Roman Jakobson   Linguística e Comunicação
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Roman Jakobson Linguística e Comunicação


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Pasternak", Slavische Rundschau, VII, 1935), na pintura ("Futurizm", Iskussivo, Moscou, 2 
de agosto, 1919) e no cinema (\u2018Úpadek filmu", Listy pro um\u115ni akritiku, I, Praga, 1933), mas o 
problema crucial dos dois processos polares aguarda ainda uma investigação pormenorizada. 
 
ângulo, a perspectiva e o foco das tomadas, rompeu com a tradição do teatro e 
empregou uma gama sem precedentes de grandes planos sinedóquicos e de 
montagens metonímicas em geral. Em filmes como os de Charlie Chaplin e 
Eisenstein
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 esses procedimentos foram suplantados por um novo tipo metafórico de 
montagem, com suas "fusões superpostas" \u2014 verdadeiras comparações fílmicas.
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A estrutura bipolar da linguagem (ou de outros sistemas semiológicos) e, no 
caso da afasia, a fixação num desses pólos com exclusão do outro, estão a exigir um 
estado comparativo sistemático. A permanência de um ou do outro desses pólos nos 
dois tipos de afasia deve ser relacionado com a predominância do mesmo pólo em 
certos estilos, hábitos pessoais, modas correntes etc. Uma análise atenta e uma 
comparação desses fenômenos com o síndrome completo do tipo correspondente de 
afasia constitui uma tarefa imperiosa para uma pesquisa conjunta de especialistas em 
Psicopatologia, Psicologia, Lingüística, Poética e Semiótica, a ciência geral dos 
signos. A dicotomia aqui discutida revela-se de uma significação e de um alcance 
[pág.58] primordiais para a compreensão do comportamento verbal e do 
comportamento humano em geral.
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Para mostrar as possibilidades que descortina a pesquisa comparativa de que 
falamos, escolhemos um exemplo tirado de um conto popular russo que emprega o 
paralelismo como procedimento cômico: "Tomás é solteiro; Jeremias não é casado" 
(Fomá xólost; Erjóma ne\u17eenát). Os dois predicados estão associados, nas duas 
orações paralelas, por similares: são, aliás, sinônimos. Os sujeitos de ambas as 
orações são nomes próprios masculinos e portanto morfologicamente semelhantes, 
enquanto, por outro lado, designam dois heróis contíguos do mesmo conto, criados 
para cumprir ações idênticas e justificar assim a utilização de pares de predicados 
sinônimos. Uma versão algo modificada da mesma construção aparece numa familiar 
canção de bodas, na qual cada um dos convidados do banquete é interpelado ora pelo 
seu nome, ora pelo seu patronímico: "Gleb é solteiro; Ivanovi\u10d não é casado". Ao 
passo que os dois predicados são, mais uma vez, sinônimos, a relação entre os dois 
sujeitos mudou: ambos são nomes próprios designativos da mesma pessoa e usados 
normalmente em posição contígua, como saudação polida. 
Na citação extraída do conto popular, as duas proposições paralelas referem-se 
a fatos distintos, a situação de casado de Tomás e a situação semelhante de Jeremias. 
Mas nos versos da canção de bodas, as duas proposições são sinônimas: repetem, de 
maneira redundante, o celibato do mesmo herói, partindo-o em duas hipostases 
verbais. 
 
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 Cf, seu impressionante ensaio \u2018Dickens, Griffith e Nós": S Eisenstein, Izbrannye stat\u2019i (Moscou, 
1950), p. 153 ss. 
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 Cf, B, Balazs, Theory of the Film (Londres, 1952). 
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 No tocante ao aspectos psicológicos e sociológicos desta dicotomia, ver as concepções de 
"integração progressiva" e "seletiva", de Bateson, e as de Parsons acerca da "dicotomia conjunção-
disjunção" no desenvolvimento da criança: J. Ruesch e G. Bateson, Communication, the Social 
Matrix of Psychiatry (Nova Iorque, 1951), pp. 183 ss.; T. Parsons e R. F. Bales, Fami1y 
Socialization and Interaction Process (Glencoe, 1955), pp. 119 ss. 
 
