 4. Outras notas inerentes ao conceito de jurisdição, contudo, mostram-se 
dignas de destaque. A estatalidade, a imparcialidade e a irrevisibilidade exter-
na encontram-se, irremediavelmente, entre elas. A jurisdição é praticável ape-
nas por autoridade estatal. Mais do que isso: pela autoridade estatal incumbida 
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de realizá-la, inexistindo, aliás, prestação de tal natureza fora do aludido limite. 
Ou o Estado, na condição de Estado-Juiz, a realiza, ou estaremos diante de qual-
quer outra atividade/função (ainda que estatal) com ela inconfundível. Destaca-
se, assim, a nota da estatalidade; no que tange à afirmativa de que o Estado-Juiz, 
no desempenho de suas atribuições jurisdicionais, deva agir de forma particu-
larmente desinteressada, não parece haver controvérsia. Qualquer Estado que se 
afirme de direito não poderá, à evidência, ignorar a imparcialidade que se exige do 
julgador como nota distintiva da função em epígrafe; de ângulo diverso, todavia, 
não há como negar que a jurisdição brasileira (do século XXI) goza de irrevisibili-
dade externa. Desde 1891, gostemos ou não, identifica-se entre nós a supremacia 
(de anos para cá de forma mais evidente) do Poder Judiciário em relação aos de-
mais. A despeito de sustentar-se, em geral, o acolhimento pelo Estado brasileiro da 
consagrada tese de Montesquieu, parece-nos pouco mais do que óbvio que, atu-
almente, o Poder Judiciário exerça, pelo menos na praxe, a função de revisar atos 
praticados pelos demais poderes, com singelas, e por vezes ignoradas, restrições. 
É dele (Poder Judiciário), a rigor, a derradeira palavra no ordenamento jurídico 
pátrio. Exercendo atividade essencialmente jurisdicional revisa, não raro, a cor-
retude de atos não menos estatais, porém realizados a título diverso (por exem-
plo, atos administrativos, legislativos e etc). O inverso, contudo, não é verdadeiro. 
A (in)corretude dos atos jurisdicionais não é aferível, institucionalmente falando, 
por outros poderes. Dessa constatação, talvez mais prática do que teórica, deriva 
a nota da irrevisibilidade externa. O Poder Judiciário é, bem compreendida a 
expressão, \u201cSenhor\u201d de seus próprios atos.
5. Afinal, a que serve a dita função jurisdicional? O monopólio da dicção do 
direito pelo Estado obriga-o (e por isso poder-dever) a exercer função que visa 
à realização do direito (repita-se, não apenas da lei). Embora se tenha afirmado 
outrora que tal função limitava-se a resolução dos conflitos num plano ideal, afir-
mando-se prestada a jurisdição mediante a prolação de uma sentença meritória 
(mera declaração de direitos), ou ainda, num contexto social nem tão distante, 
que, na melhor das hipóteses, cingia-se a conformação do direito posto (limitava-
se, de forma acrítica, à aplicação da lei), não nos parece esteja o Novo CPC atrelado 
a quaisquer dessas concepções.
6. A ideia (de jurisdição) que se impõe guarda, sobretudo, estreita relação 
com a concretização de um Estado comprometido com a proteção e a conformação 
fática das posições jurídicas mínimas (os direitos fundamentais).
7. Com efeito, parece-nos suficiente,