Anatoliy Golitsyn   Novas Mentiras Velhas
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Anatoliy Golitsyn Novas Mentiras Velhas


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o mundo comunista através de fontes comunistas não deveria 
ser nem ignorada, nem superestimada. 
 É óbvio que nem todos os itens e artigos que aparecem na 
imprensa comunista são falsos ou distorcidos para fins de 
propaganda ou desinformação. Ainda que ambas estejam presentes 
em grau significativo, a imprensa comunista também reflete, até 
certo ponto corretamente, a vida complexa e as atividades de uma 
sociedade comunista. Os membros do partido e a população são 
mantidos informados pela imprensa acerca das mais importantes 
decisões e eventos do partido e do governo. São também 
mobilizados e guiados através da imprensa a colocar em prática 
aquelas decisões. 
 Por essas razões, o estudo da imprensa comunista é 
importante para o Ocidente. Mas o problema para os analistas 
ocidentais é distinguir entre a informação factual e a propaganda e 
desinformação, que se encontram todas misturadas na imprensa. 
Aqui, certas inclinações ocidentais tendem a se colocar no 
caminho da análise eficaz: a tendência de considerar certos 
problemas comunistas como reflexo de problemas mundiais 
eternos e imutáveis; uma tendência em presumir que mudanças na 
sociedade comunista são acontecimentos espontâneos; e uma 
tendência a interpretar acontecimentos e situações no mundo 
comunista com base na experiência, noções e terminologia dos 
sistemas ocidentais. 
 Sem dúvida, há elementos eternos e imutáveis em ação na 
política comunista (Stálin inegavelmente tinha algo em comum 
com outros tiranos não-comunistas). Alguns acontecimentos no 
mundo comunista são espontâneos (a revolta húngara é um 
exemplo) e há algumas similaridades no desenrolar de eventos nos 
mundos comunista e não-comunista. É mais importante ressaltar 
que há também uma continuidade definida, ideológica, política e 
operacional no movimento comunista e em seus regimes, cujos 
elementos específicos não deveriam ser desprezados ou ignorados. 
Há um conjunto mais ou menos permanente de fatores que reflete 
a essência do comunismo e que o torna diferente de qualquer outro 
sistema social ou político. E há certos problemas permanentes com 
os quais os comunistas lidam, obtendo variados graus de sucesso e 
fracasso. Esses fatores e problemas são, p.ex., ideologia de classes, 
nacionalismo, relações intrabloco e interpartidárias, 
internacionalismo, revisionismo, lutas pelo poder, sucessão na 
liderança, expurgos, política para com o Ocidente, táticas 
partidárias, a natureza das crises e fracassos no mundo comunista e 
as soluções e reajustes que são aplicados a eles. Menosprezar ou 
subestimar aquilo que é especificamente comunista no conteúdo e 
no tratamento de todos esses problemas, é incorrer em erro. Por 
exemplo, tentar explicar os expurgos dos anos 30 com base no 
perfil psicológico de Stálin seria apenas arranhar a superfície do 
assunto, e com muita pressa. Não menos errônea seria a análise, 
com base em termos ocidentais, do nacionalismo que sem dúvida 
existe no mundo comunista. 
 Mesmo os analistas ocidentais que reconheceram a natureza 
específica e a continuidade dos regimes comunistas e superaram 
aquelas três tendências mencionadas há pouco, com freqüência 
apresentam uma quarta tendência, que é a de aplicar estereótipos 
derivados do período de Stálin aos acontecimentos posteriores no 
mundo comunista. Assim, esses analistas não levam em conta nem 
a possibilidade de reajustes nos regimes comunistas, nem a de uma 
abordagem mais racional dos permanentes problemas confrontados 
por esses regimes. 
 Historicamente falando, a ideologia e prática comunistas 
demonstraram-se capazes de flexibilidade e de boa adaptação às 
circunstâncias: a NEP de Lênin é um bom exemplo. Continuidade 
e mudança estão ambas presentes no sistema comunista; ambas 
estão refletidas na imprensa comunista. 
