Imputação Objetiva    Damásio de Jesus
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Imputação Objetiva Damásio de Jesus


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missiva com má notícia é do comum da vida, inserindo-
278. TACrimSP, 2a Câm., ACrim 168.061, j. 22-11-1977, RT, 536:341.
279. Exemplo de LUIS JIMÉNEZ DE ASÚA, Tratado de Derecho Penal, Buenos Aires, 
Losada, 1965, t. 3, p. 576.
280. Nesse sentido: LUIS JIMÉNEZ DE ASÚA, Tratado de Derecho Penaly Buenos 
Aires, Losada, 1965, t. 3, p. 576 e 577.
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se no conceito de risco permitido. A entender-se haver homicídio consuma­
do na hipótese, de se perguntar: e se a mãe do jovem, recebendo a carta, 
viesse a sofrer uma grave crise cardíaca, conseguindo os médicos salvá-la 
da morte, seria caso de tentativa de homicídio? Note-se que a conduta do 
autor é a mesma, diferenciando-se as situações: na primeira hipótese a ví­
tima morre, na segunda, não. Ora, a se considerar homicídio doloso o pri­
meiro fato, subsistiria tentativa de homicídio no segundo, solução difícil de 
ser defendida.
OS BRUXOS DE CHILOÉ E A SUPERSTIÇÃO QUE MATA. Na 
Província de Chiloé, no Chile, a superstição alcança 80% da população. 
Quase todos acreditam em bruxaria e malfeitos. Qualquer família orgulha- 
se de ter um filho dedicado ao estudo dos bruxos, da mesma forma que 
enaltece as qualidades de outro que é médico ou professor281.
Imagine que num vilarejo haja uma arraigada superstição de que, 
pondo o sapato de uma pessoa no caixão de um defunto, ela morre. Um 
jovem, desprezado pela namorada, desejando sua morte e acreditando no 
malfeito, furtivamente lhe subtrai um pé de sandália e o coloca no caixão 
de um homem que acaba de morrer. A moça, tomando conhecimento do 
fato e firmemente crente do presságio, contrai grave psicose e vem a fale­
cer282. Há imputação objetiva do resultado?
O jovem rejeitado não responde pelo resultado283. Colocar um pé de 
sandália num caixão de defunto não é ato executório de homicídio. A norma 
do art. 121 do CP não visa a impedir que se coloque um pé de sapato no 
caixão de um defunto. A entender-se de modo diverso, perguntamos: e se a 
vítima fosse salva por um médico, o jovem responderia por tentativa de 
homicídio?
A MALDIÇÃO DA LAGARTIXA. Há, numa ilha, forte superstição 
de que, colocando um réptil na cabeça de uma pessoa, ela morre. A, com 
intenção de matar B , põe uma lagartixa na cabeça deste. B , acreditando na 
maldição, contrai psicose e, meses depois, vem a falecer. Atribui-se a mor­
te da vítima ao autor?
281. MARCUS CLÁUDIO ACQUAVIVA, Lendas e tradições das Américas, São 
Paulo, Hemus, 1996, p. 99.
282. Caso, alterado por nós, discutido in LUIS JIMÉNEZ DE ASÚA, Tratado de De- 
recho Penal, Buenos Aires, Losada, 1965, t. 3, p. 576 e 577.
283. Nesse sentido: LUIS JIMÉNEZ DE ASÚA, Tratado de Derecho Penal, Buenos 
Aires, Losada, 1965, t. 3, p. 577 e 578 (no exemplo de ASÚA, tomado da doutrina alemã, a 
vítima não morre).
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A não responde pela morte de B. Pôr lagartixa na cabeça de alguém 
não configura ato executório de homicídio. Caso contrário, haveria tentati­
va de homicídio se um médico conseguisse salvar B I Ou se o agente, ten­
tando jogar o animal na cabeça da vítima, errasse o alvo?
CASO DO PROFISSIONAL INVEJOSO. A, empregado de B , tem 
inveja do patrão, empresário bem-sucedido, sabendo que ele é portador de 
grave anomalia cardíaca. Seguindo a lição de que \u201cnão há ódio mais impla­
cável que o da inveja\u201d284, engendra um plano para arruiná-lo e lhe causar a 
morte (\u201ca inveja destrói como câncer\u201d , Provérbios, 24:30). Tendo ganho 
razoável importância na loteria, pede demissão da firma, constrói um esta­
belecimento similar ao lado da empresa do patrão e passa a contratar, a peso 
de ouro, os melhores funcionários da vítima, levando-a a uma situação de 
quebra284 A. B, quando recebe a intimação judicial da sentença declaratória 
da falência, sofre um ataque cardíaco e morre. Independentemente do even­
tual crime de concorrência desleal, há imputação objetiva da morte?
A resposta é negativa, tendo em vista que levar alguém à falência não 
é ato executório de homicídio.
2o regra) O sujeito desconhecia as condições físicas, fisiológicas e 
psíquicas especiais do sujeito passivo.
