Roman Jakobson   Linguística e Comunicação
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Roman Jakobson Linguística e Comunicação


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por outro signo no qual ele está mais completamente desenvolvido. Em 
lugar de um método intralingual, podemos usar um modo interlingual de 
interpretação ao traduzir a palavra "porco" para outra língua. O método seria 
intersemiótico se recorrêssemos a um signo não-lingüístico, por exemplo a um signo 
pictórico. Mas em todos esses casos substituímos signos por signos. O que resta, 
então, de uma relação direta entre a palavra e a coisa? 
No interessantíssimo artigo distribuído por Harris e Voegelin é abordada a 
questão do papel que representa o "apontar com o dedo" (pointing) na elucidação do 
sentido. Permito-me acrescentar-lhe algumas considerações. Suponhamos que eu 
queira explicar a um índio unilingüe o que é Chesterfield e lhe aponte com o dedo um 
maço de cigarros. Que é que o índio pode concluir? Ele não sabe se eu estou 
pensando nesse maço em particular ou num maço em geral, num cigarro ou em 
muitos, numa certa marca ou em cigarros em geral, ou, mais geralmente ainda, em 
algo que se fuma, ou, universalmente nalguma coisa agradável. Além do mais, ele 
ignora se lhe estou simplesmente mostrando, ou se lhe estou dando, ou se lhe estou 
vendendo, ou se lhe estou proibindo os cigarros. Ele só fará idéia do que é e do que 
não é Chesterfield quando tiver dominado uma série de outros signos lingüísticos que 
funcionarão como "interpretantes" do signo em questão. [pág.32] 
Lembram-se do sábio de Balnibarbi, nas Viagens de Gulliver? Ele decidira que, 
"já que as palavras são apenas substitutos das coisas, seria mais prático para todos os 
homens carregar consigo as coisas que fossem necessárias para exprimir os assuntos 
específicos que tivessem de discutir". Evidenciou-se, entretanto, um inconveniente, 
assinalado por Swift, que era tão hábil na sátira quanto na ciência da comunicação: 
"se as ocupações de um homem são importantes, e de várias espécies, ele será 
obrigado, proporcionalmente a carregar um fardo maior de coisas nas costas" e se 
arrisca a ser esmagado pelo peso delas. Seria difícil conversar acerca de "uma baleia", 
mais embaraçoso ainda falar de "baleias", e praticamente impossível comunicar 
qualquer coisa sobre "todas as baleias" ou "baleias ausentes". Supondo mesmo que se 
consiga miraculosamente reunir todas as baleias do mundo, como exprimir, por 
coisas, que estão todas ali verdadeiramente? 
A lógica simbólica não tem deixado de lembrar-nos que as "significações 
lingüísticas", constituídas pelo sistema das relações analíticas de uma expressão com 
outras expressões, não pressupõem a presença das coisas. Os lingüistas, ao contrário, 
fizeram o impossível para excluir a significação, e todo recurso à significação, da 
Lingüística. Dessarte, o campo da significação permanece uma terra de ninguém. 
Esse jogo de esconde-esconde deve terminar. Por anos e décadas, temos lutado no 
sentido de anexar os sons da fala à Lingüística, constituindo assim a fonologia. 
Devemos agora abrir uma segunda frente: estamos diante da tarefa de incorporar as 
significações lingüísticas à ciência da linguagem. 
Temo que minhas considerações sobre todos esses problemas pendentes sejam 
tão fragmentárias quanto um trailer cinematográfico, mas os senhores as 
compreenderão, se é verdade, como diz Peirce, que todo signo pode ser traduzido em 
outro signo mais explícito. [pág.33] 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
DOIS ASPECTOS DA LINGUAGEM 
E DOIS TIPOS DE AFASIA 
 
