Roman Jakobson   Linguística e Comunicação
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Roman Jakobson Linguística e Comunicação


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de certos fenômenos entre os não-bilingües. 
Tocamos na questão que A. Sommerfelt abordava na sua importantíssima 
comunicação: a da difusão das estruturas (patterns) \u2014 das estruturas fonológicas, das 
categorias gramaticais, daquilo que Sapir chama de processos gramaticais. 
Poderemos fazer um juízo da vastidão dos fenômenos de difusão quando dispusermos 
do atlas iniciado em Oslo antes da última guerra e consagrado a esses fenômenos, que 
foram cartografados sem levar em conta as fronteiras e as relações entre as línguas 
que os manifestam. Discuti essa questão com um lingüista dos mais prudentes, Haas, 
e com um antropólogo dos mais prudente, Ray. A extensão da difusão fonológica e 
gramatical entre línguas vizinhas, de origens visivelmente diferentes, pareceu-nos tão 
surpreendente, tão difícil de explicar, que concordamos unanimemente na urgência de 
um estudo sistemático, em escala internacional, desses fenômenos. Tal 
empreendimento não elimina de maneira alguma os problemas de parentesco 
genético, mas deve-se dizer que o problema da afinidade não é menos importante \u2014 
e sem um conhecimento exato do que seja afinidade, nunca conseguiremos descobrir 
os elementos pertinentes do ponto de vista genético. 
Isto basta no que respeita às questões de espaço. Vamos agora ao fator tempo. 
Não se falou dele nesta Conferência, [pág.25] mas Hill o abordava no brilhante 
informe mimeografado que nos foi distribuído, Habituaram-nos aos manuais que 
preconizam uma separação completa entre a Lingüística sincrônica e a Lingüística 
diacrônica. Apresentavam-nas como duas metodologias inteiramente diferentes, 
como dois tipos de problemas fundamentalmente diferentes. Essa concepção está, ao 
meu ver, ultrapassada, e estamos de pleno acordo com as opiniões de Hill: a história 
de uma língua só pode ser a história de um sistema lingüístico que sofre diferentes 
mutações. Cada mutação deve ser analisada do ponto de vista do sistema como este 
era antes e como ficou depois da mutação. Isto nos leva a um ponto importante. 
Formulo-o em termos diferentes dos de Hill, mas espero que continuemos de acordo. 
Parece-me que o grande erro e a grande confusão, a separação acentuada entre 
sincronia e diacronia, foi em grande medida de à confusão entre duas dicotomias. 
Uma é a dicotomia entre sincronia e diacronia, outra a dicotomia entre estático e 
dinâmico. Sincrônico não é igual a estático. Se, no cinema, eu lhes perguntar o que 
estão vendo num dado momento na tela, os senhores não verão algo estático verão 
cavalos a correr, pessoas a andar e outros movimentos. Onde vêem o estático? 
Somente nos painéis de cartazes. Nos cartazes, há o estático, mas não 
necessariamente o sincrônico. Vamos supor que um cartaz permaneça imutável 
durante um ano: eis o estático. E é perfeitamente legítimo perguntar-se o que é 
estático na Lingüística diacrônica. Estou certo que interessaria a Hahn se eu tentasse 
definir o que é estático, imutável, em eslavo, desde a alta Idade Média ou desde o 
indo-europeu comum até nossos dias. É um problema estático, mas ao mesmo tempo 
um problema diacrônico. 
