Roman Jakobson   Linguística e Comunicação
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Roman Jakobson Linguística e Comunicação


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intra 
e interlingual; e tal abordagem da informação semântica concorda com a proposta de 
Shannon de definir a informação como "aquilo que fica invariável através de todas as 
operações reversíveis de codificação ou tradução", numa palavra, como "a classe de 
equivalência de todas essas traduções"
23
. 
No estudo das significações, gramaticais ou lexicais, precisamos tomar muito 
cuidado para não fazer mau uso das noções polares de "regularidade" e "desvio". 
Freqüentemente, é porque se perde de vista a estrutura estratificada, hierarquizada, da 
linguagem, que se recorre à idéia de desvio. Existe contudo substancial diferença 
entre posição secundária e desvio. Não se justifica que consideremos como aberrantes 
nem a "derivação sintática" com relação à "função primaria"
24
, de Kurylowicz, nem a 
oposição de Chomsky entre "transformações" e "núcleos"
25
 nem as significações 
"marginais" ("transferidas") face à significação "central" da palavra, de Bloomfield
26
. 
As criações metafóricas não representam desvios; são processos regulares de certas 
variedades [pág.84] estilísticas que são subcódigos de um código total; e no interior 
de um subcódigo deste gênero não há desvio quando Marvell designa com um epíteto 
concreto um nome abstrato (o que é, propriamente uma hipálage) \u2014 a green thought 
in a green shade ("um verde pensamento numa sombra verde") \u2014 nem quando 
Shakespeare transpõe metafóricamente um nome inanimado para o gênero feminino 
\u2014 the morning opens her golden gates ("a manhã (neutra em inglês) abre suas (dela) 
portas de ouro") \u2014 nem quando Dylan Thomas, como o nota a comunicação de 
Putnam. emprega metonimicamente "dor" em lugar de "momento doloroso" \u2014 A 
grief ago I saw him there (Há uma dor atrás eu o vi lá")
27
. Contrariamente às 
construções agramaticais do tipo "as meninas dorme", as frases citadas são dotadas de 
sentido, e toda frase dotada de sentido pode ser submetida a uma prova de veracidade 
exatamente da mesma maneira por que a afirmativa "Pedro é uma velha raposa" 
poderia provocar a réplica: "Pedro não é uma raposa, mas um porco. João é que é um 
 
23
 Cybernetics: Transactions of the Seventh Conference (Nova Iorque, 1951), p. 157. 
24
 Bulletin de la Societé de Linguistique de Paris, nº 110 (1936), pp. 79-92. 
25
 Syntactic Structures (Haia, Mouton & Co., 1957). 
26
 Language (Nova Iorque, Henry Holt & Co, 1933), p. 149. 
27
 Proceedings of Symposia in Applied Mathematics, X (1961). 
raposa." Seja dito de passagem que nem a elipse nem a reticência nem o anacoluto 
podem ser considerados estruturas divergentes; da mesma forma que o estilo obscuro, 
subcódigo braquilógico a que pertencem, são apenas derivados regulares das formas 
centrais contidas no padrão explícito. Uma vez mais essa "variabilidade do código", 
que permite compreender por que o padrão corrente não se acha realizado numa 
conduta patente foi negligenciada mais pelos lingüistas que pelos engenheiros de 
comunicações, menos embaraçados por preconceitos. 
Em resumo, existe um vasto conjunto de questões que reclamam a cooperação 
das duas disciplinas distintas e independentes de que se trata aqui. As primeiras 
etapas percorridas nesse sentido revelaram-se auspiciosas. Eu gostaria de concluir 
evocando o que é, provavelmente. o exemplo mais antigo, e talvez o mais espetacular 
há até bem pouco tempo, da colaboração entre a Lingüística, em particular o estudo 
da linguagem poética, de um lado, e a análise matemática dos processos estocásticos, 
de outro lado. A escola russa [pág.85] de métrica deve algumas de suas realizações 
de repercussão internacional ao fato de que, há uns quarenta anos, pesquisadores 
como B. Tomachevski, versados ao mesmo tempo em Matemática e Filologia, 
souberam utilizar as cadeias de Markov para o estudo estatístico do verso; tais dados, 
completados por uma análise lingüística da estrutura do verso, propiciaram, no 
começo da década de 1920, uma teoria do verso baseada no cálculo de suas 
probabilidades condicionais e das tensões entre antecipação e surpresa consideradas 
como valores rítmicos mensuráveis; o cálculo dessas tensões que batizamos de 
"expectativas frustradas", forneceu indicações surpreendentes para o estabelecimento, 
sobre uma base científica, da métrica descritiva, histórica, comparativa e geral.
28
 
