Roman Jakobson   Linguística e Comunicação
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Roman Jakobson Linguística e Comunicação


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acham-se [pág.73] agrupadas em feixes 
simultâneos denominados "fonemas", que, por sua vez, se encadeiam em seqüências. 
Destarte, a forma, na linguagem, tem uma estrutura claramente granular e é suscetível 
de descrição quântica. 
A finalidade primeira da teoria da informação, tal como a formula por exemplo 
D. M. McKay, é "isolar de seus contextos particulares aqueles elementos abstratos de 
representações que possam ficar invariáveis em nova formulação"
3
. O análogo 
lingüístico deste problema é a pesquisa fonológica dos invariantes relacionais. As 
diversas possibilidades de medida da quantidade de informação fonológica que os 
engenheiros de comunicações entrevêem (quando distinguem entre conteúdo de 
informação "estrutural" e "métrica") podem fornecer à Lingüística, tanto sincrônica 
quanto histórica, dados preciosos, particularmente importantes para a tipologia das 
línguas, quer do ponto de vista puramente fonológico modo da interseção da 
Fonologia com o nível léxico-gramatical. 
A descoberta progressiva, pela Lingüística, de um princípio dicotômico, que 
está na base de todo o sistema dos traços distintivos da linguagem, foi corroborada 
pelo fato de os engenheiros de comunicações empregarem signos binários (binary 
 
*
 Trabalho apresentado ao "Symposium on Structure of Language and Its Mathematical Aspects", 
Nova Iorque, 15 de abril de 1960, e publicado, com o título de "Linguistics and Communication 
Theory" em Proceedings of Syrnposia in Applied Mathematics, XII (1961). 
1
 Journal of the Acoustical Society of America, vol. 22 (1950), p. 697. 
2
 CE. Shannon e Weaver, The Mathematical Theory of Communication (Urbana, The University of 
Illinois Press, 1949), pp. 74 e 112 ss. 
3
 Cybernetics: Transactions of the Eight Conference (Nova Iorque, Josiah Macy Jr. Foundation, 
1952), p. 224. 
digits, ou bits, para usar a "palavra-valise") como uma unidade de medida. Quando 
eles definem a informação seletiva de uma mensagem como o número mínimo de 
decisões binárias que permitam ao receptor reconstruir aquilo que precisa extrair da 
mensagem, com base nos dados já à sua disposição
4
, esta forma realista é 
perfeitamente aplicável ao papel exercido pelos traços distintivos na comunicação 
verbal. Tão logo se procurara "o meio de reconhecer universais pelos seus 
invariantes", e se esboçara uma classificação de conjunto dos traços distintivos, com 
base nesses princípios, o problema de traduzir os critérios propostos pelos lingüistas 
"numa linguagem matemática e instrumental" [pág.74] foi imediatamente suscitado 
por D. Gabor em suas conferências sobre a teoria da comunicação
5
. E recentemente 
se publicou um instrutivo estudo de G. Ungeheuer, que apresenta um ensaio de 
interpretação matemática dos traços distintivos e de sua estrutura binária.
6
 