 A análise da imprensa comunista é, portanto, importante 
para a compreensão do mundo comunista, mas só e quando feita 
corretamente. Um conhecimento da história comunista aliado à 
compreensão dos fatores e problemas permanentes e das maneiras 
pelas quais eles foram enfrentados em diferentes períodos 
históricos, são essenciais. E assim também é essencial \u2013 levandose 
em conta que isso esteve quase que totalmente ausente do 
Ocidente \u2013 uma compreensão do papel e do padrão de 
desinformação comunista num dado período e o efeito que essa 
compreensão sobre a validade e confiabilidade das fontes. 
Parte I \u2013 Capítulo 9 
A Vulnerabilidade das Avaliações 
Ocidentais 
Considerando que os regimes 
comunistas praticam a desinformação em 
tempo de paz e numa escala sem paralelo no 
Ocidente, é essencial determinar o padrão de 
desinformação que está sendo seguido, se é 
que os estudos e avaliações ocidentais 
pretendem evitar erros sérios. Uma vez que 
o padrão tenha sido estabelecido, ele provê 
critérios para distinguir as fontes confiáveis 
das não confiáveis e a informação genuína 
da desinformação. Determinar o padrão é 
difícil, talvez impossível, a não ser que se 
disponha de uma fonte interna privilegiada e 
confiável. 
Neste ponto, deveria ser assinalada 
uma distinção entre as fontes comunistas e 
as fontes ocidentais. Todas as fontes 
comunistas estão permanentemente 
disponíveis como canais naturais de 
desinformação. As fontes ocidentais, em 
geral estão menos disponíveis como canais, 
mas em graus variados, podem vir a 
tornarem-se canais, dependendo de que sua 
existência seja ou não conhecida pelo lado 
comunista. Com as fontes comunistas o 
problema é detectar como é que elas estão 
sendo usadas para a desinformação; com as 
fontes ocidentais, o problema se divide em 
dois: determinar se as fontes foram 
comprometidas e expostas ao lado 
comunista, e se for esse o caso, se elas estão 
sendo usadas para propósitos de 
desinformação.
 Um vez que as fontes ocidentais são em geral menos 
vulneráveis que as comunistas, no que diz respeito à exploração 
com propósitos de desinformação, aquelas tendem a ser 
consideradas como mais confiáveis que as fontes comunistas, as 
quais são completamente suscetíveis e abertas à exploração. 
Todavia, se as fontes ocidentais forem comprometidas ou expostas 
(especialmente nos casos em que o Ocidente não souber desses 
comprometimentos ou não desejar admiti-los), então elas tornarse-
ão não confiá-
Parte I \u2013 Capítulo 9 
veis e até mesmo perigosas. No sentido contrário, se o padrão de 
desinformação for conhecido e se um método de análise adequado 
for aplicado, até mesmo as fontes comunistas podem revelar 
informações confiáveis e importantes. 
 A situação ideal para o Ocidente se realiza por meio de três 
condições simultâneas: quando seus serviços de inteligência 
dispõem de fontes de informação confiáveis no nível de 
formulação político-estratégica; quando são aplicados métodos de 
análise adequados às fontes comunistas e quando o padrão de 
desinformação comunista é conhecido. Cada uma dessas três 
condições reage pela ação das outras, com vantagens recíprocas. 
As fontes internas privilegiadas provêem informação relevante e 
adequada à análise ocidental; elas também ajudam a determinar o 
padrão de desinformação e dão aviso antecipado sobre quaisquer 
mudanças nesse padrão. Em contrapartida, o estabelecimento do 
padrão de desinformação e também do método de análise 
apropriado às fontes comunistas, levam a uma correta avaliação 
das fontes ocidentais e à revelação daquelas que tiverem sido 
infiltradas ou comprometidas. 
 Porém, o problema é que a eficácia dos serviços de 
inteligência ocidentais não pode ser dada como certa. Além dos 
obstáculos gerais na obtenção de informações confiáveis dos 
níveis mais altos e privilegiados no mundo comunista, há os riscos 
extras de essas fontes virem a se comprometer em função de seus 
próprios descuidos e erros, ou como resultado da penetração ou 
infiltração comunista
Helmonth
Helmonth fez um comentário
Oi! como faço pra baixar o pdf?
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