Estou convencido de que os métodos recentemente desenvolvidos em 
Lingüística estrutural e teoria da comunicação, aplicados à análise do verso e a muitas 
outras províncias da linguagem, poderão abrir vastas perspectivas para uma 
coordenação ulterior dos esforços das duas disciplinas. Confiemos em que nossas 
expectativas não se frustrem.
29
 [pág.86] 
 
28
 Cf. B. Tomasevskij, O stixe (Leningrado, 1929); R. Jakobson, O cesskom stixe (Berlim-Moscou, 
1923); e \u2018Linguística and poetica". Style in Language (Nova Iorque, The Technology Press of 
Massachussets Institute of Technology, 1960) 
29
 Gostaria de dedicar este artigo à mem6ria do engenheiro O. A. Jakobson. 
A CONCEPÇÃO GRAMATICAL DE SIGNIFICAÇÃO SEGUNDO BOAS
*
 
 
 
 
 
The man killed the bull ("O homem matou o touro"). As glosas que Boas fez 
desta frase no seu epítome Language (1938) constituem uma de suas contribuições 
mais penetrantes à teoria lingüística. "Na linguagem", diz Boas, "a experiência a ser 
comunicada é classificada de acordo com certo número de aspectos distintos" (1938, 
p. 127). Assim, nas sentenças "o homem matou o touro" e "o touro matou o homem", 
duas seqüências opostas de palavras exprimem uma experiência diferente. Os 
"tópicos" (termo genérico sugerido por Yuen Ren Chao para designar o sujeito e o 
objeto) são os mesmos, homem e touro, mas o agente e o paciente se distribuem de 
forma diversa. 
A Gramática, segundo Boas, seleciona, classifica e exprime os diversos 
aspectos da experiência e, além disso, realiza outra importante função: "determina 
aqueles aspectos de cada experiência que devem ser expressos." Boas revela, 
sagazmente, a obrigatoriedade das categorias gramaticais como o traço específico que 
as distingue das significações lexicais: 
 
"Quando dizemos: The man killed the bull, en tendemos que um homem 
único e definido matou, no [pág.87] passado, um touro único e definido. Não 
podemos exprimir esta experiência de maneira tal que permaneçamos em 
dúvida quanto se trata de uma pessoa definida ou indefinida, de um touro 
definido ou indefinido, de uma ou mais pessoas ou touros, do presente ou do 
passado. Temos de escolher entre os aspectos, e um ou outro deve ser 
escolhido. Os aspectos obrigatórios são expressos por meio de procedimentos 
gramaticais. (1938, p. 132)." 
 
Em nossa comunicação verbal, defrontamos um conjunto de escolhas binárias. 
Se a ação referida é kill e se the man e the bull funcionam como agente e paciente 
respectivamente, a pessoa que fala tem, em inglês, de escolher entre (A) uma 
construção passiva e uma construção Ativa, a primeira enfocada no paciente, a 
segunda no agente. Neste último caso, o paciente, e no anterior, o agente, podem ou 
não ser designados: The man killed (the bull) e The bull Was killed (by the man). De 
vez que a menção do agente é facultativa nas construções passivas, a omissão não 
pode ser encarada como elíptica, ao passo que numa sentença como Was killed by the 
man constitui uma elipse saliente. Tendo escolhido a construção ativa, a pessoa que 
fala deve, ademais, fazer uma série de escolhas binárias entre, por exemplo, (B) 
Pretérito (remoto) ou Não-Pretérito: killed contraposto a kills; (C) Perfeito - na