Roman Jakobson   Linguística e Comunicação
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Roman Jakobson Linguística e Comunicação


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anafóricos abstratos
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. 
Como observou Freud, um substantivo específico é substituído por um termo muito 
genérico, como, por exemplo, machin, chose, na linguagem dos afásicos franceses
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. 
Num caso de "afasia amnésica" observado por Goldstein (p. 246 ss.), Ding, "coisa", 
ou Stückle, "pedaço", eram usados como substitutos para todos os nomes inanimados, 
e überfahren, "realizar", substituía verbos identificáveis a partir do contexto ou 
situação e que por isso pareciam supérfluos ao paciente. 
As palavras que comportam uma referência inerente ao contexto, tais como 
pronomes e advérbios pronominais. e as palavras que servem apenas para construir o 
contexto tais como conectivos e auxiliares, estão particularmente propensas a 
sobreviver. Um enunciado típico de um doente alemão, referido por Quensel e citada 
por Goldestein (p. 302), vai servir-nos de ilustração. 
"Ich bin doch hier untem, na wenn ich gewesen bin ich wees nicht, we das, nu 
wenn ich, ob das num doch, noch, ja. Was Sie her, wenn ich, och ich weess nicht, we 
das hier war ja..." [pág.43] 
Assim. somente a estrutura, os elos de conexão da comunicação são poupados 
nesse tipo de afasia em seu estágio crítico. 
Na teoria da linguagem, desde a alta Idade Média, afirmou-se, repetidas vezes, 
que a palavra, fora do contexto, não tem significado. A validade dessa afirmação está, 
entre tanto, limitada à afasia ou, mais exatamente, a um tipo de afasia. Nos casos 
patológicos em discussão, uma palavra isolada não significa, de fato, nada mais que 
simples tagarelice. Como numerosas provas o mostraram, para doentes desse tipo, 
duas ocorrências da mesma palavra em contextos diferentes constituem simples 
homônimos. Já que vocábulos distintos trazem uma quantidade de informação maior 
que os homônimos, alguns afásicos deste tipo têm tendência a substituir as variantes 
contextuais de uma mesma palavra por termos diferentes, cada um dos quais é 
específico para as circunstâncias dadas. Assim, o paciente de Goldstein não proferia 
jamais a palavra faca sozinha, mas, conforme seu uso e circunstâncias, designava a 
faca respectivamente como apontador, cortador-de-maçã, faca-de-pão e talher 
(garfo e faca) (p. 62); desse modo a palavra faca era mudada, de uma forma livre, 
capaz de ocorrer isolada, para uma forma vinculada. 
 
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 Cf. L. Bloomfield, Language (Nova Iorque, 1933), Capítulo XV: Substituição. 
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 S. Freud, On aphasia (Londres 1953), p. 22. 
 
