Historia Da Literatura Ocidenta   Joaquim Campelo Marques
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Historia Da Literatura Ocidenta Joaquim Campelo Marques


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o Estado precisa da
sanção religiosa dos seus atos, e é o teatro que lhe permite o uso dinâmico dos mitos para
sancionar a nova ordem social. A Orestia é simultaneamente tragédia familiar, política e
religiosa: na família de Agamêmnon e Clitemnestra, a lei bárbara da vingança leva ao
assassínio e à loucura; mas no julgamento de Orestes pelo Areópago, o tribunal do Estado,
vencem os novos deuses da Cidade sobre as divindades noturnas. As \u201cfúrias\u201d se
transformam em \u201ceumênides\u201d, e esse eufemismo religioso é a sanção religiosa do novo
direito. A Oréstia é a maior tragédia política de todos os tempos. Mas não é só isso.
No mundo de Ésquilo, a vida humana e o mito estão numa ligação íntima; os deuses
participam, até pessoalmente, dos atos políticos e forenses. Mas a religião de Ésquilo,
baseada em tradições meio políticas, meio literárias, apresenta-se sem dogma; a religião
grega nunca conheceu dogmas. Daí o vago da sua \u201cfilosofia\u201d. Fica obscura a relação entre a
atuação demoníaca do Destino, por um lado, e por outro a ordem cósmica do mundo,
garantindo a vitória do justo sobre o bárbaro, como na vitória de Atenas sobre o Oriente, em
Os Persas. Tampouco se esclarece até que ponto a revolta do homem contra o Destino é
orgulho diabólico, hybris, que merece o sofrimento trágico, ou se é consciência da
substância divina do homem pindárico, companheiro dos deuses na luta contra o destino
hostil. A filosofia religiosa de Ésquilo é vaga, oscilando entre terror cósmico e consciência
ética. Por isso também \u2013 eis o problema mais difícil da interpretação esquiliana \u2013 não se
conseguiu até hoje esclarecer a atitude de Ésquilo com respeito ao supremo dos seus deuses:
Zeus é, em Ésquilo, às vezes um tirano, outras vezes uma antecipação do Deus da Justiça e
da Graça.
Essa ambiguidade contribui, talvez, para a força poética de Ésquilo, que é, por isso, força
lírica. A linguagem de Ésquilo exprime com poder igual os horrores do abismo noturno do
caos e a ordem severa das colunas dóricas. Não falam indivíduos pela boca dos seus
personagens, e sim céus e infernos, raças e eras. É como se falassem montanhas e
continentes. As propostas comparações com Marlowe ou Hugo não acertam; nem sequer
Dante possui esta força de falar como porta-voz do gênero humano inteiro. É uma linguagem
inconfundível, pessoal, que nenhum outro poeta grego soube imitar. Ésquilo fala por todos;
mas é indivíduo, o primeiro grande indivíduo da literatura universal. Por isso, soube dar os
acentos de simpatia mais pessoais ao revoltado Prometeu Agrilhoado; por força de sua
religião, Ésquilo devia condenar o rebelde contra a ordem divina, mas por força da sua
poesia sentiu e compreendeu a dor do vencido, transformando-o em símbolo eterno da
condição humana.
A cronologia dos grandes trágicos gregos é um tanto confusa. Desde a Antiguidade foram
sempre estudados numa ordem que sugere fatalmente a ideia de três gerações: Sófocles,
sucessor de Ésquilo, e Eurípides, por sua vez, sucessor de Sófocles. Mas Ésquilo (525-456),
Sófocles (496-406) e Eurípides (480-406) são quase contemporâneos. Quando Aristófanes,
contemporâneo dos dois últimos, se revolta contra as novas ideias dramáticas e filosóficas
de Eurípides, não é a dramaturgia de Sófocles que ele recomenda como remédio, e sim a de
Ésquilo. Para todos três \u2013 Sófocles, Aristófanes e Eurípides \u2013, Ésquilo não é um poeta
arcaico, e sim o poeta da geração precedente. Realmente, Eurípides tem pouco em comum
com Sófocles; e está mais perto de Ésquilo do que o reacionário Aristófanes pensava. É
preciso derrubar a ordem que a rotina pretende impor.
Eurípides100 não pertence ao \u201cpartido\u201d religioso-político de Ésquilo; Aristófanes viu isso
bem. Na tragédia esquiliana, os heróis representam coletividades; na tragédia euripidiana,
são indivíduos. Já não se trata do restabelecimento de ordens antigas, ou do estabelecimento
de novas ordens, mas da oposição sistemática do indivíduo contra as ordens estabelecidas.
