Roman Jakobson   Linguística e Comunicação
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Roman Jakobson Linguística e Comunicação


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das ciências modernas conduz 
às mesmas conclusões. É assim que aprendemos \u2014 cito \u2014 que a mecânica quântica é 
determinista do ponto de vista mórfico, ao passo que os processos temporais, as 
passagens de um estado estacionário a outro, são regidos por leis estatísticas: 
[pág.28] comparada à mecânica clássica, a mecânica quântica ganha em 
determinismo mórfico o que perde em determinismo temporal. Aqueles a quem as 
analogias arriscadas apavorem facilmente, replicarei que eu também detesto as 
analogias perigosas, mas gosto das analogias fecundas. Só o futuro dirá se tais 
analogias entre disciplinas diferentes são perigosas ou fecundas. 
Finalmente, um dos traços mais sintomáticos desta Conferência terá sido este: 
debatemos longa e apaixonadamente questões de sentido. Certos oradores notaram 
que, há somente alguns anos atrás, isso teria sido inimaginável. Pois bem, o fato de 
não terem sido elas discutidas mais cedo também se demonstrou útil. Os problemas 
impõem seu próprio calendário. Não podemos abordá-los todos ao mesmo tempo. 
Ainda há pessoas que dizem que as questões de sentido não têm sentido para elas, 
mas, quando dizem "não tem sentido", de duas, uma: ou sabem o que querem dizer, e 
eo ipso a questão do sentido adquire sentido, ou então não sabem, e sua fórmula se 
torna sem sentido. 
Acho excelente a expressão de Smith, differential meaning, "significação 
diferencial". Gostaria somente de acrescentar que toda significação lingüística é 
diferencial. As significações lingüísticas são diferenciais no mesmo sentido em que 
os fonemas são unidades fônicas diferenciais. Os lingüistas sabem que os sons da fala 
apresentam, além dos fonemas, variantes contextuais e variantes facultativas, 
situacionais (ou, em outros termos, "alofones" e "metafones"). Do mesmo modo, no 
nível semântico, encontram-se significações contextuais e significações situacionais. 
Mas só a existência de elementos invariantes permite reconhecer as variações. Tanto 
no nível do sentido como no nível do som, o problema dos invariantes é um problema 
crucial para a análise de um determinado estágio de uma língua dada. Esses 
invariantes, embaraçosos para o criptanalista, são familiares ao decodificador 
aborígine que, diante de um enunciado novo, sabe de antemão o que as palavras 
querem dizer, desde que pertença à mesma comunidade lingüística e não seja um caso 
patológico. É graças aos fonemas que o decodificador normal reconhece os sons 
pronunciados, e é [pág.29] graças aos modelos lexicais e morfológicos existentes no 
código que ele capta o sentido das palavras e dos morfemas presentes na mensagem. 
Se, todavia, os senhores não gostarem da palavra "significado" (meaning), por causa 
de sua ambigüidade. podemos falar simplesmente de invariantes semânticos \u2014 e 
estes não são menos importantes para a análise lingüística que os invariantes 
fonológicos. 
Smith. que tem o raro dom de apresentar e exemplificar bem concretamente as 
coisas, e utiliza tão tangivelmente o "significado diferencial" quanto o tio rico da 
encantadora anedota que nos contou, dizia que nos cumpre descobrir se as 
significações são idênticas ou diferentes. Certamente ele compreende tão bem quanto 
nós que é mais fácil proclamar o princípio de Identidade e de Alteridade do que 
decidir se dois processos semiológicos (Sign-events) encarnam efetivamente o mesmo 
modelo (design), ou se as duas instâncias (tokens) devem ser atribuídas a tipos 
semiológicos (sign-types) diferentes. A identificação e a diferenciação não passam 
das duas faces de um mesmo e único problema que é o problema principal de toda a 
Lingüística, nos dois níveis do significante e do significado, do signans e do signatum 
\u2014 para nos servirmos dos bons e velhos termos de Santo Agostinho \u2014 ou da 
"expressão" e do "conteúdo", como os batiza Hjelmslev na sua grande obra de 
glossemática. Este problema da identificação e da diferenciação, nos dois níveis da 
"expressão" e do "conteúdo", é, para nós lingüistas, uma questão intrinsecamente 
lingüística. 
