Anatoliy Golitsyn   Novas Mentiras Velhas
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Anatoliy Golitsyn Novas Mentiras Velhas


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de relações exteriores, outras seções do governo e 
aparatos político-governamentais, além das organizações de 
massa, a fim de adequá-las todas à implementação da nova política 
e torná-las instrumentos desta. Algumas modificações altamente 
significativas foram feitas no aparato do próprio Comitê Central, 
em 1958 e depois. Um novo Departamento de Política Externa foi 
organizado, com o propósito de supervisionar todos os 
departamentos governamentais envolvidos em assuntos 
estrangeiros e também para coordenar a política externa soviética 
com as de outros estados comunistas. Esse novo departamento 
estava sob o controle direto de Krushchev. 
 Foi adotada uma nova prática com relação à indicação de 
embaixadores junto a outros países comunistas. Passaram a ser 
escolhidos proeminentes funcionários do partido, normalmente 
membros do Comitê Central, de forma a garantir que haveria uma 
adequada coordenação da política entre partidos, bem como entre 
governos. 
 Um outro novo departamento foi criado pelo Comitê 
Central, agora o Departamento de Operações Ativas. As funções 
deste eram de coordenar o programa de desinformação do bloco e 
conduzir operações políticas e de desinformação especiais, sempre 
em apoio às diretrizes da política de longo alcance. Suas atividades 
começaram pela condução de reuniões secretas, destinadas à 
instrução detalhada de altos funcionários do Ministério das 
Relações Exteriores, do Comitê de Informações e dos serviços de 
segurança e inteligência. Para servir aos interesses desse novo 
departamento de operações, foi criada a agência de notícias 
Novosti. 
 Uma mudança importante foi a transferência do Comitê de 
Informações, até então subordinado ao Ministério das Relações 
Exteriores, para o aparato do Comitê Central. Uma das novas 
funções do Comitê de Informações era a de preparar estudos e 
análises numa perspectiva de longo alcance para o Comitê Central. 
Outra nova função desse comitê era a de estabelecer contato com 
estadistas estrangeiros e outras figuras proeminentes, quer nos seus 
países mesmo ou quando em visita à União Soviética, e daí usá-los 
para influenciar os governos ocidentais. O seu chefe era Georgiy 
Zhukov, um ex-agente do serviço de inteligência soviético e que 
tinha muitos contatos entre políticos, jornalistas e figuras da cena 
cultural ocidental. Zhukov era ele mesmo um hábil jornalista. 
 Talvez as mudanças mais importantes tenham sido as 
indicações de Mironov e Shelepin. Mironov tinha sido o chefe da 
seção regional da KGB em Leningrado. Enquanto estava naquele 
posto, Mironov tinha estudado a operação \u201cTruste\u201d, na qual a 
OGPU de Leningrado desempenhou papel ativo. Ele era amigo de 
Brezhnev e tinha fácil acesso a ele. Shelepin era um amigo de 
Mironov. Foi Mironov quem primeiro chamou a atenção de 
Shelepin para o papel da OGPU durante o período da NEP. 
 Em 1958, Mironov e Shelepin discutiram com Krushchev e 
Brezhnev a idéia de transformar a KGB, de uma típica força de 
polícia política secreta, numa arma política flexível e sofisticada, 
capaz de desempenhar um papel efetivo e eficaz no apoio à 
política, assim como fizera a OGPU durante a NEP. 
 Eles foram recompensados por essa sugestão com postos no 
aparato do Comitê Central. Shelepin foi nomeado chefe do 
Departamento de Órgãos Partidários e, mais tarde, diretor-geral da 
KGB. Mironov foi nomeado chefe do Departamento de Órgãos 
Administrativos. 
 No outono de 1958, o Presidium do Comitê Central discutiu 
a sugestão de Mironov e Shelepin, no contexto do desempenho da 
KGB e de seu diretor, Serov. Este havia entregado ao Presidium 
um relatório sobre o trabalho da KGB na União Soviética e no 
exterior. O relatório tornou-se alvo de duras e agudas críticas. O 
crítico principal era Shelepin. Segundo ele, sob Serov a KGB 
transformou-se numa organização policial muito eficiente, que 
com a sua grande e bem disseminada rede de informantes e 
agentes ao redor do país detectou e conteve com sucesso tanto 
elementos da oposição entre a população, como agentes dos 
serviços de inteligência ocidentais. Porém, a KGB tinha falhado ao 
não influenciar a opinião da população em favor do regime e em 
não prevenir o crescimento de tendências políticas indesejáveis no 
país ou entre anticomunistas no exterior. Shelepin louvou os 
recentes sucessos de infiltração e obtenção de segredos de 
governos ocidentais pela KGB, mas disse que o papel desta era 
muito passivo e limitado, visto que nada tinha feito para ajudar na 
luta estratégica, política e ideológica com as potências capitalistas. 
