Pesquisa e Prática em Psicologia no Sertão - Angelo Sampaio e Daniel Espíndula (orgs.)
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Pesquisa e Prática em Psicologia no Sertão - Angelo Sampaio e Daniel Espíndula (orgs.)


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Tais falas nos permitem perceber que há pouco ou nenhum acesso 
dessas pessoas sobre outras formas de cuidado, com exceção da abstinência. 
Esta pouca ou nenhuma informação sobre as estratégias da RD podem ter se 
configurado como um fator que colaborou para que os sujeitos participantes 
deste trabalho se mostrassem ambivalentes frente à proposta da estratégia da 
Redução de Danos. 
Embora o conceito de ambivalência para Freud se preste mais a 
questões afetivas no que concerne o amor e o ódio destinado ao mesmo obje-
to, Laplanche e Pontalis (1996) relembram que Bleuler considera que a am-
bivalência possui três domínios: o voluntário, o intelectual e o afetivo. Nas 
falas dos usuários, percebemos a presença da ambivalência intelectual, uma 
vez que \u201cos sujeitos enunciam simultaneamente uma proposição e o seu con-
trário\u201d (Laplanche & Pontalis, 1996, p. 17). 
\u201cPra mim eu acho até bom, porque se a pessoa tiver consciência, de 
conseguir fazer essa troca, de usar só seu material...\u201d (Comentários 
do Sujeito T. sobre a oferta de materiais descartáveis para uso de 
substâncias injetáveis). 
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\u201cEu acho bom porque ficar usando drogas com outras pessoas o cara 
pode ter alguma doença né? E passar para você né? A proposta é 
boa\u201d (Sujeito S.). 
Em outra fala, no entanto, surge a preferência pela abstinência: 
\u201cEu quero ficar limpo de tudo da bebida também que um vício puxa 
o outro. [...] Acho melhor evitar tudo\u201d. (Sujeito S.) 
Dessa maneira, apesar dos usuários perceberem a RD como uma 
proposta que pode verdadeiramente funcionar, eles afirmam a opção pela 
abstinência como forma de tratamento por parecer, para eles, como um modo 
de se limpar das drogas e poderem ser reconhecidos socialmente, como dis-
cutido a seguir. 
Redução de danos e o dilema do (des)prestígio social 
 As observações resultantes do cotidiano do estágio e as diversas 
falas nos grupos focais realizados sugeriram que ideia de aderir a uma pro-
posta de cuidado baseada nas estratégias de RD provoca um notável descon-
forto nos usuários, especialmente em virtude da (suposta) falta de legitimida-
de e aceitação social em relação ao uso de drogas. Diante dessa provocação, 
um usuário expressa o seguinte pensamento: 
\u201cNo meu caso, eu penso na sociedade, pra ela aceitar isso. Aí as pes-
soas verem e dizer: Ah, G. usa cocaína, usa não sei o quê. O cons-
trangimento. Eu mesmo, pra entrar nesse grupo, seria difícil, então 
pra eles achar melhor, eu ia chegar e dizer: vou parar de vez\u201d (Sujei-
to G). 
 A imagem do usuário de drogas ainda é marcada pelo traço da de-
linquência e da marginalidade; são \u201cmalandros\u201d, comumente vistos como 
criminosos. Segundo Marins e Figueirêdo (2010, p. 13): 
Ficou esclarecido o lugar social que vem a ser ocupado pelo cidadão 
que se torna usuário de álcool e outras drogas: aquele representado 
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socialmente pela criminalidade, marginalidade e risco à convivência 
coletiva. Ou seja, a grande sequela no campo social do uso abusivo é 
a perda do usuário do seu lugar de sujeito de direitos, a perda da sua 
cidadania. O estigma, o preconceito e a discriminação que atraves-
sam a utopia da abstinência são os maiores instrumentos sociais de 
exclusão do usuário, na sua condição de usuário de álcool e outras 
drogas, ao acesso a serviços e benefícios sociais. 
 O usuário do CAPS AD parece pretender justamente se descolar 
desta identidade vergonhosa e constrangedora e, portanto, acredita que a via 
da abstinência seja a única direção possível. MacRae (2001), com base nas 
discussões das ciências sociais, afirma que existem em nosso meio instâncias 
de controle e regulação que são classificados em três grandes categorias: o 
heterocontrole, que estaria ligado às instituições de saúde, leis etc; o controle 
societário, vinculado à pressão dos cônjuges, vizinhos, família; e o autocon-
trole, marcado pelos variados graus de controle que os próprios usuários são 
capazes de exercer sobre suas práticas de consumo. 
