Roman Jakobson   Linguística e Comunicação
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Roman Jakobson Linguística e Comunicação


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prenhe" aparece em lendas folclóricas, 
em piadas de jornal e no poema de David Burliuk: Mne nravitsja beremennyj 
muzhchina, prislonivshijsja k pamjatniku Pushkina, "Gosto [pág.95] do homem 
prenhe que se apóia no monumento de Pushkin". O masculino ocorre, além disso, 
num uso figurado do mesmo adjetivo. De maneira sei uma menina francesa, numa 
escola primária, sustentou que em sua língua materna não apenas os substantivos, 
mas também os verbos têm gênero; por exemplo, o verbo couver, "chocar", é 
feminino porque "as galinhas chocam, mas os galos não". Tampouco para níveis 
graduais de gramaticalidade podemos usar o argumento ontológico com o fito de 
excluir pretensas "não-sentenças inversas" como golf plays John, "o golfe joga João" 
(Chomsky, 1957, p. 42; cf. enunciados claros como John does not play golf; golf 
plays John).
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A agramaticalidade efetiva priva um enunciado de sua informação semântica. 
Quanto mais as formas sintáticas e os conceitos relacionais que elas veiculam 
parecerem estar obliterados, mais difícil será submeter a mensagem a uma prova de 
verdade, e somente a entonação de frase manterá juntos mots en liberté como silent 
no night by silently unday, "silenciosa não-noite por silenciosamente não-dia" (e . e. 
cummings) ou Furiously sleep ideas green colorless, "Furiosamente dormem idéias 
verdes, incolores" (N. Chomsky). Um enunciado como "Parece estar perto do fim", 
na versão agramatical "Estar fim perto parece", dificilmente poderá ser seguido da 
pergunta: "É verdade?" ou "Está certo disso?". Enunciados totalmente destituídos de 
gramática são, de fato, contra-sensos. O poder coercitivo do modelo gramatical, 
reconhecido por Boas e por ele contraposto à nossa relativa liberdade na escolha das 
palavras, torna-se particularmente manifesto por via de uma investigação semântica 
no domínio do contra-senso. [pág.96] 
 
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 Jogo de palavras com base na dupla acepção do verso to play e que se poderia literalmente traduzir 
por: "João não joga golfe; o golfe é que zomba de João" (N. dos T). 
REFERÊNCIAS CITADAS 
 
 
 
