Práticas integrativas na rede de atenção psicossocial, humanização e arteterapia   Cartilha do CFP
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Práticas integrativas na rede de atenção psicossocial, humanização e arteterapia Cartilha do CFP


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que o fato de estar em comunhão, em comunidade, em contato, 
compartilhando um tempo e um espaço comum\u201d (Maffesoli, 2009, 
p. 12).
81Formação ético-estética e arteterapia na socialidade: encontros com o grupo PET-Saúde Redes
No processo de aproximar polaridades e relacionar par-
te e todo, surgiu a interação humana capaz de criar uma 
tessitura em forma de rede, o que nos levou a perguntar: 
Qual o significado dos processos educativos ético-estéticos e 
arteterapêuticos realizados com o grupo do PET-Saúde Re-
des? Desse modo, esta investigação objetivou descrever os 
encontros com o grupo dos \u201cpetianos\u201d e interpretar as infor-
mações coletadas na oficina realizada durante a formação.
A metodologia de trabalho consistiu em uma oficina 
pedagógica. Para esse espaço construtivo de saberes, re-
servamos oito encontros, pois tal proposição permitiria não 
somente a autocognição, o diálogo interprofissional e outra 
percepção do território formativo como também um olhar 
tolerante frente ao outro, uma oportunidade de testar um 
modo de docência e atuação em saúde que poderia trazer 
mudanças radicais nos moldes tradicionais, favorecendo a 
transdisciplinaridade. 
O que é certo, segundo Maffesoli, é que existe:
[...] uma forma de conhecimento das coisas, das pessoas, dos fenô-
menos sociais e das situações que se entrecruzam. Esse conheci-
mento ainda está por explorar e é até perfeitamente prospectivo, 
num mundo movente onde todas as certezas estão sendo questio-
nadas (2005, p. 126). 
Na tentativa de produzir um conhecimento que permi-
tisse a emergência do fenômeno, descrevemos as informa-
ções coletadas na oficina e as interpretamos seguindo os 
quatro passos do método fenomenológico de Giorgi (2009): o 
sentido do todo, as unidades de significado, a transformação 
das unidades ao revelar o fenômeno em questão e a síntese 
do todo, que expressa diversos níveis da experiência. 
No trajeto deste texto tratamos, inicialmente, da rela-
ção entre o significado de sociabilidade no ideário de Sim-
82 Graciela Ormezzano, Franciele Gallina
mel e de socialidade na teoria de Maffesoli, em seguida, des-
crevemos a formação ético-estética que utilizou atividades 
arteterapêuticas realizadas com o grupo em estudo, e, na 
sequência, procedemos à interpretação das essências feno-
menológicas emergentes das informações coletadas. Posto 
isso, concluímos com algumas reflexões finais.
Da sociabilidade em Simmel à 
socialidade em Maffesoli
De nacionalidade alemã, Georg Simmel foi um cientista 
social que viveu durante o final do século XVIII e início do 
século XIX. Apoiando-se nas concepções filosóficas kantia-
nas, sua teoria das formas de sociação compreende a reali-
dade social como extremamente complexa, implicando mo-
dos de individualização e socialização próprios a cada tempo. 
Michel Maffesoli é um sociólogo francês que atualmen-
te é professor na Sorbonne (Paris V). Como leitor de Simmel, 
ele atualiza a \u201csociologia das formas\u201d em uma \u201csociologia 
compreensiva\u201d, retoma a problemática do (re)nascimento de 
um ideal comunitário no qual a imagem possui um papel 
fundamental.
Simmel (2006), em seu antideterminismo e sua tenta-
tiva de considerar a dimensão subjetiva e intersubjetiva hu-
mana, aproxima-se de formas de manifestação da fenomeno-
logia social. Precisamos destacar assim que, para o autor, a 
sociedade é processo de socialização e a interação perpassa 
todas as fases da vida de forma dinâmica, em que o todo é o 
conjunto das relações mútuas funcionais.
Segundo Alcântara (2006), a sociabilidade presente no 
pensamento simmeliano é de suma importância para o es-
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tudo da sociedade bem como de suas formas sociais e para a 
edificação do socialmente constituído por meio do interagir 
dos sujeitos, considerando a operação existente entre as di-
mensões singular e social. O autor aproxima do fenômeno 
chamado sociabilidade a construção social, lembrando que 
ela se realiza pela via cultural, sendo resultante das quali-
dades integrantes das interações sociais. 