Por isso, Aristófanes considerava Eurípides como espírito subversivo, como corruptor do
teatro grego e o fim da tragédia ateniense. Entre os modernos, só a partir do romantismo se
popularizou essa opinião; o \u201csenso histórico\u201d exigiu a \u201cevolução do gênero\u201d e encontrou em
Eurípides o culpado do fim. Os séculos precedentes não pensavam assim. Ésquilo nunca foi
uma força viva na evolução do teatro moderno, e Sófocles inspirou imitações quase sempre
infelizes. Mas sem Eurípides o teatro moderno não seria o que é; Racine e Goethe são
discípulos de Eurípides, que, através do seu discípulo romano, Sêneca, influenciou também
profundamente o teatro de Shakespeare e o teatro de Calderón. Os próprios gregos não se
conformaram com o ódio de Aristófanes; Aristóteles chama a Eurípides tragikotatos, \u201co
poeta mais trágico de todos\u201d, superlativo que nos parece caber a Ésquilo. Na verdade,
Eurípides é o Ésquilo duma época incerta, de transição, como a nossa. Eurípides quase se
nos afigura nosso contemporâneo.
A base da tragédia euripidiana, como a da esquiliana, é a família. Mas há uma diferença
essencial. Em Ésquilo, as relações familiares constituem a lei bárbara do passado,
substituída pela ordem social duma nova religião, a religião da Cidade. Em Eurípides, o
Estado é uma força exterior, alheia; o indivíduo encontra-se exposto às complicações da
vida familiar, das paixões e desgraças particulares. Eurípides foi considerado como último
membro duma série de três gerações de dramaturgos, e parecia separado de Ésquilo por um
mundo de transformações sociais e espirituais; Ésquilo parecia ser representante do
conservantismo religioso, e Eurípides, representante do individualismo filosófico. É este o
ponto de vista de Aristófanes, e isso vem provar que Atenas se estava democratizando com
rapidez vertiginosa. Mas Ésquilo e Eurípides são quase contemporâneos. Só o ponto de vista
de cada um deles é diferente: Ésquilo é coletivista; Eurípides, individualista. Mas o tema
dos dois dramaturgos é o mesmo: a família. Ésquilo e Eurípides são, ambos, inimigos da
família: Ésquilo, porque ela se opõe ao Estado; Eurípides, porque ela violenta a liberdade
do indivíduo. Por isso, Ésquilo, na Oréstia, transforma o coro das Fúrias em coro de
Eumênides; Eurípides já não está interessado no coro, porque encontra em cada lar um
indivíduo revoltado e identifica-se com ele, assim como Ésquilo se identificara com as
coletividades revoltadas contra o Destino. Pela atitude, Eurípides está mais perto de Ésquilo
que de Sófocles, dramaturgo do \u201cpartido\u201d dos moderados.
Eurípides sente com os seus indivíduos trágicos. O Destino não lhe parece inimigo
demoníaco nem ordem do mundo, e sim necessidade inelutável; Eurípides é fatalista. A dor
do homem vencido não significa, para ele, consequência da condição humana, e sim
sofrimento que não merecemos; Eurípides é sentimental. O mito, porém, não é fatalista nem
sentimental; para construir as suas \u201cfábulas\u201d dramáticas, tem de modificar o mito,
introduzindo os motivos da psicologia humana. Os séculos, acompanhando as acusações de
Aristófanes, interpretaram essas modificações euripidianas do mito como sintomas de
impiedade. Eurípides já foi, muitas vezes, considerado como dramaturgo crítico, espécie de
Ibsen grego. Contudo, Eurípides, modificando o mito, exerceu apenas um direito e dever dos
trágicos gregos. E se a intolerância religiosa, pela qual a democracia ateniense se distinguia,
pretendeu privá-lo desse direito, Eurípides pôde então responder: não fui eu quem derrubou
os valores tradicionais, e sim o vosso Estado. A moral tradicional já estava ameaçada pela
democracia totalitária. Eurípides não foi porta-voz da nova democracia como Aristófanes
acreditava; Eurípides representa o indivíduo trágico, perdido numa época de coletivismo,
diferente do coletivismo antigo, e talvez mais duro. Eurípides é pessimista, tragikotatos; é o
Ésquilo dos modernos.
Comparou-se Eurípides a Ibsen e Shaw. O que é comum a ele e a esses dramaturgos
modernos é a resistência individualista contra os preconceitos da massa e a justificação