Roman Jakobson   Linguística e Comunicação
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Roman Jakobson Linguística e Comunicação


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Involuntariamente mantivemos discussões usando termos como codificação, 
decodificação, redundância etc Qual é então, exatamente a relação entre a teoria da 
comunicação e a Lingüística. Haveria por acaso conflito entre esses dois métodos de 
abordagem? Não, de modo algum! Em verdade, a Lingüística estrutural e as 
pesquisas dos engenheiros de comunicações convergem no que respeita à sua 
destinação. Mas então, de que ordem é exatamente a utilidade da teoria da 
comunicação para a Lingüística e vice-versa. É preciso reconhecer que, sob certos 
aspectos, os problemas da troca de informação encontraram, por parte dos 
engenheiros, uma formulação mais exata e menos ambígua, um controle mais eficaz 
das técnicas utilizadas bem como prometedoras possibilidades de quantificação. Por 
outro lado, a imensa experiência acumulada pelos lingüistas no tocante à linguagem e 
à sua estrutura permite-lhes expor as fraquezas dos engenheiros quando estes lidam 
com material lingüístico, A par da colaboração entre lingüistas e antropólogos, creio 
que uma colaboração sistemática dos lingüistas e talvez dos antropólogos também, 
com os engenheiros de comunicações será muito frutuosa. [pág.18] 
Analisemos os fatores fundamentais da comunicação lingüística: qualquer ato 
de fala envolve uma mensagem e quatro elementos que lhe são conexos: o emissor, o 
receptor, o tema (topic) da mensagem e o código utilizado. A relação entre esses 
quatro elementos é variável. E. Sapir analisou os fenômenos lingüísticos 
principalmente do ponto de vista de sua "função cognitiva", a qual ele considerava 
como a função essencial da linguagem. Mas essa ênfase da mensagem no seu tema 
está longe de ser a única possibilidade. Desde há alguma tempo, tanto nos Estados 
Unidos como em outros países os lingüistas começam a dar mais atenção às 
possibilidades evidenciadas pela ênfase da mensagem em outros fatores, em 
particular a ênfase nos dois protagonistas do ato de comunicação, o emissor e o 
receptor. É assim que acolhemos com prazer as penetrantes observações de Smith 
acerca dos elementos lingüísticos que servem para caracterizar quem fala, sua atitude 
em relação ao que diz e a quem o ouve. 
Às vezes, essas diferentes funções agem em separado, mas normalmente 
aparece um feixe de funções. Tal feixe de funções não é uma simples acumulação: 
constitui uma hierarquia de funções e é sempre muito importante sabor qual a função 
primária e quais as funções secundárias. Fiquei satisfeito com os estímulos que 
encontrei, no tocante a esse assunto, no artigo de Smith. No entanto, não empregarei 
sua rica terminologia. Devo confessar que, nesse ponto, estou de acordo com V. Ray. 
Os termos novos são, muitas vezes, a doença infantil de uma nova ciência ou de um 
ramo novo de uma ciência. Prefiro evitar hoje termos novos em excesso. Quando 
discutíamos problemas fonológicos na década de 1920, eu próprio introduzi muitos 
neologismos e depois, por acaso, livrei-me dessa doença terminológica. Quando eu 
estava na Suécia, B. Collinder, que detesta a Fonologia, disse-me que gostaria que eu 
escrevesse um livro para a Sociedade Lingüística de Upsala: "mas, por favor, nada de 
Fonologia!". Eu estava justamente terminando meu livro sobre a fonologia da 
linguagem infantil e da afasia; contentei-me em eliminar os termos fonológicos, 
diante do que ele disse: "Agora está ótimo O livro foi, de fato. [pág.19] bem acolhido 
e compreendido num vasto círculo, e eu, por minha vez, entendi que era possível, 
mesmo ao discutir problemas totalmente novos, livrar o trabalho de termos novos. 
