Imputação Objetiva    Damásio de Jesus
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Imputação Objetiva Damásio de Jesus


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a resposta somente poderia ser negativa\u2019"235.
Constou do acórdão que negou provimento ao apelo, discordando do 
parecer do Ministério Público e do voto vencido: \u201cNão é à toa que, na 
pronúncia, fazia por destacar o MM. Juiz da Comarca que \u2018o atropelamen­
to da vítima coloca-se, assim, na linha evolutiva de perigo, com a perse­
guição dos réus, após a parada do veículo no acostamento da rodovia\u2019\u201d . 
\u201cQuem, na perseguição já criminosa de sua vítima (não se esquece de que 
os acusados pretendiam, à força, submetê-la à sua concupiscência), obri- 
ga-a a correr para a morte \u2014 e aí é que, data venia, não se pode concordar 
com as comparações constantes do r. voto vencido declarado: correr para 
uma rodovia como a Presidente Dutra, ainda mais à noite, representa, para 
quem o faz, perigo certo de atropelamento fatal; ao revés, aquele que in­
gressa num matagal, em mil, tem uma possibilidade de topar com animais 
bravios ou malfeitores que lhe causem danos \u2014, tem, não há fugir, que
233. R JT JSP J03:445.
234. RJTJSP, 103:444.
235. Rev. cit., p. 448.
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responder pelo resultado mortal. Senão a título de dolo direto, à conta de 
dolo indireto ou eventual, por indescartável prevalência da fórmula legal, 
cujas balizas, no texto próprio, são o querer do evento e a assunção do risco 
de produzi-lo. Muito diferente, sempre data venia, do comportamento da 
namorada preterida que, à margem de assédio do eleito, psíquico ou físico, 
põe cobro à vida, apenas porque contrariada em seus objetivos sentimen­
tais...\u201d236. Com fundamento no voto vencido, houve embargos infringentes 
(n. 42.786). O Terceiro Grupo de Câms. Crims. do TJSP, j . l Q-4-1987, por 
maioria de votos, contra o parecer da Procuradoria de Justiça, outra vez da 
lavra do Dr. Rubens Marchi, Procurador de Justiça, rejeitou os embargos, 
novamente vencido o Des. Cunha Bueno.
Consta do acórdão: \u201cO nexo ocorreu. Já na sentença de pronúncia se 
acentuava que \u2018o atropelamento da vítima coloca-se, assim, na linha evolu­
tiva de perigo, com a perseguição dos réus, após a parada do veículo no 
acostamento da rodovia\u2019 (fl.). Não era imprevisível, dada a situação em que 
se encontravam os protagonistas do crime, que L., atônita, optasse por atra­
vessar a via expressa. Conforme acentua o venerando acórdão, a ofendida 
\u2018não tinha como procurar outra direção: D. estava nas suas pegadas e A. C., 
mais atrás, impedia a fuga no sentido oposto ao da estrada\u2019 (fl.). Destarte, 
os acusados tinham o dever de não expor a jovem aos riscos da travessia; 
ao contrário, forçaram-na a essa saída perigosa, anuindo, ipso fac to , às 
conseqüências que dela poderiam advir, como, efetivamente, advieram. 
Concorreram, portanto, para o trágico evento\u201d237.
O voto vencedor sustentava: \u201cO resultado morte da vítima se encontrava 
na mesma linha do desdobramento físico em relação à conduta anterior dos 
agentes? A resposta só pode ser positiva. Além de estar na mesma linha do 
desdobramento físico em condição de homogeneidade com a conduta anterior, 
indiscutivelmente, os réus tinham a previsibilidade do evento final. Ora, quem 
leva para uma rodovia como a Presidente Dutra, à noite, e mantém no interior 
do automóvel uma jovem, embriagada, que a todo custo procura se libertar da 
influência dos réus, procurando, reiterada e desesperadamente, sair do veícu­
lo, tem, sem dúvida a previsibilidade do que poderia ocorrer, como veio a 
ocorrer. Persistindo em seu procedimento, os réus, com a conduta criminosa, 
criaram uma situação de perigo, perfeitamente previsível, de um atropelamen­
to fatal. Portanto, a última causa, qual seja, o atropelamento, não se constituiu 
em uma causa absolutamente independente, que por si só produziu o resul-
236. Rev. cit.,p. 445.
237. RJTJSP, 106:455.
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tado. Estava ela, repita-se, na mesma linha do desdobramento físico e em 
condições de homogeneidade com a conduta anterior\u201d238.
