Historia Da Literatura Ocidenta   Joaquim Campelo Marques
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Historia Da Literatura Ocidenta Joaquim Campelo Marques


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Píndaro não canta o deus, canta sempre o homem; a sua religião é antropocêntrica.
Mas esse homem depende, por sua vez, dos deuses; sem eles, seria corpo sem espírito.
Píndaro é realmente profeta: profeta duma espécie de monismo grego. A poesia moderna, à
qual esse monismo é inteiramente alheio, não pode imitar Píndaro; enquanto não existir
religião semelhante no mundo, a poesia pindárica parecerá sempre um artifício estranho. Aos
gregos, porém, essa poesia revelou a grandeza possível do homem; dizia-lhes com a força
duma revelação divina as palavras que um poeta moderno (Rilke) colocou na boca duma
estátua grega ao dirigir-se ao espectador: \u201cPrecisas modificar a tua vida.\u201d
Píndaro parece-nos estranho; em comparação, Ésquilo, Sófocles e Eurípides são, para nós,
figuras familiares. O teatro moderno criou-se com esses modelos antigos. Os enredos fazem
parte da cultura geral de todos nós. Orestes e Prometeu, Édipo e Antígone, Ifigênia e Medeia
são personagens do nosso próprio teatro; e quando no século XIX se fizeram as primeiras
tentativas de representar tragédias gregas no palco moderno, o sucesso foi completo. A
Antígone, de Sófocles, representou-se com a música que Felix Mendelssohn-Bartholdy
escreveu para a representação em Berlim, em 1842. Depois, apareceram no palco a Oréstia
e Os Persas, de Ésquilo; o Prometeu Agrilhoado foi representado em Hamburgo, em 1923,
pelos \u201ccoros de movimento\u201d de Rudolf Laban. De Sófocles, além da Antígone e da Electra,
é o Rei Édipo uma das peças mais representadas do teatro moderno, desde a primeira
tentativa em Paris, em 1848, e as representações com Mounet-Sully em 1881 e 1888, até as
mises-en-scène de Reinhardt em Berlim, em 1910. Pelas traduções de Gilbert Murray,
Eurípides tornou-se um \u201cclássico\u201d vivo do teatro inglês contemporâneo. As representações
de tragédias gregas nos teatros antigos ainda existentes, em Atenas, Olímpia, Siracusa,
Taormina, Orange, causaram impressão profunda; e a descoberta do fundo eternamente
humano no mito grego, pela psicanálise, forneceu explicação satisfatória do efeito
permanente do teatro da Antiguidade. Sobretudo Sófocles e Eurípides são hoje forças das
mais vivas do teatro moderno, influências permanentes.
Contudo, trata-se, pelo menos em parte, de uma ilusão. O que emociona o espectador
moderno, assistindo a uma representação da Oréstia ou do Édipo, difere essencialmente do
que comoveu o espectador grego. O teatro grego, com as suas máscaras impessoais e o coro,
tem pouco em comum com o nosso teatro, de conflitos de caracteres individuais. E há outras
diferenças importantes.
O teatro grego97 é de origem religiosa; nunca houve dúvidas a esse respeito. As tragédias
\u2013 e, em certo sentido, também as comédias \u2013 foram representadas assim como se realizam
festas litúrgicas. Mas quanto à liturgia que teria sido a base histórica do teatro grego, ainda
não se chegou a teses definitivamente estabelecidas. As pesquisas da escola antropológica
de Cambridge parecem ter confirmado, embora precisando-o, o que sempre se soube: a
tragédia grega nasceu de atos litúrgicos do culto do Dioniso. Outros estudiosos ingleses
procuram, porém, a fonte da inspiração trágica em ritos fúnebres, realizados em torno dos
túmulos de heróis. A discussão continua98. É da maior importância para a história da
civilização e da religião gregas. Mas é de importância muito menor para a história literária.
