Historia Da Literatura Ocidenta   Joaquim Campelo Marques
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Historia Da Literatura Ocidenta Joaquim Campelo Marques


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da língua criarem um
determinismo literário, de que as obras vicejam em território da sua contemporaneidade,
em tudo o que essa afirmação expande e representa.
Um dado interessante se observa na obra de Carpeaux: o do estilista. Não apenas o
crítico seco e didático, mas o pensador que sabe escrever e apresenta de maneira simples,
mas bem elaborada, uma ideia, um conceito, uma digressão. Carpeaux é mestre no estilo.
Escreve com delicadeza e sensibilidade, tem noção da forma escrita e de que um trabalho
de crítica, mesmo histórica, não deve ser maçante. E, mesmo sendo erudito, Carpeaux
tinha o instinto do fabricante de palavras e, de forma harmoniosa, encanta-nos com sua
dialética paradoxalmente tensa e suave.
Outro dado importante na performance de Carpeaux é seu caráter irônico ao formular
questões estéticas de juízo ou teóricas e mesmo no plano das ideias, discutindo filósofos e
outros tipos de pensadores. Uma ironia fina, refinada, delicada, que não é sarcasmo, não
é o humour inglês dos escritores moralistas, mas uma ironia, certamente europeia, e que
muitas vezes não era percebida de imediato. Ora, a ironia pressupõe que o interlocutor
participe do mesmo repertório do emissor da ironia. Logo, caso o leitor de Carpeaux não
tivesse o mesmo conhecimento ou não estivesse aparelhado para perceber a ironia, ela se
perdia como pérola dada aos porcos. Uma ironia que podia se apresentar como uma frase
curta no final de parágrafo, de artigos e de seus ensaios ou vir embutida num pensamento
digressivo e em espiral que resultava numa hipótese irônica. A ironia, diriam alguns, não
deveria participar de uma obra de cunho didático. Mas Carpeaux não é didático no
sentido mais rasteiro do termo: divulgação ordinária, sistematização precária, diluições
desnecessárias, enquadramentos forçados e reducionismos para facilitar o curto alcance
de certos leitores. A ironia em Carpeaux fazia parte desse estilo dialético e, ao mesmo
tempo, dava leveza ao texto, grandeza ao raciocínio e acentuava o bem-escrever que
deveria ser obrigação de todo autor de texto, não necessariamente ficcionista.
CARPEAUX: O TUPINIQUIM VIENENSE
Ao chegar ao Brasil e começar a produzir em português, Carpeaux vai apresentar um
comportamento muito singular: é a visão de um europeu sobre a cultura brasileira, não a
cultura brasileira vista de fora, mas do interior do fenômeno. Aí é que está o fato curioso,
pois Carpeaux não é um brasilianista; trata-se de um intelectual de formação europeia
que entra em contacto com uma nova realidade cultural e literária e, ao fundir as duas
culturas, apresenta a síntese que muitos outros críticos brasileiros não tinham. Essa
afirmação não diminui o mérito de inúmeros de nossos críticos, muitos dos quais
admirados por Carpeaux e companheiros de viagem do mestre austríaco. O que se quer
dizer é que há um deslocamento produtivo que serve a uma visão diferenciada e que pode
ofertar ao leitor brasileiro uma história da literatura ampla, de novo ângulo, de
perspectiva enriquecedora.
Uma das críticas feitas a Carpeaux seria a de que ele não havia entendido a literatura
brasileira, o que não corresponde à realidade. Basta ver os inúmeros artigos sobre a
literatura brasileira e o apreço que os jovens escritores da Geração de 30 tinham em
relação a ele. Carpeaux escrevia sempre sobre os brasileiros e guardava com carinho as
primeiras edições das obras de Raquel de Queirós, José Lins do Rego, Jorge Amado, José
Américo de Almeida e muitos outros mais. Inclusive entrando já na geração subsequente,
a de Adonias Filho, Herberto Sales e Josué Montelo. Se Carpeaux, por algum descuido, ou
mesmo juízo de valor, tenha cometido uma ou outra injustiça, não se deve ao fato de ser
austríaco naturalizado brasileiro. Muitos brasileiros, ditos brasileiríssimos, de norte a
sul deste país, também cometeram equívocos avaliativos. Muitos deles ainda militam na
crítica literária e fazem de conta que nada aconteceu. O valor, por exemplo, de um João
Cabral não foi logo percebido por Carpeaux. Mas também não foi entendido por
muitíssimos outros ditos críticos brasileiros.
