Roman Jakobson   Linguística e Comunicação
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Roman Jakobson Linguística e Comunicação


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org. por R. R. Grinker (Nova Iorque, Basic Books, 
1956), p. 54. 
(Einstellung, set) para os constituintes imediatos está em primeiro plano na produção 
do discurso, para a sua percepção a mensagem é antes de tudo um processo 
estocástico. O aspecto probabilístico do discurso encontra insigne expressão na 
maneira pela qual [pág.80] o ouvinte considera os homônimos, ao passo que, para 
quem fala, a homonímia não existe. Quando se diz "vão", sabe-se de antemão se se 
quer dizer "vão" (adjetivo) ou "vão" (do verbo ir), ao passo que o ouvinte depende 
das probabilidades condicionais do contexto
17
. Para o receptor, a mensagem apresenta 
grande número de ambigüidades onde não havia qualquer equívoco para o emissor. 
As ambigüidades do trocadilho e da poesia utilizam, para a emissão, esta propriedade 
da recepção. 
Sem dúvida alguma, existe uma realimentação (feedback) entre a fala e a 
audição, mas a hierarquia dos dois processos se inverte para o codificador e o 
decodificador. Estes dois aspectos distintos da linguagem são irredutíveis um ao 
outro; ambos são igualmente essenciais e devem ser vistos como complementares, no 
sentido em que Niels Bohr emprega o termo. A autonomia relativa do padrão de 
recepção é ilustrada pela generalizada prioridade temporal da aquisição passiva da 
linguagem, tanto entre as crianças como entre os adultos. A reivindicação de L. 
Scerba, de que se delimitem e se elaborem duas gramáticas \u2014 uma "ativa" e outra 
"passiva" \u2014 foi recentemente posta na ordem do dia por jovens estudiosos russos e 
tem igual importância para a teoria lingüística, o ensino das línguas e a Lingüística 
aplicada.
18
 
Quando um lingüista trata de um dos dois aspectos da linguagem à la Jourdain, 
isto é, sem se dar conta de se suas observações concernem à fonte ou à recepção, isso 
é menos perigoso que os compromissos arbitrários que se fazem freqüentemente entre 
as análises referentes à emissão e a recepção; é o que acontece, por exemplo, no caso 
de uma gramática que estude as operações gerais sem fazer apelo aos sentidos, a 
despeito da necessária prioridade do sentido para o codificador. Atualmente, a 
Lingüística recebe da teoria da comunicação sugestões particularmente valiosas para 
o estudo um tanto negligenciado da recepção verbal. [pág.81] 
McKay nos previne contra a confusão entre a troca de mensagens verbais e a 
extração de informação do mundo físico, duas coisas que foram abusivamente 
unificadas sob a etiqueta de "comunicação"; para McKay, esta palavra tem 
inevitavelmente uma conotação antropomórfica que "embrulha toda a questão".
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 Um 
perigo semelhante existe quando se interpreta a intercomunicação humana em termos 
de informação física. As tentativas de construir um modelo da linguagem sem relação 
alguma com quem a fale ou ouça, e de hipostasiar assim um código desligado da 
comunicação efetiva, ameaçam reduzir a linguagem a uma ficção escolástica. 
Ao lado da codificação e da decodificação, também o processo de 
recodificação, a passagem de um código a outro (code switching), em suma, os 
 