Pouco importa que eu diga "Lingüística" e os senhores "Microlingüística". Para 
designar as diferentes seções da Lingüística, sirvo-me de termos tradicionais \u2014 os 
senhores preferem os compostos "Microlingüística" e "Metalingüística". Embora os 
termos tradicionais sejam perfeitamente satisfatórios, "Microlingüística" é inofensivo, 
O neologismo "Metalingüística" \u2014 e nisso estou de acordo com Chao e outros \u2014 é 
um pouco perigoso, porque "Metalingüística" e "metalinguagem" querem dizer algo 
completamente diferente em Lógica simbólica. Como é melhor ter relações 
desanuviadas com os lógicos, seria preferível evitar tais ambigüidades. Além disso, 
os senhores se espantariam se um zoólogo, ao descrever o que um determinado 
animal come, e em que parte do mundo o encontramos, chamasse tais questões de 
Metazoologia. Mas não insistirei; continuo a seguir o conselho de meu falecido 
mestre A. M. Pechkovsky: "Não nos atormentemos com a terminologia", dizia ele; 
"se você tem um fraco pelos neologismos, empregue-os, Você pode até chamar a isto 
"Ivan Ivanovich", desde que todos saibamos o que você quer dizer." 
Voltemos às funções lingüísticas. Mencionei a ênfase no tema (topic), no 
emissor e no receptor; vemos quantas coisas novas podemos descobrir ao analisar 
esse problema fundamental do emissor e do receptor. Além disso, é ainda possível 
dar ênfase ou ao código ou à mensagem. Esta ênfase na mensagem propriamente dita 
constitui a chamada função poética. Estou contente em saber que, se não nesta 
conferência, pelo menos na próxima, essa função será colocada no programa de 
debates, O bem sucedido seminário que A Hill e H. Whitehall mantêm sobre a 
linguagem poética, neste Instituto de Lingüística, é uma prova eloqüente de que os 
problemas da linguagem poética estão no primeiro plano das preocupações dos 
lingüistas norte-americanos. Estou satisfeito com o fato de que \u2014 como o proclama 
Whitehall no excelente panfleto, publicado recentemente pelo Foreign Service 
Institute \u2014 uma ponte entre a Lingüística e a crítica literária tenha sido finalmente 
edificada neste país. O tema [pág.20] próprio das pesquisas sobre poesia não é outro 
senão a linguagem, considerada do ponto de vista de sua função predominante: a 
ênfase na mensagem. Essa função poética, entretanto, não se confina à poesia. Há s 
uma diferença na hierarquia: tal função pode estar subordinada e outras funções ou, 
ao contrário, aparecer como a função central, organizadora, da mensagem. A 
concepção da linguagem poética como uma forma de linguagem onde a função 
poética é predominante ajudar-nos-á a compreender melhor a linguagem prosaica de 
todos os dias, em que a hierarquia de funções é diferente mas em que tal função 
poética (ou estética) tem necessariamente um lugar e desempenha um papel tangível 
tanto do ponto de vista sincrônico como sob o ponto de vista diacrônico. Há casos 
fronteiriços instrutivos: a mais alta unidade lingüística codificada funciona, ao 
mesmo tempo, como o menor todo poético nessa área marginal, as pesquisas de nosso 
amigo D. B. Shinkin sobre os provérbios constituem um tema fascinante, já que o 
provérbio é, ao mesmo tempo, uma unidade fraseológica e uma obra poética. 
Mencionamos os fatores implicados no ato da fala mas nada dissemos das 
interações e permutações possíveis entre esses fatores \u2014 por exemplo, os papéis de 
emissor e de receptor podem confundir-se ou alternar-se, o emissor e o receptor 
podem tornar-se o tema da mensagem etc, Mas o problema essencial para a análise do 
discurso é o do código comum ao emissor e ao receptor e subjacente à troca de 
mensagens. Qualquer comunicação seria impossível na ausência de um certo 
repertório de "possibilidades preconcebidas" ou de "representações pré-fabricadas" 
como dizem os engenheiros, e notadamente D. M. MacKay, um dos mais próximos 
dos lingüistas, entre eles. Quando li tudo o que escreveram os engenheiros de 
comunicações \u2014 sobretudo nos Estados Unidos e na Inglaterra (em particular E. C. 
Cherry, D. Gabor e MacKay) \u2014 sobre código e mensagem. dei-me conta, é claro, de 
que desde há muito esses dois aspectos complementares são familiares às teorias