Historia Da Literatura Ocidenta   Joaquim Campelo Marques
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Historia Da Literatura Ocidenta Joaquim Campelo Marques


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e dos Padres da Igreja. A
Reforma pensou ter vencido a \u201cnoite do Papado\u201d (expressão de Lutero), e o esquema
tripartido, com o seu duplo fundamento literário e religioso, sobreviveu ao humanismo e zelo
reformador, gerando ainda no século XVIII a expressão \u201cDark Ages\u201d (William Robertson), e
dominando até hoje os manuais e a linguagem. Até no abismo absoluto que Oswald Spengler
cavou entre a Antiguidade e a civilização moderna, reconhecem-se os vestígios da velha
retórica.
A historiografia atual já não admite esse conceito9; não existe cisão absoluta entre a
Antiguidade e os séculos seguintes, e sim uma evolução contínua. Os historiadores dos
séculos passados fixaram o \u201cFim da Antiguidade\u201d em datas diferentes: em 375, pretenso
começo das grandes migrações dos bárbaros, que, no entanto, haviam começado já muito
antes; ou então em 476, ano do pretenso fim do Império Romano, que, no entato, continuava
no seu novo centro, Bizâncio. A análise imparcial dos fatos revela, ao contrário, uma
solidificação das instituições e resíduos culturais da Antiguidade, no século VI. Com efeito,
um cataclismo, uma catástrofe, nunca pode servir de data para o começo de uma nova era. A
época pós-antiga do mundo cristão-ocidental começa com uma data de valor positivo: com a
elaboração, no século VI, dos três grandes Códigos, nos quais a herança se cristalizou.
O século VI é a época das grandes codificações. Até mesmo o judaísmo termina então o
imenso trabalho da codificação das suas leis pós-mosaicas tradicionais: o Talmude. A igreja
ocidental, possuindo já um texto latino autêntico da Bíblia, a Vulgata de São Jerônimo,
começa a organizar um corpo de escritos autentificados dos chamados Padres da Igreja: em
496 (a data não é certa), o Papa Gelásio I promulga a Epistola decretalis de recipiendis
libris, na qual autentifica os opuscula de Cipriano, Gregório Nazianzeno, Basílio, Hilário de
Poitiers, Ambrósio, Agostinho, Jerônimo e Próspero Aquitanense, constituindo assim o
corpo patrístico que significa o aproveitamento da filosofia e da literatura greco-romanas a
serviço da teologia cristã10. Já por volta de 400, sob a influência de Ambrósio, conceitos
cristãos tinham penetrado no direito romano (Collatio legum mosaicarum et romanarum);
agora, o imperador Justiniano termina esse processo com a grande codificação que é
principalmente obra do seu conselheiro jurídico Triboniano: o Corpus Juris11 é de 529 e a
segunda edição, que inclui as Instituiones e os Digesta seu Pandectae, de 534; o conjunto é
a criação literária mais poderosa do espírito romano \u2013 é o fundamento institucional do
humanismo europeu.
Essas codificações marcam uma data e, ao mesmo tempo, uma delimitação. Religião
judaico-cristão, ciência grega, direito romano: eis a herança da Antiguidade, lançando os
fundamentos da civilização ocidental. As regiões e nações que não receberam aquela
herança ficaram excluídas da comunidade ocidental, entrando nela somente século depois e
em circunstâncias bem diferentes. E todas as outras influências alheias, que o Ocidente
recebeu mais tarde, já não se incorporaram bem na nossa civilização; tornaram-se
influências \u201cexóticas\u201d. Nem os elementos de pintura chinesa que, trazidos pelos viajantes do
século XIII, influíram em Giotto; nem as riquezas ornamentais da Índia que a arquitetura da
época dos descobrimentos imitou; nem a abundância fantástica das Mil e uma Noites
arábicas nem a pacífica sabedoria chinesa de que o Rococó gostava; nem o budismo que os
pessimistas do século XIX apregoaram \u2013 nada disso entrou realmente em nossa civilização;
continuou sempre \u201cexotismo\u201d. A sorte dos documentos literários do Ocidente entre nós
confirma a distinção entre o \u201cexotismo\u201d greco-romano, que faz parte da nossa cultura, e o
\u201cexotismo\u201d oriental, que ficou fora dela. Há certas obras da Antiguidade clássica que
ninguém conseguiu traduzir bem para as línguas modernas, como as de Píndaro; contudo
