Roman Jakobson   Linguística e Comunicação
109 pág.

Roman Jakobson Linguística e Comunicação


DisciplinaAnálise Textual9.303 materiais293.578 seguidores
Pré-visualização43 páginas
como 
a mais alta entre as unidades lingüísticas obrigatoriamente codificadas \u2014, o que quer 
dizer que construímos nossas próprias frases e enunciados a partir do estoque de 
palavras fornecidas pelo código. 
Nesse tipo de afasia, deficiente quanto ao contexto, e que poderia ser chamada 
de distúrbio da contigüidade, a extensão e a variedade das frases diminuem. As regras 
sintáticas, que organizam as palavras em unidades mais altas, perdem-se; esta perda, 
chamada de agramatismo, tem por resultado fazer a frase degenerar num simples 
"monte de palavras", para usar a imagem de Jackson
23
. A ordem das palavras se torna 
caótica; os vínculos de coordenação e subordinação gramatical, quer de concordância, 
quer de regências dissolvem-se. Como seria de esperar, as palavras dotadas de 
funções puramente gramaticais, como por exemplo as conjunções, preposições, 
pronomes e artigos, desaparecem em primeiro lugar para serem substituídas pelo 
estilo chamado "telegráfico", ao passo que, no caso de desordem da similaridade, são 
as mais resistentes. Quanto menos uma palavra depender gramaticalmente do 
contexto, tanto mais forte será a sua persistência no discurso dos afásicos com 
distúrbio da função de contigüidade, e tanto mais rapidamente será eliminada pelos 
pacientes que sofrem de distúrbios da similaridade. Assim, o sujeito, "palavra-
núcleo", é o primeiro a desaparecer da frase no caso de distúrbios da similaridade e, 
inversamente, o menos destrutível no tipo oposto de afasia. 
A afasia na qual é afetada a função do contexto tende a reduzir o discurso a 
pueris enunciados de frases, e até mesmo a frases de uma só palavra. Apenas algumas 
frases mais longas, esteriotipadas, "feitas", conseguem sobreviver. Nos casos 
adiantados de tal distúrbio, cada enunciado é reduzido a uma frase de uma só palavra. 
À medida que o [pág.51] contexto se desagrega, as operações de seleção prosseguem. 
"Dizer o que é uma coisa, é dizer a que se assemelha", faz notar Jackson (p. 125). O 
doente limitado ao grupo de substituição (quando o contexto é falho) usa as 
 