Podemos continuar adotando a intuição genial de Nietzsche: a tragédia grega é a
transformação apolínea de ritos dionisíacos. Por isso, o único conteúdo possível da tragédia
grega era o mito, fornecido pela tradição; enredos inventados pela imaginação do
dramaturgo, que enchem os nossos repertórios, estavam excluídos. Tratava-se de
interpretações e reinterpretações dramáticas de enredos dados. Mas não é esta a única
particularidade do teatro grego, em comparação com o nosso: a diferença estilística não é
menos importante. O teatro grego é mais retórico e mais lírico do que o moderno. Os
discursos extensos, que os gregos não se cansavam de ouvir, seriam insuportáveis para o
espectador moderno, que prefere, a ouvir discursos, ver e viver a ação. O grego, ao que
parece, frequentava o teatro para se deixar convencer da justeza de uma causa, como se
estivesse assistindo à audiência do tribunal ou à sessão da Assembleia. E os requintes da
retórica, superiores em muito aos pobres recursos da eloquência moderna, não bastaram para
esse fim: acrescentaram-se, por isso, aos argumentos do raciocínio as emoções da poesia
lírica, acompanhada, como sempre, de música, de modo que a representação de uma tragédia
grega se assemelhou, por assim dizer, às nossas grandes óperas. Mas a ópera moderna é
gênero privativo das altas classes da sociedade, enquanto a tragédia grega era instituição do
Estado democrático, e a participação nela era de certo modo um direito e um dever
constitucionais. Assim, a tragédia grega era uma discussão parlamentar na qual se debatia,
lançando-se mão de todos os recursos para influenciar o público, um mito da religião do
Estado. Considerando-se isto, as concorrências dos poetas, que apresentaram peças, perdem
o caráter de competição esportiva: a vitória não cabia ao maior poeta ou à melhor poesia
dramática, mas à peça que impressionava mais profundamente; quer dizer, à peça na qual o
mito estava reinterpretado de tal maneira que o público se convencia dessa interpretação e \u2013
podemos acrescentar \u2013 por isso o Estado a aceitava. Tratava-se de um acontecimento
político-religioso, que ocorria uma só vez. O teatro grego não conheceu representações em
série. Com a representação solene, a causa estava julgada, a lei votada. O verdadeiro fim do
teatro grego \u2013 assim reza a tese sociológica \u2013 era a sanção duma modificação da ordem
social por meio de uma reinterpretação do mito.
Esta interpretação do teatro grego não pode ser, evidentemente, de aplicação geral. Não se
aplica, pelo menos em parte, ao teatro de Eurípides; só nesse sentido esse grande poeta
representa a decadência do teatro grego. Mas já quanto a Sófocles há dúvidas das mais
sérias: o sentido do seu teatro não é, evidentemente, social, mas religioso: duma religião
antropocêntrica. Talvez seja mesmo impossível dar uma interpretação geral do teatro grego,
porque não o conhecemos suficientemente. Só conhecemos o teatro ateniense, e deste apenas
poucas peças, de três dramaturgos. Mas entre eles está o maior de todos, aquele que criou o
verdadeiro teatro grego e já representa o seu apogeu. O sentido profundo do teatro grego
revela-se em Ésquilo.
Ésquilo99 é poeta duma época na qual religião e política, Estado e família se confundem,
porque os elementos dessa equação ainda têm feição arcaica. O Estado, em Ésquilo, é uma
federação de famílias da mesma raça, ligadas pelo culto dos mesmos deuses. São conceitos
primitivos, de aristocracia homérica, governando a Polis, a Cidade. Mas essa Cidade de
Atenas está-se democratizando, e com o advento de novas classes sociais modificam-se os
conceitos de culto e de direito. A época homérica, \u201ciluminada pelo sol, sobre o mar Jônio\u201d,
parece agora um passado noturno, desumano. O homem de Píndaro está no palco, consciente
do seu valor e desafiando a força inimiga de \u201cAte\u201d pérfida e demoníaca, do Destino que o
seu valor humano, apoiado pelos deuses olímpicos, tem de vencer. Na época de Ésquilo, as
leis primitivas da família, do clã, chocam-se com a consciência humana; daí a força trágica
de Os Sete contra Tebas , talvez a peça mais trágica do teatro grego: Etéocles e Polinice
acreditavam-se envolvidos na luta das tribos, não sabendo que serviam de instrumentos à
guerra santa contra a lei antiquada e bárbara da raça. O teatro de Ésquilo trata, desse modo,
de destinos coletivos, não de indivíduos. Por isso, é capaz de representar os grandes
conflitos na Cidade e decidi-los por reinterpretações do mito. Porque o mito continua como
símbolo supremo da ligação entre o mundo divino e o mundo humano. Nada se modifica no
mundo humano sem modificação correspondente no mundo divino;