Roman Jakobson   Linguística e Comunicação
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Roman Jakobson Linguística e Comunicação


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as duas palavras que rimam. Father, mother e brother não 
se dividem em raiz e sufixo; todavia a identidade de sonoridade destes termos de 
parentesco \u2014 na segunda sílaba \u2014 é sentida como uma espécie de alusão fonológica 
à sua proximidade semântica. Em inglês, não existe nenhuma regra sincrônica que 
governe a conexão etimológica entre -ten, -teen (sufixo dos numerais entre treze e 
dezenove) e -ty (sufixo de dezena), assim como entre three (três), thirty (trinta) e 
third (terceiro) ou entre two (dois), twelve (doze), twenty (vinte), twi- (o prefixo bi-) e 
twin (gêmeos), mas permanece uma relação paradigmática evidente, que continua a 
reunir estas formas em séries cerradas. Por mais opaco que seja o vocábulo eleven 
(onze). uma ligeira conexão com a forma sonora de twelve (doze), sustentada pela 
posição imediatamente vizinha dos dois algarismos, pode, apesar de tudo, ser 
percebida. 
Em nome de uma aplicação grosseira da teoria da informação, poderíamos 
esperar que se verificasse uma tendência à dissimilação dos nomes de números 
contíguos, como a substituição de zwei (dois) por zwo, levada a cabo pelo guia 
telefônico de Berlim, a fim de evitar confusão com drei (três). Bem ao contrário, 
todavia, é uma tendência à assimilação que prevalece no tocante a números cardinais 
adjacentes. Assim é que, em russo, ocorre uma atração gradual no seio de cada par de 
números simples, por exemplo, entre sem\u2019 (sete) e vosem\u2019 (oito), entre devjat\u2019 (nove) 
e desjat\u2019 (dez). A semelhança entre os significantes dá mais força à união dos 
numerais assim emparelhados. 
Termos novos como em inglês slithy (liso, viscoso e rastejante, tratando-se de 
um animal), tirado de slimy (coberto de lodo, pegajoso) e de lithe (flexível, ágil), e as 
inúmeras variedades de palavras contaminadas ou fundidas (blends and 
portmanteaus) revelam, entre as palavras simples, uma afinidade mútua, que provoca 
interação conjunta de seus significantes e de seus significados. 
O artigo de D. L. Bolinger citado acima ilustra, com exemplos convincentes, "a 
imensa importância das influências cruzadas" entre o som e o sentido, e as 
"constelações de palavras que apresentam sentidos similares aliados a sons 
similares", [pág.111] qualquer que possa ser a origem de tais constelações (por 
exemplo, bash, golpe; mash, touca; smash, golpe duro, vôo alto; crash, fragor, 
desmoronamento; dash, choque travessão, ataque súbito, etc.; lash, chicotada; hash, 
confusão, estafa; rash, erupção; brash, ruínas, escombros; clash, choque violento e 
sonoro, afronta; trash, repelente, desperdício, detrito; plash, marulho, barulho de um 
corpo caindo na água; splash, enlameadura, salpico, poça, mancha; e flash, 
relâmpago). Tais vocábulos estão confinados à onomatopéia e ainda aqui as questões 
de origem não são de molde a invalidar a análise sincrônica. 
A paronomásia, confrontação semântica de palavras similares do ponto de vista 
fônico, independentemente de toda conexão etimológica, desempenha papel 
considerável na vida da linguagem. É numa apofonia vocálica que se baseia o título-
trocadilho de um artigo de jornal: "Força ou farsa multilateral?" No provérbio russo 
Síla solómu lómit (a força quebra a palha), a conexão entre o predicado lómit e o 
objeto solóm- é interiorizada por uma quase incorporação da raiz lóm- à raiz solóm; o 
fonema l adjacente à vogal acentuada invade e une os três termos da frase; as duas 
consoantes do sujeito sua são repetidas na mesma ordem pelo objeto, o qual, por 
assim dizer, sintetiza a montagem fônica da palavra inicial e da palavra final do 
provérbio. E entretanto, ao simples nível léxico, o jogo mútuo do som e do sentido 
possui apenas um caráter latente e virtual, enquanto do ponto de vista da sintaxe e da 
modologia (no que concerne, ao mesmo tempo, à flexão e à derivação), a 
correspondência diagramática intrínseca entre o significante e significado é patente e 
obrigatória. 
