O trabalho do psicologo no sistema prisional   problematizações, ética e orientações   Cartilha do CFP
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O trabalho do psicologo no sistema prisional problematizações, ética e orientações Cartilha do CFP


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a mudança do tom emocional 
da política criminal, marcada agora, mais do que 
nunca, pelo medo do crime, o retorno da vítima ao 
centro dos acontecimentos, a retórica da proteção do 
interesse público, a politização do tema \u2013 não no sen-
tido de reflexão sobre os conteúdos e os objetivos polí-
ticos da pena, o que é desejável e salutar, mas no sen-
tido da apropriação do tema pela classe política para 
fins eleitoreiros, - a reinvenção da prisão como pena 
e a transformação do pensamento criminológico, com 
a ascensão dos discursos de \u201clei e ordem\u201d, que mol-
daram políticas criminais visceralmente repressivas 
como \u201ctolerância zero\u201d, \u201cvidraças quebradas\u201d, entre 
outras.\u201d (p. 8)
Nesse sentido, mesmo para os considerados não psi-
copatas as políticas de intervenção que visam uma rein-
serção social também não são enfatizadas como produ-
tivas e/ou eficazes, bem pelo contrário, marcando uma 
realidade de total impossibilidade da pena cumprida em 
ambiente privado de liberdade visar qualquer tipo de pro-
cesso libertador e/ou singularizador. 
Quanto aos chamados psicopatas, pela ideologia das 
neurociências voltadas ao crime, dependendo da gravi-
dade do quadro, não haveria qualquer possibilidade de 
mudança em termos de alteração da conduta criminal, 
seja superficial ou global, desencadeando as mais duras 
intervenções penais que visariam exclusivamente a defe-
sa e proteção da sociedade e de todas virtuais futuras ví-
timas, bem como o respeito ao luto das vítimas passadas. 
A diferenciação entre leves, moderados e graves coloca os 
primeiros em condições de receberem algum tipo de liber-
dade desde que devidamente monitorados e sob suspeitas 
de passarem novamente de virtuais criminosos para cri-
minosos de fato. Para os \u201ccertamente\u201d irrecuperáveis, as 
determinações de impossibilidade de transformação de-
legam a estes penas de isolamento absoluto dentro dos 
encarceramentos atuais e permanente distanciamento de 
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Problematizações, ética e orientações
Conselho Federal de Psicologia
qualquer convivência social e relacional. Morte social de 
fato sem qualquer possibilidade de vislumbrar penas me-
nos isolacionistas e degradantes. 
Discursos que sustentam práticas penais 
e modos de \u201cser criminoso\u201d
Quanto aos discursos de sustentação da pena, mais 
especificamente o segundo discurso (pena como a defe-
sa da sociedade ameaçada sustentada por um discurso 
normativo-econômico), as teses lombrosianas, da degene-
rescência e do evolucionismo arcaico se atualizam e são 
aparentemente mascaradas pelas novas tecnologias de 
exame e diagnóstico, inclusive psicológicos14, mostrando-
se presentes nas concepções de sujeito e nos conceitos 
utilizados que justificam tais discursos.
Articulando todos, consideramos que o processo de 
secularização de separação entre o castigo público e ex-
terno e a penitência confessional e divina mostra-se fala-
cioso, pois a separação entre crime e pecado que antiga-
mente ocorreu parcialmente se reproduz constantemente 
na atualidade pela interferência e influência do absolu-
tismo sagrado e dicotômico entre o bem e o mal na esfera 
penal e criminal. Este processo de secularização do Direi-
to mostra-se ilusório desde sua proposição, pois aquilo 
que deveria garantir uma separação dos valores morais e 
religiosos da esfera da justiça no processo de construção 
de um Estado social e penal laico, demonstra a ilusão de 
que os sujeitos humanos se constituiriam como não afe-
tados por referências de saber/poder vigentes no estado 
moderno, como seriam as questões morais e religiosas. 