 Nesse sentido, parece que o que se destaca nessa fala seria o controle 
societário, uma vez que está marcado que, pela pressão da sociedade, \u201cpra 
eles achar melhor\u201d, o sujeito opta por \u201cparar de vez\u201d. 
 Outro usuário comenta a afirmação do Sujeito G. da seguinte manei-
ra: 
\u201cNo caso de G., ele disse que ele tinha medo da sociedade, né? Isso 
eu tiro por experiência própria, porque quando eu tava usando o 
crack e a cocaína, o povo me via de outra forma, pra eles eu não era 
gente, eu era um qualquer, e hoje, como tô deixando, deixei, deixei 
com certeza o crack...\u201d (Sujeito T). 
 Neste contexto, a dimensão religiosa surge do seguinte modo: 
\u201cEssa questão de RD aí eu acrescentaria uma religião. A religião ia 
trabalhar em cima do autocontrole da pessoa\u201d (Sujeito G). 
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\u201cA pessoa tem que procurar o CAPS e procurar a igreja. Procurar a 
Deus também, se não, consegue não, o crack é terrível [...]. Tem que 
procurar muito a Deus, aí sim consegue sair\u201d (Sujeito S). 
Consideramos a relação da abstinência com a religião a partir da 
ponderação ilustrativa de Souza (2007, p. 32): 
A moral cristã compõe, junto com a justiça e a psiquiatria, uma rede 
de instituições que tem por finalidade única e comum a abstinência. 
Porém, ao contrário da psiquiatria que se volta mais para a doença 
mental e da justiça que se volta mais para a delinquência, a moral 
religiosa inclui um terceiro elemento, a associação do prazer ao mal. 
 É bastante comum a suspensão do tratamento no CAPS AD por par-
te de alguns usuários e a busca por socorro e recuperação em centros de rea-
bilitação dirigidos por Igrejas. A própria percepção do uso como algo peca-
minoso, sujo e moralmente condenável cria o ambiente de aproximação entre 
o usuário e a religião. Além disso, os próprios usuários do serviço demanda-
vam habitualmente a presença de uma figura religiosa (geralmente um pastor) 
como estratégia de apoio e cura. 
 Abrir mão do prazer é uma forma de penitenciar o sujeito, como 
verificado a seguir: 
\u201cO álcool para mim sempre foi de muito prazer. O álcool é extre-
mamente prazeroso. Sempre bebi foi por prazer [...] Tinha o violão, 
depois a gente ia para boate, tinha mulher. Então foi muito prazeroso 
[...]. No meu caso o álcool sempre foi de muito prazer, sabe? E eu 
não queria parar. Pior era isso que era tão prazeroso para mim que eu 
tava perdendo muita coisa. E tava perdendo mesmo, emprego, mas 
eu não queria por causa do prazer, até que um dia eu vim para cá 
(Sujeito Q.). 
Fundamental, aqui, perceber que cada sujeito elege e posiciona a 
droga ao seu modo. Para a psicanálise, a droga cumpre uma função, seja de 
gozo, suplência ou moderação. Conte (2003, p. 27) assevera que: 
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a maioria das práticas dominantes (cognitivo-comportamental, 
psiquiátrica e religiosa) reúnem-se na noção de objeto adequado em 
uma equivalência com a abstinência das drogas, fortalecendo a 
instância da vontade para colocar em prática um plano terapêutico 
que o sujeito recebe e de que pouco participa, e sem tocar nas 
origens do conflito toxicomaníaco. A noção freudiana de objeto 
perdido coloca-se em oposição a estas práticas citadas, por 
caracterizar-se por uma relação profundamente conflitual do sujeito 
com seu mundo. 
Como abrir mão do prazer do uso da substância, já que a via da 
religião e da abstinência parecem ser as únicas vias possíveis? Como 
localizar o gatilho que dispara o uso mortífero daquele que sustenta um uso 
moderado possível? Como se \u201ccurar\u201d, enfim, sem a implicação do próprio 
desejo? 
Considerações Finais 
 O término desse percurso não coincide, obviamente, com o encerra-
mento formal deste trabalho. O resultado deste ano de reflexões sobre