Ainda conforme Alcântara, a teoria simmeliana abran-
ge conteúdos materiais e formas de vida social em que a 
interação entre os sujeitos surge a partir de determinados 
impulsos ou da busca de certas finalidades que acabam por 
desencadear redes de reciprocidades expressas nas formas 
sociais, às quais chama de associações. \u201cA sociabilidade é re-
sultante das condições inerentes e gestadas pelas múltiplas 
combinações interacionais acionadas a partir dos indivíduos 
por grupos e por classes sociais, sintetizadas e cristalizadas 
na própria sociedade\u201d (2006, p. 190).
É na dimensão social que as pessoas exercem e sofrem 
efeitos umas sobre as outras. De acordo com Simmel:
Instintos eróticos, interesses objetivos, impulsos religiosos, objeti-
vos de defesa, ataque, jogo, conquista, ajuda, doutrinação e inúme-
ras outras fazem com que o ser humano entre, com os outros, em 
uma relação de convívio, de atuação com referência ao outro, com 
o outro e contra o outro, em seu estado de correlação com os outros 
(2006, p. 60).
Portanto, Simmel postula uma relação dinâmica entre 
pessoas que querem ser aceitas socialmente, o que se apre-
senta na forma de sociação, \u201c[...] na qual os indivíduos em 
razão de seus interesses se desenvolvem conjuntamente em 
direção a uma unidade no seio da qual esses interesses se 
realizam\u201d (Simmel, 2006, p. 60). Desse modo, o sujeito que 
pretende efetivar-se como parte de uma sociedade vai infun-
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dir-se no que o autor chama de \u201ctatos sociais\u201d. Alcântara faz 
uma tentativa de compreensão dessa terminologia, afirman-
do que:
O tato social seria o conjunto de maneiras, atitudes e trejeitos so-
cialmente sancionados, prestando-se à efetivação das conexões das 
interações e relações sociais, o que permitirá aglutinar os indiví-
duos em torno de indeterminados interesses motivacionais. É uma 
ação objetivando a própria sociação (2006, p. 191).
Compreendemos assim uma perspectiva teórica que 
aproxima ação-sociação, vínculo fundado na tessitura que 
cria uma teia entre os seres humanos no mundo. Tais fios 
que, para Simmel, ligam os eventos exteriores às opções fi-
nais referentes ao sentido da vida, são para Maffesoli uma 
demonstração do sistema reticular que descreve o cotidiano: 
Rede sutil, complexa na qual cada elemento, objeto, assunto, situa-
ções anódinas, eventos importantes, pensamento, ação, relações, 
etc., só funciona enquanto ligado ao todo e só faz sentido dentro 
e pela globalidade. É isso que se percebe, de uma maneira mais 
ou menos consciente, na valorização contemporânea do quotidiano 
(1995, p. 65).
Simmel entende que as pessoas modificam o mundo por 
meio de formas e com base nas condições e nas necessidades 
práticas elaboram o material que tomam do mundo. Segun-
do o autor, \u201cA arte e a ciência deram formas ao mundo, mas 
em um dado momento, tornaram-se um fim em si mesmas\u201d 
(2006, p. 61). 
Nesse sentido, as matérias determinam as formas, e as 
formas passam a determinar as matérias, tornando-se va-
lores definitivos, operando de modo mais extensivo em tudo 
aquilo que chamamos de jogo. Essas formas adquirem vida 
própria, livre de todos os conteúdos materiais, mas acompa-
nhadas por um sentimento e por uma satisfação de estar so-
cializadas. \u201cNão é desprovido de significado o fato de que, em 
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muitas \u2013 talvez em todas \u2013 as línguas europeias, \u2018sociedade\u2019 
signifique exatamente \u2018convivência sociável\u2019\u201d (Simmel, 2006, 
p. 65, grifo do autor). Nesse sentido, a sociabilidade é uma 
forma lúdica de sociação e \u201c[...] algo cuja concretude deter-
minada se comporta da mesma maneira