Passemos aos problemas de dinâmica. Tomarei como exemplo uma mudança 
que pude observar já em minha infância: trata-se de uma mudança notável ocorrida 
no sistema vocálico do russo corrente. Em posição inacentuada especialmente 
pretônica, os dois fonemas /e/ e /i/ eram distinguidos pela geração de nossos avós em 
Moscou. No linguajar de nossa geração e no de nossos filhos, esses dois [pág.26] 
fonemas fundiram-se num /i/ Para a geração intermediária, a de nossos pais, a 
distinção era facultativa. O que quer isto dizer? O seguinte: a geração intermediária 
tem um código que contém essa distinção. Quando se tem necessidade de fazer a 
discriminação para evitar ambigüidades ou para tornar o discurso particularmente 
claro, distinguem-se os dois fonemas na pronúncia. Mas num estilo negligente, 
despreocupado, elíptico por assim dizer, esta distinção, ao mesmo tempo que certas 
outras, pode ser omitida: o discurso se torna menos explícito. Assim, durante certo 
tempo. o ponto de partida e o remate da mutação coexistem sob a forma de duas 
camadas estilísticas diferentes; além disso, quando o fator temporal entra em jogo 
num sistema de valores simbólicos como a linguagem, ele próprio se torna um 
símbolo e pode ser utilizado como recurso estilístico. Por exemplo, quando falamos 
de maneira mais conservadora, empregamos as formas mais arcaicas. Em russo 
moscovita, a geração de nossos pais não empregava a distinção entre /e/ e /i/ 
inacentuados na conversação familiar: preferivelmente, seguia a nova moda de Fundir 
os dois fonemas para dar a impressão de ser mais jovem do que era realmente. 
Suponhamos que uma geração faça sempre a distinção e que a seguinte não a faça 
nunca. Entretanto, não acontece jamais que uma só geração exista a certo tempo e que 
todos os membros da geração precedente morram simultaneamente no mesmo dia. 
Portanto, os dois sistemas coexistem sempre durante certo tempo, e habitualmente as 
duas gerações têm entre si algum intercâmbio e o receptor pertencente a uma delas 
tem hábito de recodificar as mensagens recebidas do emissor da outra, Uma mudança 
é, pois, em seus primórdios, um fato sincrônico e, na medida em que não desejemos 
simplificar demais, a análise sincrônica deve englobar as mudanças lingüísticas; 
inversamente, as mudanças lingüísticas só podem ser compreendidas à luz da análise 
sincrônica. 
Há um outro problema que se faz cada vez mais premente em Lingüística 
estrutural. Não discutimos esse problema aqui, mas ele será levantado numa das 
próximas Conferências: trata-se do problema ao qual se faz freqüentemente alusão; 
tanto neste país como em outras partes, mas que está ainda em fase de laboratório. É 
o problema da tipologia [pág.27] lingüística \u2014 a tipologia dos sistemas e as leis 
universais que estão subjacentes a essa tipologia. Quais os elementos que podem 
ocorrer conjuntamente, quais os que não o podem? Quais os elementos que 
necessariamente ocorrem conjuntamente? Qual elemento B implica tal elemento A e 
quais elementos não se implicam reciprocamente? Qual ele mento implica a ausência 
de outro? 
O debate, introduzido por C. E. Osgood, sobre a afasia e sobre o problema 
conexo da linguagem infantil, leva-nos diretamente à questão das leis gerais da 
estruturação das línguas. Assim que verso tais problemas, o inevitável cético surge: 
"Nós não conhecemos todas as línguas", diz ele. "como então pode estar certo de que 
este ou aquele fenômeno estrutural não exista?". Muito bem; mas conhecemos um 
número suficiente de línguas para estarmos certos de que se, no futuro, uma exceção 
a uma dessas supostas leis fosse descoberta, tal exceção representaria apenas uma 
porcentagem ínfima e a lei guardaria o valor de uma constatação estatística de peso 
\u2014 tendo uma probabilidade inferior a 1, mas ainda assim muito próxima de 1. Além 
disso, existem leis de estruturação às quais é extremamente improvável que se possa 
achar a mínima exceção. Línguas que não admitem vogais como iniciais de palavra 
não são raras, mas duvido da existência de línguas que não admitam consoantes 
iniciais. 
Embora existam leis universais que governam os sistemas fonológicos e 
gramaticais, dificilmente encontraremos leis gerais de mudanças lingüísticas. 
Poderemos no máximo observar certas tendências, estabelecer o maior ou menor grau 
de probabilidade de diversas mudanças. Para que uma mudança seja possível, a única 
condição é a de que não chegue a um estado que contradiga as leis estruturais gerais. 
Esta maior validade das leis estáticas em contraposição às dinâmicas não se confina à 
Lingüística. Em outros domínios, o desenvolvimento