Píndaro é uma das maiores e mais persistentes influências nas nossas literaturas. Das
literaturas orientais recebemos e conservamos definitivamente apenas algumas poucas obras,
traduzidas (se é lícita a expressão) de maneira antes inexata, razão por que se tornaram obras
nossas. Hafiz é, para nós, um nome; as traduções exatas apenas servem de ajuda de leitura ao
especialista; mas o Westoestlicher Diwan , de Goethe, só ligeiramente inspirado no poeta
persa, é uma das grande obras líricas da literatura ocidental. Omar Khajjam é, para nós,
menos do que um nome; as traduções literais só constituem a delícia dos bibliófilos; mas a
tradução libérrima de Edward Fitzgerald, quase obra independente, é obra \u201cclássica\u201d da
língua inglesa. E que mais? As grande coleções orientais de fábulas e contos, das quais as
literaturas medieval e renascentista se aproveitaram, forneceram apenas matéria-prima
novelística. As traduções de Li Tai Po que d\u2019Hervey-Saint-Denys e Hans Bethge
popularizaram, na França e na Alemanha, são belas poeisas neorromânticas, nas quais os
sinólogos são incapazes de reconhecer os originais. O que não provém daquela herança
antiga, continua inassimilável; e com isso o conceito \u201cLiteratura do Ocidente\u201d está
justificado.
Parece preciso abrir uma exceção para a civilização islamítica do Oriente Médio,
chamada com imprecisão \u201ccivilização árabe\u201d. Entramos em contato com ela já antes das
Cruzadas; transmitiu-nos, por intermédio de traduções, grande parte da literatura cientifíca
greco-romana, perdida no Ocidente. O caso é muito especial e serve bem para confirmar o
que já foi estabelecido. Segundo estudos recentes,12 a civilização islamítica, nos países
limítrofes do Mediterrâneo, não constitue uma civilização independente \u2013 a \u201ccivilização
mágica\u201d, como Oswald Spengler afirmou \u2013 e sim uma continuação direta da civilização
greco-romana, apenas ligeiramente envernizada com cores orientais; para dizer, desta vez,
com relativa facilidade, a assimilação da civilização romano-helenística, centralizada na
bacia oriental do Mediterrâneo, e da qual a maioria dos representantes foram sírios, egípcios
e mesopotâmicos de nascimento; essa mesma gente, os últimos pagãos e os cristãos orientais,
constitui a massa dos convertidos ao islamismo, que, deste modo, tem em comum com a
civilização helenística a paisagem e a substância humana. A unidade da civilização
islamítica, entre povos de origens étnicas diferentes, não se estabeleceu pela unidade da
religião, mas é consequência direta da unificação helenística do Oriente Médio. Os
\u201cArábes\u201d da Idade Média são uma espécie de gregos da decadência, vestidos de albornoz e
turbante. Traduziram com assiduidade os livros científicos gregos, menos por zelo de cultura
do que por uma necessidade linguística; do mesmo modo, os gregos da Grécia moderna estão
na obrigação de ler as obras dos seus antepassados em traduções porque a língua se
modificou muito. Durante a Idade Média inteira, existe uma afinidade íntima e profunda entre
a civilização árabe e a civilização ocidental, herdeiros do mesmo patrimônio. Essa unidade
foi quebrada para sempre pelo humanismo da Renascença ocidental. Os \u201cárabes\u201d
conservaram sem modificações sensíveis a civilização da Antiguidade decadente; eram
incapazes da renovação radical que o humanismo conseguiu. Em última análise, o traço
característico da civilização ocidental não é a herança antiga, mas a modificação dela, que
se chama Renascença.
Renascença como marco decisivo da civilização ocidental: este conceito enquadra-se bem
no esquema tripartido da História Universal, na qual deveria haver duas cesuras, a queda do
Império Romano e a renascença de Atenas e Roma pelo esforço dos humanista. Mas, que é a
Renascença? O uso da expressão pelos historiadores foi inaugurado por Michelet e
Burckhardt; o conceito, porém, é mais antigo. Os historiadores das artes plásticas no século
XVIII tinham em consideração especial aqueles poucos artistas modernos \u2013 Leonardo,
Miguel Ângelo, Rafael, Correggio, Ticiano \u2013 que pareciam dignos de participar das glórias
da Antiguidade clássica. Os românticos gostavam