Nesse caso, não sabia que a vítima era hemofílica, epiléptica, portadora 
de doenças da coluna vertebral, diabética, alérgica, intolerante a anestesia 
geral, com problemas cardíacos, sujeita a tromboses etc. Exemplo:
RETORNO AO CASO DAS LESÕES PRODUZIDAS EM HEMO­
FÍLICO A TIROS DE REVÓLVER. A vítima, portadora de hemofilia, é 
lesionada dolosamente a tiros de revólver, vindo a morrer em conseqüência 
de graves ferimentos provocadores de intensa hemorragia. O autor dos 
disparos desconhecia a condição personalíssima da vítima.
Nesse caso, segundo WOLFGANG FRISCH, não há juízo positivo de 
imputação objetiva do resultado, respondendo o autor dentro dos marcos de 
sua conduta inicial285. Cremos que há duas situações:
284. SCHOPENHAUER, citado por ZUENIR VENTURA in Inveja \u2014 mal secreto, Rio 
de Janeiro, Objetiva, 1998, p. 9. No Brasil, uma pesquisa pessoal perguntou \u201cdo que você 
tem mais inveja dos outros?\u201d. 1% responderam: \u201cdo sucesso pessoal\u201d (Veja, out. 2000, n. 
40, p. 35).
284-A. A traição, diz GEORGE P. FLETCHER, \u201cé um dos pecados capitais da nossa 
civilização. Dante reservou um lugar especial no inferno àqueles que atraiçoam\u201d (Lealtad, 
trad. Leonardo A. Zaibert, Valência, Tirant lo Blanch, 2001, p. 31).
285. Tipo penal e imputación objetiva, Madrid, Colex, 1995, p. 80.
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Ia) A perícia demonstra inexistir relação entre a hemofilia e o resulta­
do. As lesões eram tão graves que produziram, por si sós, a morte da vítima. 
Haveria hemorragia ainda que a vítima não fosse hemofílica. O autor res­
ponde pelo evento, havendo imputação objetiva286.
2a) O laudo pericial e as outras provas afirmam haver relação da mor­
te com a hemofilia. Se a vítima não fosse hemofílica, os médicos teriam 
conseguido salvá-la. O sujeito só responde por tentativa de homicídio.
Outros exemplos:
1. CASO DO SOCO NO ROSTO E COLAPSO CARDÍACO. Um 
sujeito desfecha um soco no rosto da vítima. Cardíaca, mal desconhecido 
do agente, ela sofre uma violenta crise emocional que desencadeia um co­
lapso cardíaco, vindo a falecer. O ofensor só responde por crime de lesão 
corporal. A morte não pode ser creditada a sua conduta287.
2. CASO DO ENFARTE MOTIVADO POR EMOÇÃO NO TRÂNSI­
TO. Em face de haver sofrido uma ultrapassagem perigosa no trânsito, um 
motorista, portador de anomalias cardíacas, sofre um enfarte por causa de uma 
crise emocional, falecendo. O condutor que realizou a manobra perigosa não 
responde pela morte288. Como diz YESID REYES ALVARADO, a norma que 
impõe ao motorista o dever de dirigir adequadamente não visa a proteger os 
demais condutores de enfartes do miocárdio em face de uma alteração ner­
vosa generalizada provocada por uma ultrapassagem perigosa289.
CASOS CONCRETOS:
1. CASO DA MORTE POR RAZÃO CARDÍACA EM FACE DE 
LESÃO CORPORAL LEVE (Inquérito policial n. 1.324/96-IV, I Tribunal 
do Júri de São Paulo; indiciado: A. S. S; vítima: E. R. G.). Observação: os 
nomes das pessoas são fictícios.
286. Sobre o valor da perícia na teoria da imputação objetiva, vide EDGARDO AL­
BERTO DONNA, La imputación objetiva, Revista de Derecho Penaly Criminologia, Madrid, 
Faculdad de Derecho de la Universidad Nacional de Educación a Distancia, jul. 1998, 
2:143.
287. Nesse sentido: YESID REYES ALVARADO, Imputación objetiva, Bogotá, Temis, 
1994, p. 189; ANDRÉ LUÍS CALLEGARI, A imputação objetiva no Direito Penal, RT> 
764:441 e nota 65.
288. Nesse sentido: ANDRÉ LUÍS CALLEGARI, A imputação objetiva no Direito 
Penal, R T, 764:441 e nota 65.
289.Imputación objetiva, Bogotá,Temis, 1994,p. 204 e 316. No mesmo sentido,citados 
por YESID REYES ALVARADO: BACIGALUPO, BIDASOLO, ELENA PIJOAN LAR- 
RAURI, ROXIN, SCHÜNEMANN, STRATENWERTH, TORÍO LÓPEZ e WOLTER (YE- 
SID REYES ALVARADO, Imputación objetiva, Bogotá, Temis, 1994, p. 316, nota
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