Roman Jakobson   Linguística e Comunicação
109 pág.

Roman Jakobson Linguística e Comunicação


DisciplinaAnálise Textual9.256 materiais293.545 seguidores
Pré-visualização43 páginas
o fundamento da divisão do 
conjunto de signos [pág.103] em ícones, índices e símbolos, mas somente a 
predominância de um desses fatores sobre os outros. E assim que esse sábio fala de 
"ícones para os quais a semelhança é assistida por regras convencionais"; e lembrem-
se as diversas técnicas concernentes à perspectiva que o espectador deve assimilar 
para chegar à compreensão desta ou daquela escola de pintura; a diferença de 
tamanho das silhuetas se reveste de significados opostos conforme os códigos 
picturais; em certas tradições medievais, as personagens viciosas são expressa e 
uniformemente representadas de perfil, e somente de frente na arte do antigo Egito. 
Peirce adianta que "seria difícil, se não impossível, citar um exemplo de índice 
absolutamente puro, assim como encontrar um signo que seja completamente 
desprovido de qualidade indicativa". Mesmo um índice tão típico quanto um dedo 
apontado numa direção recebe, em diferentes culturas, significações diferentes; por 
exemplo, para certas tribos da África do Sul, indicar um objeto com o dedo é 
amaldiçoá-lo. Quanto ao símbolo, "ele implica necessariamente uma espécie de 
índice", e "sem recorrer a índices, é impossível designar aquilo de que se fala", 
A preocupação que teve Peirce de esclarecer o lugar desempenhado pelo 
acúmulo das três funções, com diferenças de grau, em cada um dos três tipos de 
signos, e, em particular, a escrupulosa atenção que dedicou aos componentes 
indicativo e icônico dos símbolos verbais, estão intimamente ligados à sua tese de 
que "os mais perfeitos dos signos" são aqueles nos quais o caráter icônico, o caráter 
indicativo e o caráter simbólico "estão amalgamados em proporções tão iguais quanto 
possível". Reciprocamente, a insistência de Saussure no caráter puramente 
convencional da linguagem está ligada à sua asserção de que "Os signos inteiramente 
arbitrários realizam melhor que os outros o ideal do procedimento semiológico" 
Os elementos indicativos da linguagem foram examinados em meu estudo 
intitulado: "As Embreagens, as Categorias Verbais e o Verbo Russo" (1957); 
esforcemo-nos agora por examinar a estrutura lingüística sob seu aspecto icônico e 
propor uma resposta à questão suscitada por [pág.104] Platão: em virtude de que 
espécie de imitação (mimêsis) a língua liga o significante ao significado? 
Se a cadeia de verbos veni, vidi, vici nos informa acerca da ordem das ações de 
César, é primeiramente porque a seqüência de perfeitos coordenados é utilizada para 
reproduzir a sucessão dos acontecimentos relatados. A ordem temporal dos processos 
de enunciação tende a refletir a ordem dos processos do enunciado, quer se trate de 
uma ordem na duração ou de uma ordem segundo a posição. Uma seqüência como "O 
Presidente e o Ministro tomaram parte na reunião" é bem mais corrente de que a 
seqüência inversa, porque a escolha do termo colocado em primeiro lugar na frase 
reflete a diferença de posição oficial entre as personagens. 