Uma semelhança parcial entre dois significados pode ser representada por uma 
semelhança parcial entre os significantes, como nos exemplos estudados acima, ou, 
ainda, por uma identidade total entre os significantes, como no caso dos tropos 
lexicais. Astro (star) significa ou um corpo celeste ou uma pessoa \u2014 ambos dotados 
de um brilho soberano. A hierarquia instituída entre dois sentidos \u2014 um primário, 
central, próprio, independente do contexto; e o outro secundário, marginal, figurado, 
emprestado, ligado [pág.112] ao contexto \u2014 constitui um traço característico deste 
gênero de pares assimétricos. A metáfora (ou a metonímia) é a vinculação de um 
significante a um significado secundário, associado por semelhança (ou por 
contigüidade) com o significado primário. 
As alternâncias gramaticais nas raízes nos levam ao do mínio dos métodos 
morfológicos regulares. A escolha de fonemas alternantes pode ser puramente 
convencional, \u2018como o é, por exemplo, o emprego de vogais palatais nos plurais 
ídiches metafônicos citados por Sapir: tog, dia teg, dias; fus, pé \u2014 fis, pés, etc. Mas 
existem espécimes de "diagramas" gramaticais análogos, que apresentam, nos 
próprios alternantes, um valor claramente icônico, como, por exemplo, a reduplicação 
parcial ou total do radical nas formas do plural, do iterativo, do durativo ou do 
aumentativo de diversas línguas africanas e americanas. Nos dialetos bascos, a 
palatização, que eleva a tonalidade das consoantes, introduz uma idéia de diminuição. 
A substituição de vogais ou consoantes graves por vogais ou consoantes agudas, de 
vogais ou consoantes compactas por vogais ou consoantes difusas, de consoantes 
contínuas por consoantes descontínuas e de consoantes não-bloqueadas por 
consoantes bloqueadas (globalizadas) substituição utilizada num pequeno número de 
línguas americanas para "acrescentar ao sentido da palavra uma idéia de diminuição", 
e a substituição inversa, com vistas a exprimir um grau de aumento ou de 
intensificação \u2014 se fundam no valor sinestético latente de certas oposições de 
fonemas. Este valor, que é facilmente comprovável por testes e estudos experimentais 
acerca da percepção dos sons, e que se evidencia particularmente na linguagem 
infantil, pode, em certos casos, estar na base de escalas de sentidos "diminuvisados 
ou "aumentativisados", por oposição ao sentido neutro. A presença de um fonema 
grave ou agudo na raiz de uma palavra dakota ou chinookan não indica, por si só, um 
grau superior ou inferior de intensidade, ao passo que a coexistência de duas formas 
sonoras alternantes de uma só e mesma raiz cria um paralelismo diagramático entre a 
oposição dos dois níveis tonais no seio dos significantes e a dos dois valores de 
gradação nos seus significados respectivos. [pág.113] 
Com exceção desses raros casos de utilização gramatical, o valor icônico 
autônomo das oposições fonológicas fica amortecido nas mensagens puramente 
cognitivas, mas torna-se particularmente evidente na língua poética. Stéphane 
Mallarmé, que tinha uma sensibilidade surpreendente para a textura sonora da língua, 
fez a seguinte observação no seu ensaio Crise de vers: "Ao lado de ombre, termo 
opaco, tenèbres escurece pouco; que decepção diante da perversidade que confere a 
jour e a nuit, contraditoriamente, timbres escuros num caso, claros noutro." O verso, 
entretanto, como o queria o poeta, "remunera o defeito das línguas". Uma leitura 
atenta das imagens noturnas e diurnas na poesia francesa mostra como nuit ("noite") 
se escurece e jour ("dia") se aclara quando o primeiro é colocado num contexto de 
vogais graves e bemolizadas, e quando o segundo se dissolve numa seqüência de 
fonemas agudos. Mesmo na linguagem comum, como notou o semanticista Stephen 
Ullman, um envolvimento fônico conveniente pode reforçar a qualidade