21
 H. Jackson, "Notes on the physíology and pathology of the nervous system" (1868), Brain, 
XXXVIII (1915), pp. 65-71. 
22
 H. Jackson, "On affections of speech from discase of the brain\u2019 (1879), Brain, XXXVIII (1915), 
pp. 107-29. 
23
 H. Jackson, "Notes on the physiology and pathology of Language" (1866), Brain, XXXVIII 
(1915), pp. 48-58. 
similitudes, e suas identificações aproximadas são de natureza metafórica, em 
oposição às identificações metonímicas familiares aos afásicos do tipo oposto. Óculo 
de alcance por microscópio, fogo em vez de luz de gás são exemplos típicos de 
semelhantes expressões quase metafóricas, como as batizou Jackson, uma vez que, 
em oposição às metáforas retóricas ou poéticas, elas não apresentam nenhuma 
transferência deliberada de sentido. 
Na linguagem normal, a palavra é ao mesmo tempo parte integrante de um 
contexto superior, a frase, e por si mesma um contexto de constituintes menores, os 
morfemas (unidades mínimas dotadas de significação) e os fonemas. Falamos dos 
efeitos da desordem da contigüidade na combinação de palavras em unidades 
superiores. A relação entre a palavra e seus constituintes reflete a mesma desordem, 
ainda que de maneira um pouco diferente. Um traço típico do agramatismo é a 
abolição da flexão: aparecem categorias não-marcadas, como o infinito no lugar das 
diferentes formas conjugadas, e nas línguas dotadas de declinação, o nominativo no 
lugar de todos os casos oblíquos. Esses defeitos são devidos em parte à eliminação da 
regência e da concordância e em parte à perda da capacidade de decompor as palavras 
em radical e desinência. Finalmente, um paradigma (em particular, a série dos casos 
gramaticais exemplificados pelo inglês he, his, him ou por tempos como ele vota, ele 
votou) oferece o mesmo conteúdo semântico de diferentes pontos de vista associados 
entre si por contigüidade; dessarte, há uma razão a mais, para os afásicos que sofrem 
de distúrbio da contigüidade, de rejeitar tais séries. 
Outrossim, via de regra, as palavras derivadas da mesma raiz, como grande-
grandeza-grandioso etc., estão ligadas entre si, semanticamente por contigüidade. Os 
pacientes dos quais estamos falando tendem a abandonar as palavras derivadas, ou 
então a combinação de uma raiz com um [pág.52] sufixo de derivação e mesmo um 
composto de duas palavras torna-se indecomponível para eles. Têm sido citados 
freqüentemente casos de doentes que compreendiam e enunciavam espontaneamente 
palavras compostas como Cascadura ou Ilhabela mas que eram incapazes de 
entender ou, dizer casca e dura ou ilha e bela. Enquanto o sentido da derivação se 
mantém intacto, de modo que esse processo continua sendo usado para introduzir 
inovações no código, pode-se observar uma tendência à simplificação abusiva e ao 
automatismo: se a palavra derivada constituir uma unidade semântica cujo sentido 
não possa ser inferido inteiramente a partir do de seus elementos, a Gestalt será mal 
compreendida. Assim, a palavra russa mokr-íca significa "bicho de conta", mas um 
afásico russo a interpretou como "algo úmido", especialmente "tempo úmido", porque 
a raiz mokr- significa "úmido" e o sufixo -ica indica o portador de uma qualidade 
determinada, como em nelépíca, "algo absurdo", svetlíca, "quarto claro", temníca, 
"calabouço" (literalmente "quarto escuro"). 
Antes da Segunda Guerra Mundial, quando a Fonologia era o campo mais 
controvertido da ciência lingüística, certos lingüistas levantaram dúvidas quanto a se 
os fonemas desempenham realmente um papel autônomo em nosso comportamento 
verbal. Chegou-se mesmo a sugerir que as unidades significativas do código 
lingüístico, como os morfemas, ou melhor, as palavras, são as menores entidades com 
as quais efetivamente nos havemos no ato da fala, ao passo que as entidades 
puramente distintivas, tais como os fonemas, não passariam de uma construção 
artificial, destinada a facilitar a descrição e a análise científicas de uma língua. Esse 
ponto de vista, denunciado por Sapir como "contrário ao realismo"
24
, mantém-se 
contudo perfeitamente válido no que concerne a um certo tipo patológico: numa das 
variedades da afasia, designada às vezes pelo rótulo de "atáxica", a palavra é a única 
realidade lingüística preservada. [pág.53] O paciente guarda somente uma imagem 
integral, indissolúvel, das palavras familiares; quanto a todas as demais seqüências 
fônicas, ou lhe parecem estranhas e inescrutáveis. ou ele as funde com as palavras 
familiares, desprezando as diferença fonéticas. Um dos pacientes de Goldstein 
"percebia certas palavras, mas não percebia as vogais e consoantes de que se 
compunham" (p. 218). Um afásico francês reconhecia, compreendia, repetia e 
enunciava espontaneamente as palavras café e pavé, mas era incapaz de entender, 
distinguir ou repetir seqüências desprovidas de sentido como féca, faké, kéfa, pafé. 
Nenhuma dessas dificuldades existe para um ouvinte normal de língua francesa, na 
medida em que as seqüências fônicas e seus elementos se conformem ao sistema 
fonológico francês. Tal ouvinte pode mesmo apreender essas seqüências como 
palavras que lhe são desconhecidas, mas que pertencem plausivelmente ao 
vocabulário francês e cujos significados são provavelmente diferentes, pois elas 
diferem umas das outras quer pela ordem dos fonemas, quer pelos próprios fonemas. 
Se um afásico se torna incapaz de decompor a palavra em seus elementos 
fonológicos, seu domínio da construção da palavra se enfraquece e desordens 
perceptíveis afetam em pouco os fonemas e suas combinações. A regressão gradativa