A correspondência que existe quanto à ordem entre o significante e o 
significado encontra o lugar que lhe cabe no quadro das "variedades fundamentais da 
semiosis possível" esboçado por Peirce. Este distinguia entre os ícones duas 
subclasses diferentes: as imagens e os diagramas. Na imagem, o significante 
representa as "qualidades simples" do significado, enquanto que no diagrama a 
semelhança entre o significante e o significado "concerne apenas às relações entre 
suas partes". Peirce definia um diagrama como "um representamen que é, de maneira 
predominante, um ícone de relação, e que convenções ajudam a desempenhar esse 
papel". Um exemplo deste gênero de "ícone de relações inteligíveis" é dado por um 
par de retângulos de tamanhos diferentes, que ilustram uma comparação quantitativa 
entre a produção de aço dos Estados Unidos e da União Soviética. As relações no 
seio do significante correspondera às relações no seio do significado. Num diagrama 
típico como as curvas estatísticas, o significante apresenta com o significado uma 
analogia icônica no que concerne às relações entre suas partes. Se, num diagrama 
cronológico, a taxa de crescimento de uma população é representada por uma linha 
pontilhada e a taxa de mortalidade por uma linha contínua, estas são, na linguagem de 
Peirce, traços "simbolóides" (Symbolide features). A teoria dos diagramas ocupa um 
lugar importante na pesquisa semiótica de Peirce; este [pág.105] lhe reconhece 
méritos consideráveis, devidos ao fato de que eles são "veridicamente icônicos, 
naturalmente análogos à coisa representada". O exame crítico de diferentes conjuntos 
de diagramas o conduz ao reconhecimento de que "toda equação algébrica é um 
ícone, na medida em que torna perceptíveis, por meio de signos algébricos (os quais 
não são, eles próprios, ícones), as relações existentes entre as quantidades visadas". 
Toda fórmula algébrica aparece como um ícone, e "aquilo que a torna tal são as 
regras de comutação, de associação e de distribuição de símbolos". É assim que "a 
Álgera não é outra coisa senão uma espécie de diagrama". Peirce via nitidamente que, 
"por exemplo, para que uma frase possa ser compreendida, é mister que a colocação 
das palavras no seio dela tenha a função de ícone". 
Examinando de maneira crítica os universais e quase universais (near-
universals) gramaticais descobertos por J. H. Greenberg, notei que a ordem dos 
elementos significativos, em virtude do seu caráter manifestamente icônico, 
testemunha uma tendência universalística particularmente nítida (conforme o 
relatório Universais of Language, publicado sob a direção de J. H. Greenberg, 1963). 
É por isso que, precisamente, a prioridade da proposição condicional em relação à 
conclusão constitui, nas frases condicionais de todas as línguas, a única ordem neutra, 
não marcada, a ser admitida ou a ter um caráter primário. Se quase sempre, de acordo 
com os dados reunidos por Greenberg, a única ordem \u2014 ou pelo menos a ordem 
fundamental predominante \u2014 nas frases enunciativas que comportem um sujeito e 
um objeto nominais, é uma ordem na qual o sujeito precede o objeto, é evidente que 
tal procedimento gramatical reflete a hierarquia dos conceitos gramaticais. O sujeito a 
quem a ação é atribuída pelo predicado (predicated) é, segundo os termos de Edward 
Sapir, "concebido como o ponto de partida, o agente da ação" por oposição ao "ponto 
final, o "objeto" da ação". É o sujeito, único termo independente da oração, que põe 
em evidência aquilo a que se aplica a mensagem. Qualquer que seja, com efeito, a 
posição do agente, ele é necessariamente promovido à dignidade de herói da 
mensagem logo que assume o papel [pág.106] de sujeito dela. "O subordinado ouve 
seu superior". Não obstante a hierarquia das posições, a atenção é primeiramente 
centralizada no subordinado como agente, depois volta-se para aquele que sofre sua 
ação, vale dizer, o superior a quem se dirige a obediência. Se, ao contrário, o 
predicado sublinha uma ação não efetuada, mas recebida, é o paciente que assume o 
papel de sujeito. "O superior é ouvido por seu subordinado." O caráter não omissível 
do sujeito e o caráter facultativo do complemento sublinham a hierarquia em 
discussão: "O subordinado ouve; o superior é ouvido." Como o colocaram em 
evidência séculos de minuciosa investigação gramatical e lógica, a predicação é um 
ato semântico de tal modo diferente de todos os outros que se faz mister rejeitar o 
raciocínio forçado que tende a pôr no mesmo plano o sujeito e objeto. 
O estudo dos diagramas encontrou a oportunidade de um novo 
desenvolvimento na teoria moderna dos gráficos (graphes). Lendo o interessante 
trabalho de F. Harary, R. Z. Norman e D. Cartwright, Structural models (1965), que