Práticas integrativas na rede de atenção psicossocial, humanização e arteterapia   Cartilha do CFP
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Práticas integrativas na rede de atenção psicossocial, humanização e arteterapia Cartilha do CFP


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à saúde e com cuidado humanizado a usuários, 
famílias e comunidades.
As atividades dos grupos tutoriais, nos serviços de saú-
de e nas comunidades, confrontam os participantes com a 
realidade (aspectos estruturais, financeiros, biopsicossociais 
e culturais), o que os livros e as aulas tradicionais não pro-
porcionam. Os participantes deparam-se com todas as fragi-
lidades \u2013 tanto do ensino quanto da saúde e, principalmente, 
dos sujeitos, sejam usuários do sistema, profissionais, do-
centes ou estudantes \u2013, o que impõe desafios de superações 
institucionais e, sobretudo, pessoais. Isso demanda que es-
ses atores estejam preparados do ponto de vista físico, psi-
cológico e espiritual, além de serem instigados a utilizar a 
criatividade, a arte e diversas metodologias que lhes propor-
cionem participar ativamente dos processos de educação de 
forma lúdica, prazerosa e significativa.
Linguagem mítica e educação
Nas vivências do cotidiano, imagens, gestos e ações es-
tão conectados entre si. As manifestações das dimensões hu-
manas podem ser consideradas como linguagem na execu-
125O fio de Ariadne: uma experiência exitosa no PET-Saúde Redes
ção plástica e nas vivências ético-estéticas. Neste trabalho, 
propomos que os participantes aprendessem a lidar com a 
expansão da consciência, e que essa experiência lhes possi-
bilitasse criar referenciais na construção de valores estru-
turais de sua formação, tendo em vista que o ser humano, 
além de um ser complexo composto por suas dimensões físi-
ca, psíquica, espiritual, social e cultural, é um ser simbólico, 
repleto de emoções, sentimentos, ideias e histórias. 
É envolto por essa teia de relações que o homem/mulher 
percebe a si, ao outro e ao universo. Nesse processo, a lin-
guagem está presente perpassando as atividades humanas, 
muitas vezes, de forma imaginativa, e a pessoa necessita de 
representações simbólicas para se fazer entender. Duarte 
Júnior, ao tratar da educação e do modo como se dá o ato do 
conhecimento, considera a capacidade humana de atribuir 
significações, ou seja, entende que a consciência do homem/
mulher decorre de sua dimensão simbólica, ressaltando a 
fundamentalidade dos símbolos nesse processo: \u201cPor inter-
médio dos símbolos o homem transcende a simples esfera fí-
sica e biológica, tomando o mundo e a si próprio como objetos 
de compreensão\u201d (2008, p. 15).
A linguagem é uma tentativa de tornar visível, de dar 
forma aos sentimentos e às experiências de cada um, por 
meio dela, a realidade revela-se e se torna existência. Se-
gundo Pelizzoli, 
A relação primeira do homem ao mundo é um gozar a vida; pela 
afecção e sensibilidade se constrói a interioridade, a partir de seu 
espraiar-se do intercâmbio do indivíduo \u2013 atração e contração \u2013 
com o mundo e com as coisas de que ele vive (1994, p. 72). 
Para o autor, a linguagem é a condição da existência 
e representa para o ser humano um meio de comunicação, 
visto que pelas estratégias textuais podemos expressar a 
126 Graciela Ormezzano, Carla Beatrice Crivellaro Gonçalves, Franciele Gallina
subjetividade. Sendo possível estabelecer uma relação com a 
sensibilidade, capaz de revelar ao sujeito sua posição dentro 
do mundo e de si mesmo. Porém, para que o ser humano 
possa simbolizar esse processo e entender o significado da 
vida neste planeta, a educação precisa dar espaço a uma am-
pliação da consciência.
Sendo assim, a proposta de nossa oficina era possibi-
litar experiências ético-estéticas que contribuíssem para o 
autoconhecimento e o acesso a novos conhecimentos, além 
de oportunizar aos participantes trocas afetivas, em um am-
biente em que a transcendência pelo sensível e inteligível 
estivesse relacionada aos processos educativos. Lembrando 
que tanto educar a si mesmo como educar o outro não é algo 
fácil, é algo complexo, que envolve o todo da existência hu-
mana. Dessa forma, é preciso ver o ser humano de maneira 
integral, harmonicamente relacionado ao universo e capaz 
de mudar sua realidade.