Certos teóricos afirmam, é verdade, que a sintaxe se ocupa das relações dos 
signos entre si e a semântica das relações entre os signos e as coisas. Limitemo-nos 
entre tanto, no quadro da Lingüística sincrônica, a examinar qual a diferença entre 
sintaxe e semântica. A linguagem implica dois eixos. A sintaxe se ocupa do eixo dos 
encadeamentos (concatenação), a semântica do eixo das substituições. Suponhamos 
que eu diga, por exemplo, "o pai tem um filho": as relações entre "o", "pai", "tem", 
"um". e "filho" se situam no nível da cadeia verbal, são relações sintáticas. Quando 
comparo os contextos \u2014 "o pai tem um filho", "a mãe tem um filho", "o pai tem uma 
filha", "o [pág.30] pai tem dois filhos", substituo certos signos por outros e as 
relações semânticas com que nos havemos são relações tanto lingüísticas quanto 
sintáticas. A concatenação implica a substituição. 
Será novidade insistir no caráter intrinsecamente lingüístico da semântica? 
Não, trata-se de algo que já havia sido dito muito claramente; mas acontece que as 
coisas que são ditas muito claramente caem por vezes em esquecimento total. Desde 
1867, C. S. Peirce, que, repito, deve ser considerado como o autêntico e intrépido 
precursor da Lingüística estrutural, estabelecera nitidamente o caráter lingüístico da 
semântica. Como dizia ele, o signo \u2014 e em particular o signo lingüístico \u2014 para ser 
compreendido exige não só dois protagonistas que participem do ato da fala, mas, 
além disso, de um "interpretante". Segundo Peirce, a função desse interpretante é 
realizada por outro signo ou conjunto de signos, que são dados juntamente com o 
signo em questão ou que lhe poderiam ser substituídos. Eis, sem dúvida nenhuma, 
algo que deveria ser o ponto de partida de todas as nossas discussões futuras sobre o 
tratamento lingüístico das significações \u2014 problema que estará certamente no centro 
de nossas preocupações no futuro imediato. Não há dúvida de que haverá discussões 
quanto à terminologia, aos processos técnicos e a algumas facetas da teoria \u2014 mas os 
marcos fundamentais já se vislumbram. 
Sabemos cada. vez melhor como incorporar as significações gramaticais à 
análise estrutural, como o revelou a viva discussão conduzida por nossos amigos de 
Yale, F. G. Lounsbury e R. S. Wells. Mas mesmo na interpretação das significações 
lexicais menos nitidamente estruturadas, podemos e devemos continuar dentro do 
quadro da metodologia lingüística. A significação lexical seria sempre de sua 
competência, mesmo que nos limitássemos ao estudo dos diferentes contextos e 
restringíssemos esse estudo à análise distribucional: um enunciado que tenha a forma 
de uma equação reversível \u2014 A é B, B é A \u2014 é também um contexto; e uma das 
teses mais esclarecedoras de Peirce alvitra que o sentido de um signo é outro signo 
pelo qual ele pode ser traduzido. Ao ler no jornal de hoje: "OPA permite a [pág.31] 
alta de preço do porco". pessoalmente, eu não sei o que seja OPA, mas conheço o 
sentido das palavras "permite", "preço", "alta" e "porco". Como "porco" pode ser 
definido do ponto de vista lingüístico? "Porco significa carne de suíno usada como 
alimento". Tal contexto equacional é perfeitamente aceitável para a comunidade 
lingüística, da mesma forma que o enunciado inverso segundo o qual a carne de suíno 
usada como alimento chama-se "porco". O enunciado só nos informa, de fato, a 
significação lexical da palavra "porco" em português. Há diferentes maneiras de 
interpretar a palavra "porco" por meio de outros signos. Empregamos uma 
circunlocução, e podemos sempre fazê-lo: Pierce dá uma definição incisiva do 
principal mecanismo estrutural da linguagem quando mostra que todo signo pode ser 
traduzido