Roman Jakobson   Linguística e Comunicação
109 pág.

Roman Jakobson Linguística e Comunicação


DisciplinaAnálise Textual9.329 materiais293.655 seguidores
Pré-visualização43 páginas
de casos clínicos a uma análise lingüística completa; 
ademais, eles próprios deveriam trabalhar com os pacientes afásicos a fim de abordar 
os casos diretamente e não somente através de uma reinterpretação das observações já 
feitas, concebidas e elaboradas dentro de um espírito total mente diferente. 
Há um nível de fenômenos afásicos cru que notável acordo foi alcançado 
durante os últimos vinte anos entre os psiquiatras e os lingüistas que têm tratado 
dessas questões a saber, a desintegração do sistema fônico.
6
 Essa dissolução 
apresenta uma ordem temporal de grande regularidade. A regressão afásica se revelou 
um espelho da aquisição de sons da fala pela criança; ela nos mostra o 
desenvolvimento da criança ao inverso, Mais ainda, a comparação entre a linguagem 
infantil e a afasia nos permite estabelecer diversas leis de implicação. A pesquisa 
sobre a ordem das aquisições e das perdas e sobre as leis gerais de implicação não 
pode [pág.36] ser limitada ao sistema fonológico mas deve estender-se também ao 
sistema gramatical. Fizeram-se apenas alguns ensaios preliminares nesse sentido, e 
tais esforços merecem ser continuados.
7
 
 
6
 O empobrecimento afásico do sistema fônico foi observado e discutido pela lingüista Marguerite 
Durand em colaboração com os psicopatologistas Th. Alajouanine e A. Ombredane (em sua obra 
conjunta Le syndrome de désintégration phonétique dans l\u2019aphasíe, Paris, 1939) e por R. Jakobson 
(o primeiro esboço, apresentado ao Congresso Internacional de Lingüistas reunido em 1939 em 
Bruxelas \u2014 ver N. Trubetzkoy, Principes de phonologie, Paris, 1949, pp. 367-79 \u2014 foi 
posteriormente desenvolvido em "Kindersprache, Aphasie und allgemeine Lautgesetze", Uppsala 
Unirersitets Arsskrift 1942: 9; ver Selected Wrítings, Haia, 1962, 328-401); foi estudado mais 
amplamente em sua obra Sound and Meaning (a ser publicada por Wiley and Sons, em colaboração 
com The Technology Press). Cf. K. Goldstein p. 32 ss. 
7
 Uma investigação conjunta de certas perturbações gramaticais foi levada a cabo na Clínica da 
Universidade de Bonn pelo lingüista G. Kandler e dois médicos, F. Panse e A. Leischner; ver seu 
 