Existe no pensamento mecanicista capitalista atual 
certa recusa à possibilidade de o homem/mulher transcen-
der, ampliar sua consciência, mas até para recusar essa pos-
sibilidade é preciso pensar sobre ela. Assim, ainda que de 
forma negativa, há no processo uma abertura à transcen-
dência. Martins também aborda essa questão e afirma que: 
Na busca de sentido está uma abertura à transcendência numa 
superação de limites do ser no mundo e do ser-com-os-outros, que 
rompe com a história e oferece sentido à existência, pois lança-se 
na busca do fundamento último com o ser primordial constituinte 
do ser humano (2009, p. 96).
A experiência de encontro com a consciência esbarra no 
fazer-se compreender. Afinal, utilizamos várias linguagens 
para expressar de forma compreensível nossas experiências 
e nossa transformação existencial. Reportando-nos a símbo-
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los, tentamos materializar por meio da ação o que antes per-
tencia somente ao mundo das ideias. Tarefa difícil, uma vez 
que no ocidente ainda se tem uma visão mecanicista do ser 
humano, desconsiderando, muitas vezes, seus componen-
tes míticos. Em seu dia a dia, entretanto, o homem exerce 
e desenvolve rituais que, efetivamente, estão relacionados a 
uma linguagem simbólica, mítica.
Para Silva e Ramalho, a natureza simbólica ou meta-
fórica da linguagem mítica sempre foi relacionada à arte. 
No entanto, em termos de apreensão teórica ocidental, essa 
relação ganhou expressivo corpus de investigação a partir 
da veiculação universal dos mitos gregos e suas caracterís-
ticas de integração em todas as atividades do espírito e seu 
trânsito para ação prática, é assim essencial ao ser humano, 
tanto quanto o ar, o sol e mesmo sua própria vida. Segundo 
os autores, é possível compreender a linguagem mítica como 
uma linguagem poética, \u201ccuja qualidade principal é reme-
ter o ser humano para um universo lírico simbólico implici-
tamente, associado à experiência do belo\u201d (Silva; Ramalho, 
2007, p. 240). Porém, quando reproduzida por uma ideologia 
alienante, para exercer controle sobre o comportamento hu-
mano, ela é repressora, podendo até ser destrutiva.
Nesse sentido, entendemos duas possibilidades de de-
senvolvimento da linguagem mítica: uma como fonte de au-
toconhecimento humano, a outra como repressão e controle 
pessoal e social. Abordamos nesta pesquisa uma perspectiva 
direcionada à primeira possibilidade. Sendo assim, necessa-
riamente, destacamos o papel de uma expansão da consciên-
cia, a fim de utilizar a linguagem mítica como experiência 
humana-existencial de maneira benéfica. Para isso, mito 
não pode opor-se a conhecimento, pode ser a materialidade 
128 Graciela Ormezzano, Carla Beatrice Crivellaro Gonçalves, Franciele Gallina
do antes desconhecido ganhando aderência e pressupostos 
teóricos na evolução da humanidade.
De acordo com Cunha (1992), os significados de mito e 
conhecimento relacionam o ser humano ao seu mundo. Os 
termos mythos e logos possuem o mesmo significado em gre-
go: fala. Mythos é uma fala que narra a experiência do nar-
rador, entretanto, logos é uma fala que descreve o que ocorre 
na própria realidade.
Assim como Cunha, Proa compreende que o logos não 
decreta a morte do mythos; pelo contrário, tenta colocá-lo 
a seu serviço. Desse modo, a passagem do mythos ao logos 
não equivale à passagem do irracional ao racional, ou da 
ignorância à ciência segura e confiável. O fato é que tanto 
mythos como logos referem-se à linguagem, o que nos tira 
da animalidade, determinando que nosso mundo seja suma-
riamente de palavras, signos: \u201cAs palavras se inscrevem no 
mundo e nessa inscrição o criam\u201d (2004, p. 125). 
Nesse sentido, não podemos dissociar os sujeitos do 
mundo e o mundo dos sujeitos. Esse é um ensinamento tam-
bém lembrado