A noção de "redundância", tomada pela teoria da comunicação a um ramo 
retórico da Lingüística, adquiriu lugar de importância no desenvolvimento dessa 
teoria e foi audaciosamente redefinida como equivalendo a "um menos a entropia 
relativa"; sob esse novo aspecto, reingressou na Lingüística atual, para tornar-se um 
dos seus temas centrais. Percebe-se agora a necessidade de uma estreita distinção 
entre diferentes tipos de redundância, tanto na teoria da comunicação como na 
Lingüística, em que o conceito de redundância compreende, por um lado, os meios 
pleonásticos enquanto se opõem à concisão explícita (brevitas, na nomenclatura 
tradicional da Retórica), e, por outro lado, o que é explícito, em contraposição à 
elipse. No nível fonológico, os lingüistas se habituaram a discernir os traços 
fonológicos distintivos das variantes contextuais, combinatórias (alofones), mas o 
tratamento, pela teoria da comunicação, de problemas estreitamente ligados entre si, 
como a redundância, a predizibilidade e as probabilidades condicionais, permitiu 
aclarar as relações entre as duas principais classes lingüísticas de qualidades fônicas 
\u2014 os traços distintivos e os traços redundantes. 
Uma análise fonológica, quando implique a eliminação sistemática das 
redundâncias, fornece, necessariamente, uma solução plenamente satisfatória e sem 
ambigüidades. A crença supersticiosa de certos teóricos poucos versados em 
Lingüística, de que "não há razão alguma para a distinção entre traços distintivos e 
redundantes"
7
, é claramente contestada por inúmeros dados lingüísticos. Se, por 
exemplo, em russo, a diferença entre vogais anteriores e suas correspondentes 
[pág.75] posteriores é sempre acompanhada de uma diferença entre consoantes 
precedentes, que são palatizadas diante das vogais anteriores, e não palatizadas diante 
das vogais posteriores, e se, por outro lado, a diferença entre consoantes palatizadas e 
não-palatizadas não se confina à proximidade vocálica, o lingüista é obrigado a 
concluir que, em russo, a diferença entre a presença e a ausência de palatização 
consonantal é um traço distintivo, enquanto que a diferença entre vogais anteriores e 
 
4
 Communication Theory, org. por W. Jackson (Nova Iorque, Academic Press, 1953), p. 2. 
5
 Lectures on communication theory (M.I. T., Cambridge, Mass., 1951), p. 82. 
6
 Studia Linguistica, vol. 13 (1959), p. 69-97 
7
 Word, vol. 13 (1957), p. 328. 
vogais posteriores aparece como simplesmente redundante. O caráter distintivo e a 
redundância, longe de serem postulados arbitrários do investigador, estão 
objetivamente presentes e delimitados na linguagem. 
O preconceito que considera os traços redundantes não pertinentes e os traços 
distintivos os únicos pertinentes está desaparecendo da Lingüística, e é mais uma vez 
a teoria da comunicação, particularmente quando trata das probabilidades 
transicionais, que ajuda os lingüistas a superarem a tendência de ver os traços 
distintivos e redundantes como sendo respectivamente pertinentes e não-pertinentes. 
Segundo McKay, "a frase-chave da teoria da comunicação" são as 
possibilidades preconcebidas; a Lingüística diz a mesma coisa. Em nenhuma das duas 
disciplinas houve a menor dúvida acerca do papel fundamental desempenhado pelas 
operações de seleção nas atividades verbais. O engenheiro admite um "sistema de 
classificação" de possibilidades pré-fabricadas mais ou menos comuns entre o 
emissor e o receptor de uma mensagem verbal, e, do mesmo modo, a lingüística 
saussuriana fala da langue, que possibilita uma troca de parole entre os 
interlocutores. Tal conjunto de possibilidades já previstas e preparadas
8
 implica a 
existência de um código, e esse código é concebido pela teoria da comunicação como 
"uma transformação convencionada, habitualmente de termo a termo e reversível"
9
, 
por meio da [pág.76] qual um dado conjunto de unidades de informação se converte 
em outros: por exemplo, ama unidade gramatical numa seqüência de fonemas e vice-
versa. O código combina o signans (significante) com o signatum (significado) e este 
com aquele. Hoje, no que respeita ao tratamento dos problemas de codificação na 
teoria da comunicação, a dicotomia saussuriana entre langue e parole pode ser 
reformulada de maneira muito mais precisa, o que lhe dá um novo valor operacional. 
Reciprocamente, na Lingüística moderna, a teoria da comunicação pode encontrar 
informações esclarecedoras sobre a estrutura estratificada do intrincado código 
lingüístico em seus vários aspectos. 
Embora a Lingüística já tenha descrito adequadamente em suas linhas gerais, a 
estrutura do código lingüístico, ainda se esquece amiúde que o conjunto finito de 
"representações padronizadas" se limita aos símbolos lexicais, aos seus constituintes 
gramaticais e fonológicos,