Quanto à literatura brasileira, vale lembrar que Carpeaux trouxe outro ponto de vista,
muitas vezes relegado a plano secundário ou não lembrado pela crítica brasileira. Se fora
chamado para colaborar no Suplemento Literário do jornal O Estado de São Paulo, pelo
brasileiríssimo Antônio Cândido, crítico rigoroso, marxista aberto às experimentações e à
vanguarda, com o mesmo critério de estesia na avaliação inicial da obra de arte, é porque
Carpeaux respondia e correspondia à expectativa de um scholar tão engajado como o
próprio Cândido.
E mais: Carpeaux não se recusava a participar da luta literária, de escrever sobre
autores contemporâneos seus, no calor dos debates e da perspectiva acanhada que a
contemporaneidade favorece. Nada mais cruel do que o crítico do momento, pois não tem
o distanciamento histórico necessário para avaliar o conjunto de forma isenta. Carpeaux
nunca se negou a comentar, analisar, estudar livros de pensadores e de ficcionistas e
poetas brasileiros ou internacionais que estavam aparecendo. Era ao mesmo tempo esta
espécie rara de encontrar: o crítico literário no fragor da luta e o historiador criterioso
e, concomitantemente, universal e particular no estudo do fenômeno literário.
Outro dado a se colocar na coluna dos créditos de Carpeaux corresponde a seu caráter
pedagógico. Pedagógico não no sentido restrito de magistério, mas o do amplo espectro
do crítico que, ao informar, também está formando o leitor. Carpeaux teve o mérito de,
com jeito e estilo saboroso, ir retirando do leitor comum alguns preconceitos e
redirecionando a crítica para as expressões mais modernas. Criticava o biografismo pelo
biografismo, o abuso da \u201cfalácia da intenção do autor\u201d da hermenêutica mais estreita,
introduziu elementos do close reading da Nova Crítica e assim foi despojando os
interessados em literatura dos adereços que nada acrescentavam ao entendimento da obra
do autor. Num artigo precioso sobre Machado de Assis, elogia um dos críticos mais
respeitados do bruxo do Cosme Velho, Eugênio Gomes, que soube entender as influências
do escritor, mas não exagerou. \u201cJá tive oportunidade para elogiar devidamente os
estudos do Sr. Eugênio Gomes; foi ele que nos libertou das afirmações vagas. Nunca
escreve sem ter verificado os fatos. Mas começou, desde então, a caça de \u2018influências de
Machado de Assis\u2019 (eu também já pequei a respeito), das quais até agora se verificaram
as seguintes: Balzac, Cervantes, Dickens, Fielding, Flaubert, Garret, Gogol, E.T.A.
Hoffmann, Hugo, La Fontaine, Lamb, Leopardi, Xavier de Maistre, Mérimée, Montaigne,
Pascal, Schopenhauer, Shakespeare, Smollet, Stendhal, Sterne, Swift, Thackeray. É muito.
É demais.\u201d Junto com Afrânio Coutinho, que se tomou a tarefa de renovar a crítica
brasileira, não somente através de artigos sistemáticos na imprensa sobre a Nova Crítica,
mas também em seu magistério, e até mesmo na direção da Faculdade de Letras da
Universidade Federal do Rio de Janeiro, Carpeaux fez do jornalismo um espaço também
da correção de rumos da crítica brasileira.
Quanto ao aspecto pedagógico, vale dizer que grandes nomes da cultura brasileira
frequentavam as páginas de Carpeaux e, junto com outros autores, e alguns mesmo
seguindo uma carreira acadêmica como Alfredo Bosi, puderam fazer da leitura dos
artigos de Carpeaux um vademecum da literatura. São vários os testemunhos daqueles que
acompanharam pelos jornais o pensamento político e literário do austríaco. Sem nunca
ter ocupado uma cátedra no Brasil, Carpeaux talvez tenha sido um dos professores mais
influentes na cultura e na academia brasileiras. Embora não se desse esse crédito e
acreditasse que fazia apenas jornalismo, Carpeaux na verdade estava ajudando o
pensamento crítico brasileiro a ser construído. Sua declaração de que a intelligentsia
brasileira nada devia à europeia (revista José) não era apenas uma forma de mostrar
simpatia pelo país que o acolhera, mas também uma forma