II \u2014 O DUPLO CARÁTER DA LINGUAGEM 
 
Falar implica a seleção de certas entidades lingüísticas e sua combinação em 
unidades lingüísticas de mais alto grau de complexidade. Isto se evidencia 
imediatamente ao nível lexical quem fala seleciona palavras e as combina em frases, 
de acordo com o sistema sintático da língua que utiliza; as frases, por sua vez, são 
combinadas em enuncia dos. Mas o que fala não é de modo algum um agente 
completamente livre na sua escolha de palavras: a seleção (exceto nos raros casos de 
efetivo neologismo) deve ser feita a partir do repertório lexical que ele próprio e o 
destinatário da mensagem possuem em comum. O engenheiro de comunicações 
aproxima-se de modo mais adequado da essência do ato da fala quando sustenta que, 
na troca ótima de informação, o que fala e o que ouve têm a sua disposição mais ou 
menos o mesmo "fichário de representações pré-fabricadas": o destinatário da 
mensagem verbal escolhe uma destas "possibilidades preconcebidas" e impõe-se que 
o destinatário faça uma escolha idêntica no mesmo repertório de "possibilidades já 
previstas e preparadas".
8
 Assim, para ser eficiente, o ato da fala exige o uso de um 
código comum por seus participantes. 
"Você disse porco ou porto?" perguntou o Gato. "Eu disse porco, respondeu 
Alice".
9
 Dentro deste enunciado [pág.37] específico, o destinatário felino se esforça 
por captar uma escolha lingüística feita pelo remetente. No código comum do Gato e 
de Alice, em português corrente, a diferença entre uma oclusiva velar e uma oclusiva 
dental, mesmo se todo o restante for igual. pode modificar a significação da 
mensagem. Alice usou o traço distintivo "velar/ dental" rejeitando o segundo para 
escolher o primeiro dos dois termos opostos. e no mesmo ato de fala ela combinou 
essa solução com alguns outros traços simultâneos, pois /k/ é surdo por oposição a /g/ 
sonoro, e oclusivo por oposição a /r/ vibrante velar. Assim, todos esses atributos 
foram combinados em um feixe de traços distintivos: no que se chama um fonema. O 
fonema /k/ é precedido e seguido pelos fonemas /p/, /o/, /r/ e /o/, os quais são, eles 
próprios, feixes de traços distintivos produzidos simultaneamente. Pode-se dizer que 
a concorrência de entidades simultâneas e a concatenação de entidades sucessivas são 
os dois modos segundo os quais n\u2019s, que falamos, combinamos os constituintes 
lingüísticos. 
Nem feixes de traços como /k/ ou /t/. nem seqüências de feixes como /porku/ 
ou /portu/ são inventados pela pessoa que os utiliza. Tampouco pode o traço 
distintivo velar/dental, ou o fonema /k/, aparecer fora do contexto. O traço velar 
aparece em combinação com outros traços concomitantes e o repertório de 
 
informe, Klinische und sprachwissenschaftliche Untersuchungen zum Agrammatismus (Stuttgart, 
1952). 
8
 D. M. Mackay, "In search of basic symbols", Cybernetics, Transactions of the Eighth Conference 
(Nova Iorque, 1952), p. 183. 
9
 Lewis Carroll, Alice\u2019s Adventures in Wonderland, Capítulo VI. 
 
combinações desses traços em fonemas como /p/, /b/, /t/, /d/, /k/, /g/ etc., é limitado 
pelo código da língua dada. O código impõe limitações às possíveis combinações do 
fonema /k/ com os fonemas subseqüentes e/ou precedentes, e somente uma parte das 
seqüências de fonemas permissíveis é realmente utilizada no estoque lexical de uma 
língua dada. Mesmo quando outras combinações de fonemas são te possíveis, o que 
fala, via de regra, é apenas um usuário, não um criador de palavras. Diante de 
palavras individuais, esperamos que elas sejam unidades codificadas. Assim, para 
compreender a palavra nylon, devemos saber o significado atribuído a esse vocábulo 
no código lexical do inglês moderno. 
Em toda língua, existem também grupos de palavras codificadas chamados 
palavras-frases. O significado da fórmula [pág.38] como vai você não pode ser 
inferido da adição dos significados de seus constituintes lexicais; o todo não é igual à 
soma de suas partes. Grupos de palavras, que, neste particular, se comportam como 
palavras únicas, representam um caso comum, mas não obstante marginal. Para 
compreender a esmagadora maioria dos grupos de palavras, basta estarmos 
familiarizados com as palavras constituintes e com as regras sintáticas de suas 
combinações. Dentro desses limites, temos liberdade de ordenar as palavras em, 
contextos novos. Evidentemente, tal liberdade é relativa e a pressão dos chavões 
usuais sobre nossa escolha de combinações é considerável. Mas a liberdade de 
compor contextos totalmente novos é inegável, apesar da probabilidade estatística 
relativamente baixa de sua ocorrência. 
Existe pois, na combinação de unidades lingüísticas. uma escala ascendente de 
liberdade. Na combinação de traços distintivos em fonemas, a liberdade individual do 
que fala é nula; o código já estabeleceu todas as possibilidades que podem ser 
utilizadas na língua em questão. A liberdade de combinar fonemas em palavras está 
circunscrita; está limitada à situação marginal da criação de palavras. Ao formar 
frases com palavras, o que fala sofre menor coação. E, finalmente, na combinação de 
frases em enunciados, cessa a ação das regras coercivas da sintaxe e a liberdade de 
qual quer indivíduo para criar novos contextos cresce substancial- mente, embora não 
se deva subestimar o número de enuncia dos