Roman Jakobson   Linguística e Comunicação
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Roman Jakobson Linguística e Comunicação


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descreve de maneira profunda os gráficos dirigidos de dimensões múltiplas, o 
lingüista se impressiona por suas analogias manifestas com os esquemas gramaticais. 
A composição isomórfica do significante e do significado mostra, num e noutro 
domínio semiológico, dispositivos inteiramente similares, que facilitam uma 
transposição exata das estruturas gramaticais, em particular sintáticas, para gráficos. 
Propriedades lingüísticas como a conexão essencial das entidades lingüísticas entre si 
e com os limites inicial e final da seqüência, a vizinhança imediata e a distância, o 
caráter central e o caráter periférico, as relações simétricas e assimétricas, e a 
supressão elíptica de uma parte de componentes, encontram equivalentes muito 
exatos na constituição dos gráficos. A tradução literal de um sistema sintático inteiro 
em um conjunto de gráficos nos permite destacar as formas diagramáticas, icônicas, 
dos traços estrita mente convencionais, simbólicos, de tal sistema. 
Verifica-se a existência de um nítido caráter diagramático não somente na 
combinação de palavras em grupos sintáticos, mas também na combinação de 
morfemas em palavras. [pág.107] Tanto na sintaxe como na morfologia, qualquer 
relação entre as partes do todo se conforma com a definição que Peirce dá dos 
diagramas e de sua natureza icônica. O contraste semântico fundamental entre as 
raízes enquanto morfemas lexicais e os afixos enquanto morfemas gramaticais, 
encontra uma expressão gráfica na diferença de suas posições no seio da palavra; os 
afixos, em particular as desinências, nas línguas onde existem, diferem habitualmente 
dos outros morfemas por sua utilização restrita e seletiva dos fonemas e de suas 
combinações. É assim que as únicas consoantes utilizadas nas desinências produtivas 
do inglês são as dentais contínua e oclusiva, e seu par -st. Das vinte e quatro 
consoantes "ruidosas" (não-soantes) do russo, só quatro fonemas, expressamente 
opostos uns aos outros, funcionam nas desinências. 
A morfologia apresenta numerosos exemplos de signos substitutivos, que 
mostram uma relação equivalente entre seus significantes e seus significados. Assim, 
nas diversas línguas indo-européias, os graus de comparação dos adjetivos \u2014 
positivo, comparativo, superlativo \u2014 apresentam um crescimento gradual do número 
de fonemas; por exemplo, high \u2014 higher \u2014 highest; altus \u2014 altior \u2014 altissimus. 
Desta maneira, os significantes refletem a gama de gradações dos significados. 
Existem línguas nas quais as formas do plural se distinguem da singular pela 
adição de um morfema, enquanto, segundo Greenberg, não existe língua alguma onde 
esta relação seja inversa e onde, por oposição às forma do singular, as do plural sejam 
inteiramente desprovidas de tal morfema adicional. O significante do plural tende a 
responder à significação de um aumento numérico por um acréscimo na longura da 
forma. Veja-se por exemplo, em francês, as formas verbais pessoais do singular e as 
formas correspondentes do plural, que apresentam desinências mais longas: 1. je 
finis\u2014nous finissons, 2. tu fínis\u2014vous finissez, 3. il finit\u2014ils fíeissent; ou, em 
polonês: 1. znam (eu sei) \u2014 znamy, 2. znasz\u2014znacie, 3. zna\u2014znaja, Na declinação 
dos nomes russos, as terminações reais (não-zero) são mais longas na forma do plural 
que na do singular, por um caso gramatical [pág.108] idêntico. Quando se recenseiam 
os diversos procedimentos históricos que não cessaram de reconstituir, nas diferentes 
línguas eslavas, o diagrama: formas mais longas no plural/formas mais breves no 
singular, é-se atraído pelos numerosos fatos da experiência lingüística do mesmo 
gênero que elas e que contradizem a tese saussuriana de que "o significante, na sua 
estrutura fônica, não tem nada que lembre nem o valor nem o significado do signo". 