 Shelepin ia além, dizendo que a razão principal para aquela 
situação insatisfatória na KGB foi o distanciamento dessa das 
tradições e de estilo da OGPU, sua predecessora sob Lênin. A 
OGPU, ainda que sem experiência, fez uma contribuição muito 
maior à implementação política do que qualquer de suas 
sucessoras. Para exemplificar o que dizia, Shelepin citou os 
movimentos \u201cEurasiano\u201d, \u201cMudança de Sinalização\u201d e \u201cTruste\u201d. 
Ao contrário da OGPU, a KGB degenerou-se numa organização 
passiva e repressora. Seus métodos eram autodestrutivos, pois só 
serviam para endurecer a oposição e causar danos ao prestígio do 
regime. A KGB também falhou ao não colaborar com os serviços 
de segurança de outros países do bloco, em questões políticas. 
 Shelepin elogiou e endossou as idéias de Mironov e disse 
que a KGB deveria concentrar-se em atividades políticas criativas 
e positivas, sob a direção da liderança do partido. Um novo e mais 
importante papel deveria ser dado à desinformação. A União 
Soviética, em conjunto com os outros países comunistas, dispunha 
de importantíssimos recursos de inteligência, internos e externos, 
mas que tinham permanecido inoperantes, especialmente na pessoa 
de agentes da KGB infiltrados na intelligentzia soviética. 
 O Presidium decidiu examinar o papel da KGB durante o 
21.o Congresso do partido, que teria ocasião em janeiro e fevereiro 
de 1959. Em termos genéricos, a imprensa soviética confirmou que 
tal exame realmente aconteceu. 
Sob o comando de Mironov, o Departamento de Órgãos 
Administrativos tornou-se muito importante. Suas funções eram as 
de supervisionar e coordenar o trabalho dos departamentos 
envolvidos com a ordem interna, tal como a KGB, o Ministério do 
Interior, o escritório da promotoria, o Ministério da Justiça e os 
tribunais. Mironov foi escolhido de modo a que ele pudesse imbuir 
essas instituições do estilo e métodos de Dzerzhinski, o chefe da 
OGPU nos anos 20. 
 Shelepin foi indicado como diretor-geral da KGB em 
dezembro de 1958. Em maio de 1959, foi realizada em Moscou 
uma conferência dos oficiais superiores da KGB. Estavam 
presentes à reunião: Kirichenko, representando o Presidium; os 
ministros da defesa e assuntos internos; membros do Comitê 
Central e algo em torno de dois mil oficiais e altos funcionários da 
KGB. 
 Shelepin reportou-se à conferência com base nas novas 
tarefas políticas da KGB33 . Alguns dos pontos mais específicos 
contidos em seu relatório eram os seguintes: 
\u2022 
Os \u201cinimigos principais\u201d da União Soviética eram os Estados 
Unidos, Grã-Bretanha, França, Alemanha Ocidental, Japão e 
todos os países da OTAN, além das outras alianças militares 
apoiadas pelo Ocidente. (Em documento oficial, essa foi a 
primeira vez que a KGB assim se referiu à Alemanha 
Ocidental, ao Japão e aos países menores). 
33 O autor leu e estudou o Relatório Shelepin enquanto era aluno do Instituto da 
KGB. 
\u2022 
Os serviços de segurança e inteligência de todo o bloco 
deveriam ser mobilizados para influenciar as relações 
internacionais nas direções requeridas pela nova política de 
longo alcance e, na realidade, para desestabilizar os \u201cinimigos 
principais\u201d e enfraquecer as alianças entre eles. 
\u2022 
Os esforços da KGB junto à intelligentzia soviética deveriam 
ser redirecionados
Helmonth
Helmonth fez um comentário
Oi! como faço pra baixar o pdf?
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