O romancista russo Gleb Ivanovi\u10d Uspenskij (1840-1902) sofreu, nos últimos 
anos de vida, de uma doença mental acompanhada de distúrbios da fala. Seu nome e 
seu patronímico, [pág.59] Gleb Ivanovi\u10d tradicionalmente juntos na conversação 
polida, haviam-se cindido, a seus olhos, em dois nomes distintos, que designavam 
dois seres separados. Gleb era dotado de todas as virtudes, ao passo que Ivanovi\u10d o 
nome que ligava o filho ao pai, tornou-se a encarnação de todos os vícios de 
Uspenskij. O aspecto lingüístico desse desdobramento de personalidade aparece na 
incapacidade do doente de utilizar dois símbolos para a mesma coisa, o que constitui 
um exemplo de desordem da similaridade. Como o distúrbio da similaridade se liga à 
tendência para a metonímia, é particularmente interessante examinar a maneira 
literária de Uspenskij durante a juventude. O estudo de Anatolij Kamegulov, que 
analisou o estilo de Uspenskij, confirma nossa expectativa teórica. Mostra que 
Uspenskij tinha uma tendência marcada para a metonímia, especialmente para a 
sinédoque, e que a levou tão longe que "o leitor é esmagado pela multiplicidade de 
pormenores com que o escritor o cumula num espaço verbal limitado, e se torna 
fisicamente incapaz de ter uma noção de conjunto, de maneira que o retrato muitas 
vezes fica inutilizado."
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É bem de ver que o estilo metonímico de Uspenskij se inspira manifestamente 
no cânone literário predominante em seu tempo, o "realismo" do fim do século XIX; 
mas o temperamento peculiar de Gleb Ivanovi\u10d o levava mais particularmente a 
seguir essa corrente artística em suas manifestações extremas, para deixar, 
finalmente, sua marca no aspecto verbal da doença mental do escritor. [pág.60] 
 
A competição entre os dois procedimentos, metonímico e metafórico, se torna 
manifesta em todo processo simbólico, quer seja subjetivo, quer social. Eis por que 
numa investigação da estrutura dos sonhos, a questão decisiva é saber se os símbolos 
e as seqüências temporais usadas se baseiam na contigüidade ("transferência" 
metonímica e "condensação" sinedóquica de Freud) ou na similaridade 
("identificação" e "simbolismo" freudianos).
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 Os princípios que comandam os ritos 
mágicos foram resumidos por Frazer em dois tipos: os encantamentos baseados na lei 
da similaridade e os baseados na associação por contigüidade. O primeiro desses dois 
grandes ramos da magia simpática foi chamado "homeopático" ou "imitativo", e o 
 
29
 A. Kamegulov, Stil\u2019 Gleba Uspenskogo (Leningrado, 1930), pp. 65, 145. Eis um destes retratos 
desintegrados citados na monografia: 
"De sob um velho boné de palha, com uma mancha negra na viseira, espreitavam dois tufos de 
cabelo que lembravam as defesas de um javali; um queixo que se tornara adiposo e balouçante 
estendera-se definitivamente por sobre o colarinho ensebado do peitilho de algodão e cobria de uma 
grossa camada o colarinho grosseiro do casaco de tela, apertadamente abotoado ao pescoço. Desse 
casaco emergiam, aos olhos do observador, mãos maciças com um anel que se afundara no dedo 
gordo, uma bengala com castão de cobre, um acentuado abaulamento do estômago e calças muita 
largas, de tecido semelhante a musselina, cujas largas bocas escondiam a ponta das botas." 
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 S. Freud, Die Traumdeutung, 9.ª ed. (Viena, 1950). 
segundo "magia por contágio".
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 Essa divisão é, na realidade, muito esclarecedora. 
Contudo, na maior parte dos casos, continua-se esquecendo o problema dos dois 
pólos, a despeito de seu vasto alcance e importância para o estudo de todos os 
comportamentos simbólicos, particularmente do comportamento verbal e de seus 
distúrbios. Qual a principal razão dessa negligência? 
A similaridade das significações relaciona os símbolos de uma metalinguagem 
com os símbolos da linguagem a que ela se refere. A similitude relaciona um termo 
metafórico com o termo a que substitui. Por conseguinte, quando o pesquisador 
constrói uma metalinguagem para interpretar os tropos, possui elementos mais 
homogêneos para manejar