Roman Jakobson   Linguística e Comunicação
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Roman Jakobson Linguística e Comunicação


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expressiva 
de uma palavra. Se a distribuição das vogais, em latim, entre dies e nox, ou, em 
tcheco, entre den e noc, assenta ao claro-escuro poético, a poesia francesa carrega de 
roupagem os vocábulos "contraditórios", ou substitui as imagens da luz do dia e da 
sombra da noite pelo contraste entre o dia pesado, abafante, e a noite etérea, por que 
tal contraste é sustentado por um outro complexo sinestético, que associa a tonalidade 
surda dos fonemas graves com a pesadez, e a tonalidade viva dos fonemas agudos 
com a leveza. 
A linguagem poética revela a existência de dois elementos que agem no 
agenciamento fônico: a escolha e a constelação dos fonemas e de seus componentes; 
o poder evocador destes dois fatores, ainda que fique escondido, existe entretanto de 
maneira implícita no nosso comportamento verbal habitual. 
O capítulo final dos Amours enfantines de Jules Romains se intitula Rumeur de 
la rue Réamur. O próprio nome da rua, diz-nos o autor, "assemelha-se a um canto de 
rodas e de muralhas" e evoca diversos outros ruídos da cidade: "trepidação", 
"vibração", "zumbido". Estes motivos, estreitamente [pág.114] unidos ao tema de 
fluxo e refluxo que é a base do livro, encarnam-se na forma sonora rue Réamur. No 
número de fonemas consonânticos deste nome, encontram-se somente soantes; a 
seqüência consiste em quatro soantes (S) e quatro vogais (V): SVSV-VSVS, simetria 
em espelho, com o grupo ru no começo e sua forma inversa ur no fim. A sílaba 
inicial e a sílaba final do nome são três vezes refletidas em eco pela vizinhança 
verbal: rue Réamur, rumeur, roues... murailles, trépidation d\u2019 immeubles. As vogais 
destas sílabas correspondentes manifestam três oposições fonológicas: 1) grave 
(velar) contra aguda (palatal); 2) bemolizada (arredondada) contra não-bemolizada 
(não-arredondada); 3) difusa (fechada) contra não-difusa (aberta): 
 
 
 RU MEUR RU RÉ AU MUR ROU MUR RÉ MEU 
grave \u2014 \u2014 \u2014 \u2014 + \u2014 + \u2014 \u2014 \u2014 
bemolizada + + + \u2014 + + + + 
difusa + \u2014 + \u2014 + + + + \u2014 \u2014 
 
