Roman Jakobson   Linguística e Comunicação
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Roman Jakobson Linguística e Comunicação


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das crianças em idade pré-escolar
18
. O recurso à 
metalinguagem é necessário tanto para a aquisição da linguagem como para seu 
funcionamento normal. A carência afásica da "capacidade de denominar" constitui 
propriamente uma perda de metalinguagem. Em verdade, os exemplos de predicação 
equacional in solicitado aos pacientes acima citados são proposições metalingüísticas 
que se referem a língua portuguesa. Sua formulação explícita seria: "Dentro do 
código que utilizamos, o nome do objeto indicado é lápis" ou "Dentro do código de 
que nos servimos, a palavra solteiro e a circunlocução homem não-casado são 
equivalentes". 
Um afásico deste tipo não pode passar de sua palavra aos seus sinônimos ou 
circunlocuções equivalentes, nem a seus heterônimos, isto é, expressões equivalentes 
em outras línguas. A perda da aptidão bilíngüe e a limitação a uma única variedade 
dialetal de uma só língua constitui manifestação sintomática dessa desordem. 
 
17
 R. Carnap, Meaning and Necessity (Chicago, 1947), p. 4. 
18
 Ver os notáveis estudos de A. Gvozdev: "Nabljudenija nad Jazykom malen\u2019kix detej", Russkij 
jazyk v sovetskoj \u161ko1e (1929); Usvoenic rebenkom zvukovoj storony russkogo jazyka (Moscou, 
1948); e Formirovanic u rebenka grarnati\u10deskogo stroja russkogo jazyka (Moscou, 1949). 
 
De acordo com um preconceito antigo, mas que renasce periodicamente, o 
modo de falar específico de um indivíduo num dado momento, batizado de idioleto, 
tem sido considerado a única realidade lingüística concreta. Na discussão desse 
conceito, foram levantadas as seguintes objeções: 
 
"Quando fala a um novo interlocutor, toda pessoa procura deliberada ou 
involuntariamente, encontrar um vocabulário comum: utiliza os termos dele, 
seja para agradar o interlocutor, seja simplesmente para ser compreendida ou, 
enfim, para livrar-se dele. A propriedade [pág.47] privada, no domínio da 
linguagem, não existe: tudo é socializado. O intercâmbio verbal, como 
qualquer forma de relação humana, requer dois interlocutores pelo menos, e o 
idioleto demonstra ser uma ficção algo perversa.
19
 
 
Esta afirmação, entretanto, exige uma reserva: para um afásico que perdeu a 
capacidade de "mudança \u2018de código" (code switching), o "idioleto" torna-se, na 
verdade, a única realidade lingüística. Enquanto não considerar o discurso de outrem 
como uma mensagem que lhe é dirigida em seus próprios modelos verbais, ele 
experimentará sentimentos que um paciente de Hemphil e Stengel assim exprimia: 
"Estou ouvindo perfeitamente, mas não posso compreender o que você diz (... ) Ouço 
sua voz mas não as palavras. (...) Não é pronunciável"
20
. Ele considera o discurso do 
outro uma algaravia, ou, pelo menos, algo enunciado numa língua desconhecida. 
Como já se observou acima, é a relação externa de contigüidade que une os 
constituintes de um contexto e a relação interna de similaridade que serve de base 
para a substituição. Por isso, no caso de um afásico cuja função de substituição foi 
alterada e a de contexto permaneceu intacta, as operações que implicam similitude 
cedem às fundadas na contigüidade. Pode-se prever que, nessas condições, qualquer 
agrupamento semântico será antes guiado pela contigüidade espacial ou temporal do 
que pela similitude. E os textos de Goldstein justificam, de fato, essa expectativa: 
uma paciente desse tipo, a quem se pediu que enumerasse alguns nomes de animais, 
enunciava-os na ordem em que os tinha visto no zoológico; assim também, malgrado 
instruções que recebera de dispor certos objetos segundo a cor, dimensão e forma, ela 
os classificava em função de sua [pág.48] contigüidade espacial, como objetos 
domésticos, material de escritório etc., e justificava essa disposição referindo-se a 
uma vitrina, onde "pouco importa o que sejam as coisas", isto é, elas não têm de ser 
semelhantes (pp. 61 ss., 263 ss.). A mesma paciente queria dar nome às cores 
fundamentais \u2014 vermelho, amarelo, verde e azul \u2014 mas se recusava a estender esses 
nomes aos tons intermediários (p. 268 ss.), pois, para ela, as palavras não tinham 
 