Boas, Franz, "Language". In General anthropology (Boston, 1938). 
Chao, Y. R., "How Chinese logic operates", Anthropological Linguistics I: 1-8, 1959. 
Chomsky, N., Syntactic Structures (Haia, Mouton e Cia., 1957). 
Jaspersen, O., The philosophy of modern Grammar (Londres, Nova Iorque, 1924). 
_________, A modern English Grammar on historic principles (Reprinted (Reedição) 
(Londres, Copenhague, 1954). 
Peirce, C. S., Collected Papers, Vol. 5 (Cambridge, Harvard University Press, 1934). 
Sapir, E., Language (Nova Iorque, Harcourt, Brace and Co., 1921). 
[pág.97] 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
À PROCURA DA ESSÊNCIA DA LINGUAGEM
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Considerando-se o fato de que "no discurso humano, sons diferentes têm uma 
significação diferente", o famoso manual que Leonard Bloomfield publicou em 1933 
concluía que "estudar a coordenação entre certos sons e certas significações é estudar 
a língua." Já um século antes, Wilhelm von Humboldt ensinava que "existe entre o 
som e o significado uma conexão aparente, a qual, entretanto, só raramente se presta 
a uma elucidação exata; muitas vezes, é apenas entrevista e na maioria dos casos 
permanece obscura". Desde a Antigüidade, essa conexão constituiu, para a ciência da 
linguagem, um eterno problema. O total esquecimento em que, entretanto, o haviam 
deixado os lingüistas do passado recente, pode ser ilustrado pelos freqüentes louvores 
dirigidos à pretensa novidade da interpretação que Ferdinand de Saussure fez do 
signo, particularmente do signo verbal, como unidade indissolúvel de dois 
constituintes \u2014 o significante e o significado \u2014, quando essa concepção, como 
também a terminologia na qual se exprimia, fora inteiramente retomada da teoria dos 
estóicos, a qual data de mil e duzentos anos atrás. Essa doutrina considerava o signo 
(sêmeion) como uma entidade constituída pela relação entre o significante (sêmainon) 
e o significado (sêmainomenon). O primeiro era definido como "sensível" (aisthêton) 
e o segundo como "inteligível" (noêton), ou então, [pág.98] para utilizar um conceito 
mais familiar aos lingüistas, "traduzível". Além disso, a referência aparecia 
claramente distinguida da significação pelo termo tynkhanon. Encontra-se, nos 
escritos de Santo Agostinho, uma adaptação e desenvolvimento mais avançado das 
pesquisas dos estóicos sobre a ação dos signos (sêmeiôsis), adaptação que recorre a 
termos decalcados do grego, o signum, por exemplo, sendo constituído pelo signans e 
pelo signatum. É bom notar, a tal respeito, que esse par de conceitos e de etiquetas 
correlatos só foi adotado por Saussure em meio a seu último curso de Lingüística 
geral, por intermédio talvez da Noologia, de H. Gomperz (1908). A doutrina citada 
está na base da filosofia medieval da linguagem, cujo desenvolvimento, profundidade 
e variedade de pontos de vista cumpre admirar. O duplo caráter de qualquer signo e, 
para retomar os termos de Ocam, a "dupla cognição" que disso resulta, foram 
perfeitamente assimilados pelo pensamento científico da Idade Média. 
Entre os pensadores norte-americanos, o mais inventivo e universal foi 
provavelmente Charles Sanders Peirce; tão grande foi que universidade alguma lhe 
encontrou um cargo à altura. Sua primeira tentativa de classificação dos signos, 
notável pela perspicácia \u2014 "Sobre Uma Nova Lista de Categorias" \u2014 apareceu nas 
Atas da Academia Norte-Americana das Artes e das Ciências do ano de 1867, e 
quarenta anos mais tarde, ao resumir "o trabalho de uma vida inteira sobre a natureza 
dos signos", declarava ele: "Sou, tanto quanto sei, um pioneiro, ou antes, um 
 
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 Traduzido de: "A la recherche de l\u2019essence du Langage", "traduzido do inglês por Jacques Havet" 
e publicado em Diogene, N° 51, julho-setembro de 1965, Gallimard, Paris. 
desbravador, na empresa de limpar o terreno e traçar o caminho daquilo a que eu 
chamo semiótica, isto é, a doutrina da natureza essencial e das variedades 
fundamentais da semiosis possível; penso que o domínio é vasto demais e a tarefa 
imensa para um iniciador." Tinha ele consciência aguda do caráter inadequado das 
premissas teóricas gerais sobre as quais se fundamentavam as pesquisas de seus 
contemporâneos. O próprio nome da sua ciência dos signos remonta à antiga 
sêmeiotikê; Peirce tinha em alta estima e explorou bastante a experiência dos lógicos 
antigos e medievais, "pensadores da mais alta ordem", não sem condenar 
severamente o "furor bárbaro" com que comumente se tratava "a maravilhosa 
[pág.99] finura dos escolásticos". Em 1903, expressou ele a firme convicção de que 
se, em vez de deixar cair no esquecimento a velha "doutrina dos signos", 
houvéssemos empreendido sua elaboração com ardor e gênio, o século XX teria 
podido, desde seu começo, dispor de ciências particulares de importância tão vital 
quanto, por exemplo, a Lingüística, "ciências essas que já estariam notavelmente 
mais avançadas do que se pode esperar estejam ao fim da primeira metade do século". 
A partir do fim do século passado, Saussure advogou uma disciplina análoga. 
Estimulado, por sua vez, pelo impulso helênico, deu-lhe o nome de Semiologia e 
esperou desse novo ramo do saber uma elucidação da vida dos signos e das leis que 
os regem. Segundo Saussure, a Lingüística estava destinada a não ser mais que uma 
parte dessa ciência geral; seu papel seria o de definir o que torna a língua um sistema 
especial no conjunto dos "fatos semiológicos". Seria interessante estabelecer se teria