Aplicada a teoria da imputação objetiva, a razão estava com o parecer 
da Procuradoria de Justiça e com o voto vencido. Os agentes deviam res­
ponder por crime de constrangimento ilegal, seqüestro, tentativa de estupro 
ou de atentado violento ao pudor, mas não por homicídio doloso consuma­
do. O resultado morte não se encontrava no âmbito de proteção das normas 
referentes aos bens jurídicos que pretendiam afetar (liberdade de locomoção, 
liberdade sexual etc.) e nem havia relação direta com a conduta, inserindo- 
se naquilo que a doutrina denomina \u201cconseqüência secundária do compor­
tamento\u201d . Provocaram um risco que não se converteu em resultado harmô­
nico com a ação239.
3. CASO DA VÍTIMA QUE, PARA ESCAPAR DE AGRESSÃO 
FÍSICA, PULA MURO E SE FERE. Um sujeito invadiu o quintal da resi­
dência de uma pessoa, fazendo menção de agredi-la. Ela, para fugir, pulou 
um muro, sofrendo lesões corporais.
Solução clássica: a 11a Câm. do TACrimSP, na ACrim 409.047, de 
Socorro, j. 2-12-1985, aplicando o dogma da conditio sine qua non, man­
teve a condenação por crime de lesão corporal leve240.
Solução de acordo com a teoria da imputação objetiva: o agente só 
devia responder por violação de domicílio, tentativa de lesão corporal, 
porte de arma etc. Mas não por lesão corporal em face da conduta da própria 
vítima. Como diria CLAUDIA LÓPEZ DÍAZ, \u201co modelo de perigo criado\u201d 
pelo invasor \u201cnão era o mesmo que se materializou no resultado\u201d241.
4. CASO DA VÍTIMA QUE, ASSUSTADA PELO FATO DE O AGEN­
TE, EMBRIAGADO, BRANDIR UMA FACA EM SUA DIREÇÃO, CORRE 
PARA O MEIO DA PISTA DE UMA RODOVIA, VINDO A SER ATRO-
238. Rev. cit., 700:456.
239. No mesmo sentido, apreciando exemplo de vítima que foge de assaltantes e 
invocando o art. 13, § 1Q, do CP (superveniência de causa relativamente independente): 
LUIZ VICENTE CERNICCHIARO, Questões criminais, Belo Horizonte, Del Rey, 1998, 
p. 19e 20.
240. JTACrimSP, 86:311. No mesmo sentido: JTACrimSPy 69:321 (gesto agressivo do 
agente e fratura do pé da vítima ao cair durante a fuga). A Folha de S. Paulo, edição de 11- 
9-2000, publicou notícia de que um rapaz, no Morro do Azul, no Rio de Janeiro, ao tentar 
fugir de três homens que o perseguiam, caiu de um muro, quebrou o pescoço e faleceu 
(Cotidiano, p. 5).
241. Introducción a la imputación objetiva, Bogotá, Centro de Investigaciones de De- 
recho Penal y Filosofia dei Derecho, Universidad Externado de Colombia, 1996, p. 50.
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PELADA E MORTA. Em Tatuí (SP), um sujeito, embriagado, cruzou com a 
vítima no acostamento de uma rodovia. \u201cSeja pela embriaguez, por brincadei­
ra ou por fato anterior\u201d , brandiu uma faca em direção à vítima. Esta, assustada, 
correu na direção da pista, sendo atropelada e morta por um ônibus.
Solução clássica: a 10a Câm. do TACrimSP, na ACrim 385.023, j. 
27-8-1985, em grau de recurso, absolveu o agente, entendendo haver inter­
rupção do nexo de causalidade, nos termos do art. 13, § 1Q, do CP242.
Solução de acordo com a teoria da imputação objetiva: ausência de 
imputação objetiva do resultado morte (atipicidade do resultado). A solução 
do tribunal, excluindo o nexo de causalidade, deixava intangível a tipicida- 
de da conduta e do resultado. Em outros termos: a tese do acórdão permitia 
que a conduta e o resultado ingressassem na esfera penal pela tipicidade, 
excluindo-se em momento posterior a responsabilidade do sujeito pela 
ausência de nexo causal entre eles243.
5. CASO DA VÍTIMA GRAVEMENTE FERIDA NO TRÂNSITO 
QUE RECEBE INSATISFATÓRIO E DEFICIENTE TRATAMENTO 
HOSPITALAR, VINDO A FALECER. Uma pessoa foi atropelada culpo- 
samente no trânsito, sofrendo lesões corporais graves. Internada num hos­
pital, recebeu tratamento \u201cdeficiente\u201d e \u201cinsatisfatório\u201d , vindo a falecer.
Solução do caso de acordo com a doutrina do dogma causal: o autor 
do atropelamento culposo foi condenado por homicídio culposo, entenden­
do-se que no \u201ccrime de homicídio o nexo de causalidade entre a conduta do 
agente e o resultado
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