14 Tomo como analisador a Escala Hare PCL-R (Psychopathy Checklist 
Revised), de autoria de Robert D. Hare, que está assim definida no site 
de venda: \u201cTrata-se de um instrumento que avalia o grau de risco da reinci-
dência criminal. Até hoje peritos como psicólogos e psiquiatras, não dispu-
nham de meios para avaliar esta possibilidade. Esse instrumento pondera 
traços de personalidade prototípicos de psicopatia. O PCL-R foi projetado 
para avaliar de maneira segura e objetiva o grau de periculosidade e de rea-
daptabilidade à vida comunitária de condenados, e os países que o instituí-
ram apresentaram considerável índice de redução da reincidência criminal.\u201d 
Disponível em http://www.casadopsicologo.com.br/escala-hare-pcl-r.
html#.WAzhueUrKUk. Acesso em 23/10/2016.
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O Trabalho da (o) psicóloga (o) no sistema prisional
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A pretensão dessa separação como pura e não conflitiva 
remeteria à concepção do ser humano como alguém as-
séptico e imparcial, que conseguiria mostrar-se neutro e 
separado das questões morais e religiosas que o rodeiam, 
mantendo intactos os princípios exclusivamente racio-
nais e cartesianos na elaboração de valores e decisões ao 
longo de sua existência. 
Assim, os valores morais, afetivos e religiosos inter-
ferem nas ações humanas, pensamentos, emoções, sen-
timentos e decisões quanto ao que se define como crime 
e pena, tutelando os criminosos a instâncias decisórias 
e impositivas que segmentam, separam e discriminam 
os mesmos pelo que são, não somente pelo que fazem. E 
mesmo que seja pelo que fazem, isso não implica numa 
ausência de moralismo na definição do que devem ou não 
fazer, caindo nas mesmas interferências morais na de-
limitação do que é certo ou errado, verdadeiro ou falso, 
válido ou não. A questão seria então considerar tais atra-
vessamentos para que se possa evitar seu uso abusivo na 
promoção de violências e injustiças cotidianas, especial-
mente pelas instâncias de saber/poder que definem hege-
monicamente modos de constituição subjetiva cotidiana-
mente, especialmente as ciências e práticas psicológicas 
e jurídicas.
Pelo caminho que se tem trilhado ao longo dos dois 
últimos séculos, as questões penais e \u201ccientíficas\u201d por 
não conseguirem se mostrar cientes das impossibilida-
des reais de eliminação de valores morais e religiosos nas 
suas definições, os atuam especialmente contra os bo-
des expiatórios definidos através da mobilização afetiva 
gerada socialmente quando os poderes/saberes vigentes 
mostram-se ameaçados. Este é o caso do uso da figura 
da vítima nos domínios criminais e penais contemporâ-
neos, pois quando as políticas criminais positivistas são 
questionadas sobre as práticas punitivas exageradas e as 
violações de direitos cometidas, justificam tais ações res-
gatando as \u201cpobres vítimas\u201d e a \u201csociedade de bem\u201d como 
retórica de legitimação de si mesmas. Com isso, através 
do sagrado e do divino, está aberto o caminho para as 
mortes institucionalizadas, seja pelo abandono ou pela 
cura interna de qualquer sujeito criminalizado:
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[...] exclusão-abandono e purificação-reintegração: 
duas exigências ligadas entre si pelo castigo enrai-
zado numa lógica de sansão familiar. A nossa pena 
pública, por estas origens arcaicas e escondidas, 
continua sem dúvida ainda prisioneira desta ambi-
güidade: organizando ao mesmo tempo cerimônias e 
locais de exclusão, entregando o condenado à infâ-
mia destruidora, pronunciando sua morte social (Ga-
rapon, Gros & Pech, 2001, p.20).
Nas sociedades modernas, a hegemonia dos três pri-
meiros discursos de justificação da pena, ou seja, da lei, da 
sociedade normativa e do indivíduo, sobre o último, da ví-
tima, mostra-se fundante das concepções modernas do di-
reito penal, já que aparentemente afasta do atributo penal 
a vingança como quesito injustificado para a manutenção 
de relações sociais mais justas e éticas. Porém, a entrada 
de fato da vítima na cena jurídica contemporânea coloca 
em evidência as contradições de todo este aparato concei-
tual, filosófico e ético sustentador da pena moderna e que 
aparentemente justificou até os dias atuais a