 
I \u2014 A AFASIA COMO PROBLEMA LINGÜÍSTICO 
 
Se a afasia é uma perturbação da linguagem, como o próprio termo sugere, 
segue-se daí que toda descrição e classificação das perturbações afásicas deve 
começar pela questão de saber quais aspectos da linguagem são prejudicados nas 
diferentes espécies de tal desordem. Esse problema. abordado há já muito tempo por 
Hughlings Jackson.
1
 não pode ser resolvido sem a participação de lingüistas 
profissionais familiarizados com a estrutura e o funcionamento da linguagem. 
Para estudar, de modo adequado, qualquer ruptura nas comunicações, 
devemos, primeiro, compreender a natureza e a estrutura do modo particular de 
comunicação que cessou de funcionar. A Lingüística interessa-se pela linguagem em 
todos os seus aspectos \u2014 pela linguagem em ato, pela linguagem em evolução,2 pela 
linguagem em estado nascente, pela linguagem em dissolução. 
Atualmente, há psicopatologistas que dão grande importância aos problemas 
lingüísticos relacionados com o estudo [pág.34] 
das perturbações de linguagem;
3
 algumas dessas questões foram versadas nos 
melhores tratados recentemente publicados acerca da afasia.
4
 Entretanto, na maioria 
dos casos, essa legítima insistência na contribuição dos lingüistas às pesquisas sobre a 
afasia é ainda ignorada. Um livro recente, por exemplo, que trata extensamente das 
complexas e múltiplas implicações da afasia infantil, faz um apelo em prol da 
coordenação de várias disciplinas e reclama a cooperação de otorrinolaringologistas, 
pediatras, audiólogos, psiquiatras e educadores; todavia, a ciência da linguagem passa 
em silêncio como se as perturbações da percepção da fala não tivessem nada a ver 
com a linguagem.
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 Esta omissão é tanto mais deplorável quanto o autor é o Diretor da 
Clínica de Audição e Afasia Infantil, na North Western University, que conta, entre 
 
1
 Hughlings Jackson, "Papers on affections of speech" (republicados e comentados por H. Head), 
Brain, XXXVIII (1915). 
2
 E. Sapir, Language (Nova Iorque, 1921), Capítulo VII: \u2018Language as a historical product; drift." 
 
3
 Ver, por exemplo, a discussão sobre afasia nos "Nederlandsche Vereeniging voor Phonetische 
Wetenschappen", com artigos do lingüista J. van Ginneken e de dois psiquiatras, F. Grewel e V. W. 
D. Schenk, Psychiatrische en Neurologische Bladen, XLV (1941), p. 103 ss. cf., outrossim, F. 
Grewel, "Aphasie en linguistiek", Nederlandsch Tiddschrift voor Geneeskunde, XCIII (1949), p. 
726 ss. 
4
 A. R. Luria, Travrmati\u10deskaja afazija (Moscou, 1947); Kurt Goldstein, Language and Language 
Disturbances (Nova Iorque, 1948); André Ombredane, L\u2019aphasie et l\u2019élaboration de la pensée 
explicite (Paris, 1951). 
5
 H. Myklebust, Auditory Disorders in Children (Nova Iorque, 1954). 
seus lingüistas, Werner F. Leopold, sem dúvida o melhor especialista norte-
americano em linguagem infantil. 
Os lingüistas têm sua parte de responsabilidade no atraso em empreender uma 
pesquisa conjunta sobre afasia. Nada de comparável às minuciosas observações 
lingüísticas feitas em crianças de diferentes países foi realizado no que concerne aos 
afásicos. Tampouco houve qualquer tentativa de reinterpretar e sistematizar, do ponto 
de vista da Lingüística, os múltiplos dados clínicos referentes aos diversos tipos de 
afasia. Esse estado de coisas é bastante surpreendente, pois, de um lado, os 
espantosos progressos da Lingüística estrutural dotaram os pesquisadores de 
instrumentos e métodos eficazes para o estudo da regressão verbal e, de outro lado, a 
desintegração afásica das estruturas verbais pode abrir, [pág.35] para o lingüista, 
perspectivas novas no tocante às leis gerais da linguagem. 
A aplicação de critérios puramente lingüísticos à interpretação e classificação 
dos fatos da afasia pode contribuir, de modo substancial, para a ciência da linguagem 
e das perturbações da linguagem, desde que os lingüistas procedam com o mesmo 
cuidado e precaução ao examinar os dados psicológicos e neurológicos como quando 
tratam de seu domínio habitual. Primeiramente, devem familiarizar-se com os termos 
e procedimentos técnicos das disciplinas médicas que tratam da afasia; em seguida, 
devem submeter os relatórios