Rousseau - Ensaio sobre a origem das Línguas
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Rousseau - Ensaio sobre a origem das Línguas


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ENSAIO SOBRE A
ORIGEM DAS LÍNGUAS
Tradução de Lourdes Santos Machado
Introdução e notas de Paul Arbousse-Bastide
e Lourival Gomes Machado
INTRODUÇÃO
1. CIRCUNSTÂNCIAS DA COMPOSIÇÃO
ESTE ENSAIO, que só foi publicado depois da morte de Rousseau,
inclui-se, presumivelmente, entre as obras de seu período inicial de produção.
Indicam-no o estilo, a própria organização da matéria e, sobretudo, os assuntos
de que trata. Não obstante, os especialistas ainda não conseguiram indicar
uma data provável de redação que seja unanimemente aceita.
Vaughan afirma que, ao menos em parte, o Ensaio já estava escrito
antes, com certeza, do Discurso sobre a Desigualdade e, talvez, até do
primeiro Discurso. Toma, como base para essa inferência, o fato de surgirem
no texto elementos que pertencem aos estudos de música originalmente des-
tinados à Encidopédia. P. M. Masson acredita que o Ensaio não passa de
uma das muitas e extensas notas adicionadas, como apêndices, ao segundo
Discurso, que, contudo, acabou por assumir proporções e caráter de texto
autônomo. Petitain, que iniciou as pesquisas mais aprofundadas sobre a cro-
nologia da produção de Rousseau, data o Ensaio de 1759, porém não justifica
tal indicação.
Podemos tomar a data indicada por Petitain como a máxima provável,
pois já no ano seguinte estava escrito o Emílio, que se editaria simultanea-
mente em Amsterdam e Paris, no ano de 1762. Aliás, uma nota, que figura
nas primeiras edições do Emílio, faz referências a esse texto, chamando-o de
Ensaio sobre o Princípio da Melodia, surgindo o título com que hoje o
conhecemos na mesma nota, porém, em edições posteriores. Dificilmente, en-
tretanto, podemos fixar com igual segurança uma data provável mínima. As
preocupações musicais de Rousseau duraram longo período de sua vida, vindo
a predominar em sua vida intelectual por três vezes: deixando de lado as
singularidades da juventude, podemos contar, primeiro, o episódio da nova
notação musical, que se resume na Dissertação sobre a Música Moderna
e que termina com a viagem a Veneza; depois há o capítulo em que Rousseau
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OS PENSADORES
parece destinado a representar, entre os enciclopedistas, o papel de especialista
em assuntos musicais (1743-1748) e durante o qual se dá o primeiro e fugaz
desentendimento com Voltaire; afinal, vêm os dois anos (1753-1754) que
antecedem a concepção do segundo Discurso (e são marcados pela famosa
querela entre os adeptos da música francesa e os da italiana) para alcançarem
o auge com a publicação rumorosa da Carta sobre a Música Francesa, que
teve duas edições no ano de 1753. Caberá escolher um desses períodos para
aí localizar a redação do Ensaio. A versão de Vaughan parece bastante ve-
rossímil, mas para adotá-la precisaríamos da certeza, que nos falta, de ter o
Ensaio saído dos escritos destinados à Encidopédia, porquanto a hipótese
contrária seria igualmente possível. Ademais, a oposição à teoria de Rameau,
o alvo preferido dos enciclopedistas, já começara, para Rousseau, no primeiro
momento das disputas musicais, com o parecer da Academia sobre seu sistema
de notação, e o acompanharia pelo resto de sua vida.
Não obstante, pela análise do texto somos levados a propender por uma
data tardia que, se não for a de Petitain, colocar-se-á muito próxima a ela.
