Roman Jakobson   Linguística e Comunicação
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Roman Jakobson Linguística e Comunicação


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e às regras gramaticais e fonológicas de combinação. 
Somente este setor da comunicação pode ser definido como uma simples "atividade 
de reprodução das representações". Por outro lado, é oportuno lembrar que o código 
não se limita àquilo que os engenheiros de comunicações chamam de "conteúdo 
puramente cognitivo do discurso", mas que, de igual maneira, a estratificação 
estilística dos símbolos léxicos, bem como as variações pretensamente "livres", na 
sua constituição como nas regras de suas combinações, são "previstas e preparadas" 
pelo código. 
Em seu programa para a futura ciência dos signos (a Semiótica), Charles Peirce 
notava o seguinte: "Um Legissigno é uma lei que é um Signo. Essa lei é comumente 
 
8
 Cybernetics: Transactions of the Eight Conference (Nova Iorque, The Technology Press of M. I. 
T., 1952), p. 183. 
9
 C. Cherry, On human communication (Nova Iorque-Londres 1957), p. 7. 
estabelecida pelos homens. Todo signo convencional é um Legissigno."
10
 Os 
símbolos verbais são citados como um exemplo notável de legissignos. Os 
interlocutores pertencentes à mesma comunidade lingüística podem ser definidos 
como os usuários efetivos de um único e mesmo código lingüístico, que compreende 
os mesmos legissignos. Um código comum [pág.77] é o seu instrumento de 
comunicação, que fundamenta e possibilita efetivamente a troca de mensagens. É aí 
que reside a diferença essencial entre a Lingüística e as ciências físicas, diferença 
ressaltada nítida e repetidamente na teoria da comunicação, sobretudo pela sua escola 
inglesa, que insiste numa linha precisa de demarcação entre a teoria da comunicação 
e a da informação. Contudo, tal delimitação, por estranho que pareça, é às vezes 
negligenciada pelos lingüistas. "Os estímulos recebidos da Natureza", como o indica 
sabiamente Colin Cherry, "não são imagens da realidade, mas os documentos a partir 
dos quais construímos nossos modelos pessoais."
11
 Enquanto o físico cria suas 
construções teóricas, aplicando seu próprio sistema hipotético de novos símbolos aos 
índices extraídos, o lingüista recodifica apenas, traduz nos símbolos de uma 
metalinguagem os símbolos já existentes, que estão em uso na língua da comunidade 
lingüística em questão. 
Os constituintes do código, por exemplo, os traços distintivos, ocorrem 
literalmente e funcionam realmente na comunicação falada. Tanto para o receptor 
como para o emissor, como observa R. M. Fano, a operação de seleção constitui a 
base dos "processos de transmissão da informação"
12
. O conjunto de escolhas por sim 
ou não que está subjacente em cada feixe desses traços discretos não é combinado 
arbitrariamente pelo lingüista mas efetuado realmente pelo destinatário da mensagem, 
na medida em que as sugestões do contexto, verbal ou não verbalizado, não tornem 
inútil o reconhecimento dos traços. 
Nos dois planos, gramatical e fonológico, não só o destinatário, quando decifra 
a mensagem, mas também o codificador podem praticar a elipse; particularmente o 
codificador pode omitir certos traços ou mesmo alguns de seus agrupamentos e 
seqüências. Mas a elipse também é regida por [pág.78] leis codificadas. A linguagem 
nunca é monolítica; seu código total inclui um conjunto de subcódigos: questões 
como a das regras de transformação do código central, plenamente satisfatório e 
explícito, em subcódigos elípticos, e a da comparação quanto ao teor de informação 
veiculada. exigem ser tratadas ao mesmo tempo pelos lingüistas e pelos engenheiros. 
O código conversível da língua, com todas as suas flutuações de subcódigo para 
subcódigo e todas as mudanças que sofre continuamente, exige uma descrição 
sistemática e conjunta pela Lingüística e pela teoria da comunicação. Uma visão 
compreensiva da simetria dinâmica da língua, implicando as coordenadas de espaço e 
 