"Tenho um bom apartamento, hall de entrada, dormi tório, cozinha", diz um 
paciente de Goldstein. "Há também apartamentos grandes, só que no fundo vivem 
solteiros." Uma forma mais explícita, o grupo de palavras pessoas não-casadas, 
poderia ter substituído solteiros, mas foi esse termo universal o escolhido pelo 
paciente. Instado a dizer o que era um solteiro, o doente não respondeu e ficou 
"aparentemente angustiado" (p. 270). Uma resposta como "solteiro é um homem não-
casado" ou "um homem não-casado é solteiro" teria constituído uma predicação 
equacional e assim uma projeção de um grupo de substituição, do código lexical da 
língua portuguesa. no contexto da mensagem em questão. Os termos equivalentes 
tornam-se duas partes correlativas da frase e por conseguinte se unem por um laço de 
contigüidade. O paciente era capaz de escolher [pág.44] o termo apropriado solteiro, 
quando era apoiado pelo contexto de uma conversa habitual sobre "os apartamentos 
de solteiro", mas mostrou-se incapaz de utilizar o grupo de substituição solteiro = 
homem não-casado como tema de uma frase porque a capacidade de seleção e 
substituição autônoma tinha sido afetada. A frase equacional pedida, sem êxito, ao 
paciente, veicula como sua única informação: "solteiro significa um homem não-
casado" ou "um homem não-casado é chamado de solteiro". 
A mesma dificuldade surge quando se pede ao paciente que diga o nome de um 
objeto indicado ou manipulado pelo observador. O afásico que sofre de distúrbio da 
função de substituição não completará o gesto do observador \u2014 de indicação ou 
manipulação \u2014 com o nome do objeto indicado. Em vez de dizer \u2018isso é \u2502chamado\u2502 
lápis", acrescentará simplesmente uma observação elíptica acerca do seu uso: "Para 
escrever". Se um dos signos sinonímicos estiver presente (como, por exemplo, a 
palavra solteiro ou o mostrar o lápis com o dedo), então o outro signo (como o grupo 
de palavras homem não-casado ou a palavra lápis) se tornará redundante, e 
conseqüentemente supérfluo. Para os afásicos, ambos os signos se encontram em uma 
distribuição complementar: se um for apresentado pelo observador, o paciente evitará 
seu sinônimo: "Compreendo tudo" ou "Ich weiss es schon" será sua reação típica. 
Assim também, o desenho de um objeto ocasionará a perda do seu nome: um signo 
verbal é substituído por um signo pictural. Quando se apresentou a um paciente de 
Lotmar o desenho de uma bússola. ele respondeu: "Sim, é um ... sei de que se trata 
mas não consigo lembrar-me da expressão técnica ... Sim direção ... para indicar 
direção ... uma agulha imantada indica o Norte.
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 Esses doentes, como diria Peirce, 
não chegam a passar de um índice ou de um ícone ao símbolo verbal 
correspondente
16
." [pág.45] 
Até mesmo a simples repetição de uma palavra enunciada pelo observador 
parece inutilmente redundante ao paciente e, apesar das instruções recebidas, ele é 
incapaz de repeti-la. Instado a repetir a palavra "não", o paciente de Head respondeu: 
"Não, não sei como fazê-lo." Embora utilizasse espontaneamente a palavra no 
 
15
 F. Lotmar, "Zur Pathophysiologie der erschwerten Wortifindung bei Aphasischen", Schweiz. 
Archiv für Neurologie und Psychiatrie, XXXV (1933), p. 104. 
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 C. S. Peirce, "The icon, index and symbol", Collected Papers. II (Cambridge, Mass,, 1932). 
contexto de sua resposta ("Não, eu não ..."), não pôde produzir a forma mais pura de 
predicação equacional, a tautologia a = a: 
"não" é "não". 
Uma das grandes contribuições da lógica simbólica para a ciência da 
linguagem é a ênfase dada à distinção entre linguagem-objeto e metalinguagem. 
Como diz Carnap, "para falar sobre qualquer linguagem-objeto, precisamos de uma 
metalinguagem
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. Nesses dois níveis diferentes da linguagem, o mesmo estoque 
lingüístico pode ser utilizado; assim, podemos falar em português (como 
metalinguagem) a respeito do português (como linguagem-objeto) e interpretar as 
palavras e as frases do português por meios de sinônimos, circunlocuções e paráfrases 
portuguesas. É evidente que operações desse tipo, qualificadas de metalingüísticas 
pelos lógicos, não são de sua invenção: longe de se confinarem à esfera da Ciência,. 
elas demonstram ser parte integrante de nossas atividades lingüísticas habituais. 
Muitas vezes. em um diálogo, os interlocutores cuidam de verificar se é, de fato, o 
mesmo código que estão utilizando. "Está me ou vindo? Entendeu o que eu quero 
dizer?", pergunta o que fala, quando não é o próprio ouvinte que interrompe a 
conversa com um "O que é que você quer dizer?" Aí então. com substituir o signo 
que causa problema por outro signo. que pertença no mesmo código lingüístico ou 
por todo um grupo do signos do código, o emissor da mensagem procura torná-la 
mais acessível ao decodificador. [pág.46] 
A interpretação de um signo lingüístico por meio de outros signos da mesma 
língua, sob certo aspecto homogêneos, é uma operação metalingüística que 
desempenha papel essencial na aprendizagem da linguagem pela criança. 
Observações recentes mostraram o considerável lugar ocupado por conversas sobre a 
linguagem no comportamento verbal