O próprio Saussure atenuou seu "princípio fundamental do arbitrário" 
distinguindo em cada língua aquilo que é "radicalmente" arbitrário daquilo que só o é 
"relativamente". Ele atribuiu a esta última categoria os signos que podemos dissociar 
segundo o eixo sintagmático em constituintes identificáveis segundo o eixo 
paradigmático (ou "associativo"). Mas, além disso, certas formas, como a palavra 
francesa berger (do latim berbicarius), que Saussure considera "completamente 
imotivada", poderiam ser submetidas a uma análise análoga, já que -er está associado 
com as outras espécies desse sufixo, que indica o agente e que ocupa o mesmo lugar 
em outras palavras da série paradigmática, tais como vacher, etc. Além disso, quando 
procuramos a conexão entre o significante e o significado dos morfemas gramaticais, 
é conveniente guardar não somente os exemplos nos quais sua identidade formal é 
completa, mas também as situações nas quais afixos diferentes têm em comum certa 
função gramatical e um traço fonológico constante. É assim que, apesar das suas 
terminações, que diferem segundo os gêneros, os números e as partes do discurso, o 
caso instrumental, em polonês, apresenta invariavelmente o traço de nasalidade na 
última consoante ou na última vogal. Em russo, o fonema m (representado por dois 
alternantes automáticos \u2014 um com palatização e o outro sem palatização) aparece na 
desinência dos casos marginais (instrumental, dativo, locativo), nunca, porém em 
outras classes de casos gramaticais. De onde se segue que fonemas separados ou 
traços distintivos no seio de morfemas gramaticais podem servir de indicadores 
autônomos para certas categorias gramaticais. A observação feita por Saussure acerca 
d"o papel do relativamente motivado" pode ser aplicada a estas ações [pág.109] de 
subunidades morfêmicas: "O espírito consegue introduzir um princípio de ordem e de 
regularidade em certas partes da massa dos signos." 
Saussure distinguiu "duas correntes opostas que dividem entre si o movimento 
da língua: a tendência a empregar o instrumento lexicológico, o signo imotivado, e a 
preferência dada ao instrumento gramatical, isto é, à regra de construção". O sânscrito 
lhe aparecia como um espécime do ultragramatical, motivado ao máximo, enquanto 
que no francês, em relação ao latim, ele encontrava esse "arbitrário absoluto, que é, 
aliás, a condição essencial do signo lingüístico". É digno de nota que, nesta 
classificação, ele recorra somente a critérios morfológicos, deixando de lado a 
sintaxe. Tal esquema bipolar, de uma simplificação excessiva, foi melhorado de 
maneira substancial pelas luzes que Peirce, Sapir e Whorf derivaram de seu estudo de 
problemas mais vastos, de ordem sintática. Em particular Whorf, chamando a atenção 
para "a natureza algébrica da linguagem", soube abstrair das frases individuais os 
"desenhos da estrutura da frase", e sustentou que "o aspecto de estruturação 
(patternment) da linguagem domina e governa sempre seu aspecto de lexation ou de 
nominação". Assim. acontece que os constituintes incontestavelmente diagramáticos 
do sistema de símbolos verbais são universalmente impostos ao vocabulário. 
Deixando de p a gramática e examinando os problemas estritamente lexicais 
relativos às raízes e às palavras indissociáveis, isto, constituídas por um só morfema 
(os stoikheia lexicológicos e os prôta onomata, conforme os termos do Crátilo), 
devemos-nos perguntar, como o fizeram os interlocutores do dialogo de Platão. Se, ao 
chegar a este ponto, teríamos razão de parar e abandonar a discussão da conexão 
interna entre o significante e o significado, ou se, sem procurar fugir habilmente do 
problema, deveríamos "levar o jogo até o fim e aprofundar o exame destas questões". 
Em francês, ennemi, conforme o diz Saussure, "não está motivado por nada" e 
no entanto, em face da expressão ami e ennemi, um francês não pode ficar insensível 
à [pág.110] afinidade entre