Há, no Ensaio, indícios, se não concludentes, ao menos capazes de justificar
tal inferência. Em primeiro lugar, a própria refutação de Rameau, que, a
princípio sem indicação clara de nome, malgrado a transparência das alusões,
toma endereço explícito e direto no capítulo XIV e na nota do capítulo XIX,
funda-se basicamente na maior ou menor musicalidade natural das línguas,
ou seja, em termos muito semelhantes aos da polêmica de 1752-1753 entre
"italianos" e "franceses". Mesmo admitindo-se que haja no Ensaio elementos
comuns à colaboração musical destinada à Enciclopédia, sente-se que a orien-
tação do texto já sofreu a influência das contendas da moda, negando-se,
aliás, Rousseau a endossar os exageros então correntes sobre a "musicalidade"
do idioma italiano e, acentuando a menor aptidão da língua francesa para
servir à música, volta-se para o problema que considera central: o primado
da melodia. Ademais, todo o fundo de interpretações antropológicas e sociais
mostra-se muito mais próximo das proposições gerais do segundo Discurso
(ao qual pode mesmo servir de texto subsidiário no trabalho dos analistas)
do que da teoria, ainda algo incerta, do Discurso inicial. Afinal o desejo de
fundir numa só linha interpretativa a transformação do homem pela sociedade,
a formação e a evolução das línguas, e o desenvolvimento da expressão musical,
revela-nos um Rousseau ainda moço, porém já maduro e coerente, tal como
o supomos, com ponderáveis razões biográfic's e críticas, ao redigir a primeira
versão das Instituições Políticas.
De qualquer modo, permanecerá no terreno das hipóteses mais ou menos
fundadas a data em que foi escrito o Ensaio sobre a Origem das Línguas
e, portanto, as circunstâncias de sua composição.
JEAN-JACQUES ROUSSEAU
2. FONTES E INFLUÊNCIAS
Também aqui não podemos ser muito precisos, porquanto não se pode
indicar com segurança as fontes de um texto de história incerta e cujas re-
ferências bibliográficas são apenas incidentais. Cabe apenas registrar certas
influências evidentes e diretas. Neste caso está, sem dúvida, Condillac, no
que respeita ao problema das línguas ou, mais exatamente, ao problema do
desenvolvimento da razão humana, que no Ensaio adquire importância básica.
Já apontara Jean Morel (Fontes do Discurso sobre a Desigualdade, in
Annales de la Société Jean-Jacques Rousseau, 1910) a influência nítida
de Condillac no segundo Discurso. Depois Robert Derathé (O Racionalismo
de J.-J. Rousseau, Paris, 1948) apontara no Emílio a persistência desses
elementos. Não surpreenderá, pois, que reapareçam, mais uma vez, no Ensaio.
Explícitos ou implícitos, encontram-se nos capítulos iniciais do Ensaio
aqueles princípios do Finai°, segundo os quais tudo o que a razão possui
passou primeiro pelos sentidos, não sendo a razão, em sentido amplo, algo
simples ou primário, senão o fruto do entrosamento de todas as demais fa-
culdades do homem, que se processa numa passagem das idéias simples às
idéias complexas, isto é, da razão sensitiva ou pueril à razão intelectual ou
humana. Não passam, no fundo, da versão dada por Jean-lacques a certas
passagens do Ensaio sobre a Origem dos Conhecimentos Humanos, de
Condillac, que se editara em 1746. Ora, o desenvolvimento racional do homem
encontra sua expressão mais característica na formação da linguagem.
Até o século XVII, efetivamente, continuava a imperar o mito da língua
Adâmica. A referência a uma Idade de Ouro, então transformada em Estado
Natural, que se supunha constituir o estágio inicial real da espécie humana,
naturalmente levava a cogitar, como fizeram pensadores de grande porte,
acerca da língua que teria valido aos homens que povoaram o mundo nessa
fase edênica e se comporia de termos que não simbolizavam mas traduziam
efetivamente a essência das coisas. Se, pois, no século dezoito Rousseau apa-
receria para arrancar o conceito de Estado Natural de sua anterior condição
mítica e proto-histórica, transformando-o na descrição, evolutiva mas onto-
gênica, da base fisiológica e instintiva do complexo humano, naturalmente
haveria de se interessar pelos que, como Condillac, descreviam a evolução da
mente humana partindo de estágios simples e diretamente ligados a fenômenos
biológicos \u2014 idéias simples que resultariam de simples percepções \u2014 para
chegar a etapas de maior complexidade \u2014 "idéias complexas" resultantes da
"reunião ou coleção de várias percepções" \u2014, a fim de chegar à definição
final e extensiva do entendimento, ao mesmo tempo que firmavam o termo
inicial da evolução das línguas numa base biológica, que corresponderia às
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OS PENSADORES
interjeições