19
 "Results of the Conference of Anthropologists and Linguists", Indiana University Publications in 
Anthropology and Linguistics, VIII (1953), p. 15. 
20
 R. E. Hemphil e E. Stengel, "Pure word deafness", Journal of Neurology and Psychiatry, III 
(1940) pp. 251-62. 
 
capacidade de assumir significados adicionais, deslocados, associados por 
similaridade a seu significado primeiro. 
Devemos concordar com Goldstein quando observa que os doentes desse tipo 
"captam as palavras em seu significado literal. mas não chegam a compreender-lhes o 
caráter metafísico" (p. 270). Seria, entretanto, uma injustificável generalização 
afirmar que o discurso figurado lhes é totalmente incompreensível. Das duas figuras 
polares de estilo, a metáfora e a metonímia, esta última, baseada na contigüidade, é 
muito empregada pelos afásicos cujas capacidades de seleção foram afetadas. Garfo é 
substituído por faca, mesa por lâmpada, fumaça por cachimbo, comer por torradeira. 
Um caso típico é relatado por Head: 
 
"Quando ele não conseguia lembrar-se da palavra designativa de "preto", 
descrevia a coisa como "Aquilo que se faz para um morto"; isso ele abreviava 
para "morto" (I, p. 198)." 
 
Tais metonímias podem ser caracterizadas como projeções da linha de um 
contexto habitual sobre a linha de substituição e seleção; um signo (garfo, por 
exemplo), que aparece ordinariamente ao mesmo tempo que outro signo (faca, por 
exemplo) pode ser utilizado no lugar desse signo. Grupos de palavras como "garfo e 
faca", "lâmpada de mesa", "fumar um cachimbo" suscitaram as metonímias garfo, 
mesa, fumaça; a relação entre o uso de um objeto (torrada) e os meios de sua 
produção subjazem à metonímia comer por torradeira. "Quando é que a gente se veste 
de preto?" \u2014 "Quando se põe luto por um morto"; em vez de dar nome à cor, 
designa-se a causa de seu [pág.49] uso tradicional. A evasão da igualdade para a 
contigüidade é particularmente impressionante em casos como o do paciente de 
Goldstein, que responderia por uma metonímia quando se lhe pedia que repetisse uma 
determinada palavra; ele dizia, por exemplo, vidro por janela e céu por Deus (p. 280). 
Quando a capacidade de seleção é fortemente afetada e o poder de combinação 
pelo menos parcialmente preservado, a contigüidade determina todo o 
comportamento verbal do doente e nós podemos designar esse tipo de afasia como 
distúrbio da similaridade. 
 
 
IV \u2014 O DISTÚRBIO DA CONTIGÜIDADE 
 
De 1864 em diante, foi repetidamente assinalado, nas contribuições pioneiras 
de Hughlings Jackson para o estudo moderno da linguagem e dos distúrbios da 
linguagem: 
 
"Não é suficiente dizer que o discurso consiste de palavras. Consiste de 
palavras que se relacionam umas com as outras de maneira particular; e. à falta 
de uma inter-relação específica de seus membros, um enunciado verbal seria 
uma simples sucessão de nomes que não englobam nenhuma proposição (p. 
66)
21
." 
"A perda do discurso é a perda do poder de construir proposições ...) A 
inaptidão para o discurso não significa uma ausência total de palavras (p. 
114)
22
" 
 
A deterioração da capacidade de construir proposições ou, em termos mais 
gerais, de combinar entidades lingüísticas mais simples em unidades mais complexas, 
está, na realidade, limitada a um só tipo de afasia, que é o oposto do tipo discutido no 
capítulo anterior. Não há perda total [pág.50] da palavra, porque a entidade 
preservada na maior parte dos casos que tais é a palavra, que pode ser definida