10
 Collected Papers, vol. 2 (Cambridge, Massachusetts, Harvard University Press, 1932), p. 142 ss. 
11
 Op. cit., p. 62. Cf. W. Meyer-Eppler, Grundlagens und Anwendungen der Informationstheorie 
(Berlin-Goetinguen-Heidelberg, Springer-Verlag, 1959), p. 250 ss. 
12
 The transmission of information (Massachusetts Institute of Technology, Research Laboratory of 
Electronics, Technical Report N.° 65, 1949), p. 3 ss. 
tempo, deve substituir o modelo tradicional das descrições arbitrariamente limitadas 
ao aspecto estático. 
O observador lingüístico que possua ou adquira o domínio da língua que 
observa é ou progressivamente se torna um parceiro potencial ou atual da troca de 
mensagens verbais entre os membros da comunidade lingüística; ele se converte num 
membro passivo, ou mesmo ativo, dela. O engenheiro de comunicações está certo 
quando defende, contra "certos filólogos", a necessidade absolutamente imperativa de 
"trazer o Observador para dentro da cena", e ao sustentar, com Cherry, que "a 
descrição mais completa será a do observador participante".
13
 Ao contrário do 
participante, o espectador isolado e exterior se comporta como um criptanalista, que 
recebe mensagens das quais não é o destinatário e cujo código não conhece.
14
 Ele 
procura decifrar o código pelo exame das mensagens. Na medida do possível, este 
nível de pesquisa lingüística deve constituir apenas etapa preliminar de uma 
abordagem interna da língua estudada, quando então o observador se adapta aos que a 
falam como idioma materno, traduzindo-lhes as mensagens por meio do seu código. 
Enquanto o pesquisador não conhecer nenhum signatum e tiver acesso apenas 
aos signans, deve resolver-se, quer [pág.79] queira ou não, a apelar para suas 
qualidades de detetive e tirar dos dados externos o máximo de informações que lhe 
possam fornecer sobre a estrutura da língua. O estado atual da Etruscologia oferece 
bom exemplo desta técnica. Mas se o lingüista já está familiarizado com o código, 
isto é. se já domina o sistema de transformação por meio do qual um conjunto de 
significantes (signantia) se converte num conjunto de significados (signata), então 
torna-se supérfluo ele bancar o Sherlock Holmes, a não ser que deseje determinar 
precisamente até que ponto este processo artificial pode fornecer dados seguros. É 
difícil, no entanto, simular ignorância de um código familiar: as significações 
escamoteadas falseiam uma atitude que se pretendia criptanalítica. 
Obviamente, o "caráter inseparável do conteúdo objetivo e do sujeito que 
observa", assinalado por Niels Bohr como uma premissa de todo conhecimento bem 
definido
15
, tem por força de ser levado em conta em Lingüística e a posição do 
observador em relação à língua observada e descrita deve ser indicada com exatidão. 
Antes de mais nada, como o indicou Jurgen Ruesh, a informação que um observador 
pode colher depende de sua situação dentro ou fora do sistema
16
. Além disso, se o 
observador estiver situado dentro do sistema de comunicação, será mister 
compreender que a linguagem apresenta dois aspectos muito diferentes conforme seja 
vista de uma ou outra extremidade do canal de comunicação. Grosso modo, o 
processo de codificação vai do sentido ao som, e do nível léxico-gramatical ao nível 
fonológico, enquanto que o processo de decodificação exibe direção inversa \u2014 do 
soma ao sentido e dos elementos aos símbolos. Enquanto que a orientação 
 
13
 For Roman Jakobson (Haia, Mouton & Co., 1956), p. 61 ss. 
14
 Cf. R. Jakobson e M. Halle, Fundamentals of Language (Haia, Mouton & Co., 1956) pp. 17-19, 
15
 Atomic physics and human knowledge (Nova Iorque, John Wiley & Sons, 1958), p. 30. 
16
 Toward a unified theory of human behavior,