 
O hábil entrelaçamento dos traços idênticos e dos traços contrastantes neste "canto de 
rodas e de muralhas", sugerido por um trivial nome de rua, responde de maneira 
concludente à palavra de ordem de Alexandre Pope: "O som deve fazer eco ao 
sentido". 
Atribuindo condição de postulado a dois caracteres primordiais da língua \u2014 o 
arbitrário do signo e o caráter linear do significante \u2014, Saussure conferia a ambos 
uma importância igualmente fundamental. Ele estava cônscio de que, se fossem 
verdadeiras, essas leis teriam "conseqüências incalculáveis" e determinariam "todo o 
mecanismo da língua". Todavia, o "sistema de diagramatização", de um lado evidente 
e obrigatório em toda a estrutura sintática e morfológica da linguagem, de outro lado 
latente e virtual no seu aspecto lexical, arruina o dogma saussureano do arbitrário, 
enquanto o segundo destes dois "princípios gerais" \u2014 o caráter linear do significante 
\u2014 ficou abalado [pág.115] pela dissociação dos fonemas em traços distintos. Uma 
vez abolidos esses dois princípios de base, seus corolários, por sua vez, exigem uma 
revisão. 
É assim que a idéia sugestiva e luminosa de Peirce, de que "um símbolo pode 
comportar um ícone ou um índice [ de nossa parte, "ou os dois ao mesmo tempo"] a 
ele incorporados", propõe à ciência da linguagem tarefas novas e urgentes e abre-lhe 
vastas perspectivas. Os preceitos formulados por esse "desbravador" da Semiótica 
estão repletos de conseqüências vitais para a teoria e a prática lingüísticas. Os 
constituintes icônico e indicial dos símbolos verbais foram muito freqüentemente 
subestimados ou mesmo ignorados; por sua vez, o caráter primordialmente simbólico 
da linguagem, e a diferença radical que, por conseguinte, a separa dos outros 
conjuntos de símbolos, principalmente indicativos ou icônicos, esperam igualmente 
encontrar seu exato lugar na metodologia lingüística moderna. 
Foi do Metalogicus de Jean de Salisbury que Peirce tomou emprestada sua 
citação favorita: Norninantur singularia, sed universalia significantur. Quantas 
polêmicas fúteis e banais poderiam ter sido evitadas pelos especialistas da linguagem 
se estes tivessem levado em conta a Speculative Grammar de Peirce e 
particularmente sua tese de que "um símbolo autêntico é um símbolo que tem uma 
significação geral" e, por sua vez, esta significação não pode ser senão um símbolo, 
"pois omne symbolum de symbolo". Não só um símbolo é incapaz de designar alguma 
coisa particular, pois, "designa necessariamente uma espécie de coisa", como também 
"ele próprio é uma espécie e não uma coisa singular". Um símbolo, por exemplo uma 
palavra, é uma "regra geral" que só preenche sua função significante através de 
diferentes casos particulares aos quais se aplica, a saber, as réplicas, enunciadas ou 
escritas, as quais são da ordem da coisa. Por mais variadas que sejam tais encarnações 
da palavra, esta permanece em todas as ocorrências "uma só e mesma palavra". 
Os signos para os quais o valor simbólico prevalece são os únicos que podem 
formar proposições, por possuírem uma significação geral, ao passo que "os ícones e 
os índices [pág.116] não afirmam nada". Uma das obras póstumas de Charles Peirce, 
Existential Graphs, que traz o subtítulo de "Minha obra-prima", conclui a análise e a 
classificação dos símbolos com uma vista de olhos no poder criador (enengeia) da 
linguagem: "Portanto, o modo de ser do símbolo é diferente do ícone e do índice. O 
ser de um ícone pertence à nossa experiência passada. O ícone só existe como uma 
imagem no espírito. O ser de um índice é o da experiência presente. Mas o ser de um 
símbolo consiste no fato real de que qualquer coisa será certamente conhecida por 
experiência se se preencherem determinadas condições. Isto quer dizer que 
influenciará o pensamento e a conduta de seu intérprete. Toda palavra é um símbolo. 
Toda frase é um símbolo. Todo livro é um símbolo. (...) O valor de um símbolo é 
servir para tornar racionais o pensamento e a conduta e permitir-nos predizer o 
futuro." Essa idéia não cessou de ser aprofundada pelo filósofo: ao hic et nunc 
indicial, ele opôs constantemente a "lei geral" que está na base de todo símbolo, 
"Tudo aquilo que é verdadeiramente geral relaciona-se com o futuro indeterminado, 
porque o passado contém apenas uma coleção de casos particulares que efetivamente 
se realizaram. O passado é de fato puro. Mas uma lei geral não se pode realizar 
plenamente. É uma potencialidade; e seu modo de ser é esse in futuro." Neste ponto, 
o pensamento do lógico norte-americano se entrecruza com a visão de Velimir 
Khlebnikov, o poeta mais original deste século, que em 1919 escreveu, comentando 
suas próprias obras: "Compreendi que a pátria da criação está situada no futuro; é de 
lá que procede o vento que nos enviam os deuses dos verbos." [pág.117] 
 
LINGUISTICA E POÉTICA
*
 
 
 
 
 
Felizmente, as conferências científicas e políticas nada têm em comum. O êxito 
de uma convenção política depende do acordo geral da maioria ou da totalidade de 
seus participantes. O uso de votos e vetos, todavia, é estranho à discussão científica, 
em que o desacordo se mostra, via de regra, mais produtivo que o acordo. O 
desacordo revela antinomias e tensões dentro do campo em discussão e exige novas 
explorações. As conferências científicas se parecem menos às conferências políticas 
que às expedições à Antártida: os especialistas internacionais nas diversas disciplinas 
tentam cartografar uma região desconhecida e descobrir onde se situam os maiores 
obstáculos para o explorador, os picos e precipícios infranqueáveis. Tal cartografação 
parece ter sido a principal tarefa de nossa conferência, e nesse particular