17
 V. International Journal of Slavic Linguistics and Poetics, vol. 1 e 2 (1959), p, 286 ss. 
18
 V. I. Revzin, Tezisy Konferencii po ma\u161innomu perevodu (Moscou, Pervyj Moskov, Gos. Ped, 
Inst. Inostrannyx Jazycov 1958), pp. 23-25 
19
 Cybernetics: Transactions of the Eight Conference (Nova Iorque, 1952), p. 271. 
variados aspectos da tradução, convertem-se numa das principais preocupações da 
Lingüística e da teoria da comunicação, tanto nos Estados Unidos como na Europa 
ocidental e oriental. Só agora é que problemas tão fascinantes quanto o dos modos e 
graus da compreensão mútua entre pessoas que falam certas línguas estreitamente 
aparentadas, como por exemplo o dinamarquês, o norueguês e o sueco, começam a 
chamar a atenção dos lingüistas
20
, prometendo aclarar o fenômeno conhecido em 
teoria da comunicação pelo nome de "ruído semântico", e o problema, teoricamente e 
pedagogicamente importante, de superá-lo. 
Sabe-se que durante certo período a Lingüística e a teoria da comunicação 
foram tentadas a tratar toda consideração relativa ao sentido como uma espécie de 
ruído semântico e a excluir a semântica do estudo das mensagens verbais. 
Atualmente, no entanto, os lingüistas evidenciam uma tendência de reintroduzir a 
significação, ao mesmo tempo que utilizam a experiência muito instrutiva propiciada 
por esse ostracismo temporário. Uma tendência semelhante pode ser igualmente 
observada na teoria da comunicação. [pág.82] 
Segundo Weaver, a análise da comunicação "clarificou de tal forma o ambiente 
que estamos agora prontos, quiçá pela primeira vez, para uma teoria real do 
significado, e, particularmente, em condições de examinar um dos aspectos mais 
importantes, mas também mais difíceis, da questão do sentido, a saber, a influência 
do contexto"
21
. Os lingüistas descobrem progressivamente como tratar as questões de 
sentido, e em especial a da relação entre significação geral e significação contextual, 
como tema intrinsecamente lingüístico e claramente distinto dos problemas 
ontológicos da denotação. 
A teoria da comunicação, que agora dominou o campo da informação 
fonemática, pode abordar a tarefa de medir a quantidade de informação gramatical, já 
que o sistema das categorias gramaticais, das categorias morfológicas em particular, 
tal como o sistema dos traços distintivos, acha-se baseado numa escala de oposições 
binárias. Assim é que há, por exemplo, 9 escolhas binárias na base de mais de 100 
formas conjugadas, simples e compostas, de um verbo inglês, que aparecem, por 
exemplo, em combinação com o pronome I ("eu")
22
. O teor de informação gramatical 
veiculada pelo verbo em inglês poderá ser confrontado posteriormente com os dados 
correspondentes relativos ao substantivo em inglês, ou ao verbo e ao substantivo em 
diversas línguas: a relação entre a informação morfológica e a informação sintática 
em inglês deverá ser comparada com a relação equivalente em outras línguas, e todos 
 
 
20
 Veja-se particularmente E. Haugen, Nordisk Tidskr, vol. 29 (1953), pp. 225-249. 
21
 Shannon e Weaver, op. cit , p. 116. Cf. D. M. McKay "The place of "Meaning" in the theory of 
information", Information Theory, org. por C. Cherry (Nova Iorque, Basic Books, 1956). 
22
 1. Pretérito (oposto a não-pretérito), 2. perfeito, 3. progressivo, 4. expectivo 5. moralmente 
decidido, 6. contingente, 7. potencial, 8. assertivo, 9. passivo. Cf. Roman Jakobson, American 
Antropologist, vol. 61, n.° 5, Parte 2 (1959), pp., 139-141, e W, F. Twaddell, The English verbs 
auxiliares (Providence, Brown University Press, 1960). 
esses dados comparativos propiciarão importante material complementar para uma 
tipologia das línguas e para a pesquisa de leis lingüísticas universais. [pág.83] 
Faltará ainda confrontar o teor de informação gramatical potencialmente 
contida nos paradigmas de uma dada língua (estudo estatístico do código) com o teor 
de informação similar nos atos de fala, nas ocorrências efetivas das diversas formas 
gramaticais no interior de um certo corpo de mensagens. Qualquer tentativa de 
ignorar esta dualidade e de confinar a análise e o cálculo lingüísticos apenas ao 
código ou apenas ao corpo, empobrecerá a pesquisa. Não se pode omitir a questão 
crucial da relação entre a estrutura dos constituintes do código verbal e sua freqüência 
relativa tanto no código como no uso que dele se faz. 
A definição semiótica do significado de um símbolo como sendo sua tradução 
em outros símbolos tem uma aplicação eficaz no exame lingüístico da tradução