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preservamos a 
mesma figura no pensamento. Esta distinção, entretanto, não é de grande utilidade, uma vez que 
nada pode ser construído com ela na prática, nem ela é sempre muito clara. É de pouca 
importância se damos a certo modo de expressão específico o nome de tropo ou o de figura, 
desde que lembremos que a linguagem figurada sempre importa certo colorido da imaginação, ou 
certa emoção de paixão, expressa no nosso estilo; e, talvez, figuras de imaginação e figuras de 
paixão possam constituir uma distribuição mais útil do assunto. Mas, sem insistir em quaisquer 
divisões artificiais, será mais útil inquirir sobre a origem e a natureza das figuras. [...] 
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 Na ascensão primeira da linguagem, os homens teriam começado dando nomes aos 
diferentes objetos que discerniam ou sobre que pensavam. Essa nomenclatura, no começo, teria 
sido muito estreita. À medida que as idéias dos homens se multiplicavam, e crescia seu 
conhecimento dos objetos, seu estoque de nomes e palavras teria crescido também. Mas, para a 
infinita variedade de objetos e de idéias, nenhuma língua é adequada. Nenhuma língua é tão 
copiosa a ponto de ter uma palavra específica para cada idéia específica. Os homens naturalmente 
buscaram abreviar seu labor de multiplicar palavras in infinitum; e, a fim de colocar menos carga 
na memória, fizeram que uma palavra, que já tinham ajustado a certa idéia ou objeto, 
representasse também alguma outra idéia ou objeto, entre o qual e o primeiro achavam, ou 
imaginavam, certa relação. Assim, a preposição em foi originariamente inventada para expressar 
a circunstância de lugar: \u201cO homem foi morto em casa.\u201d Com o tempo, palavras foram 
demandadas para expressar a conexão dos homens com certas condições do destino ou certas 
situações do espírito;3 e, sendo imaginadas entre estas e o lugar dos corpos alguma semelhança 
ou analogia, a palavra em passou a ser empregada para expressar tais circunstâncias dos homens, 
como \u201calguém estar em paz, em segurança, em perigo, em dúvida\u201d. Aqui vemos esta preposição 
em assumindo plenamente um sentido de tropo, ou afastada de seu significado original, para 
significar algo mais, que se relaciona ou parece com o significado original. 
 Tropos desse tipo abundam em todas as línguas, e se devem claramente à demanda por 
palavras apropriadas. As operações do espírito e dos afetos, especialmente, são, na maioria das 
línguas, descritas com palavras tomadas aos objetos sensíveis. A razão é clara. Os nomes dos 
objetos sensíveis constituíram, em todas as línguas, as palavras introduzidas mais cedo; e foram, 
gradualmente, estendidas aos objetos mentais, de que os homens tinham concepções mais 
obscuras, e para as quais acharam mais difícil atribuir nomes distintos. Tomaram emprestado, por 
conseguinte, o nome de alguma idéia sensível, onde a imaginação deles achou alguma afinidade. 
Assim, falamos de um julgamento penetrante, e de uma cabeça clara, de um coração duro ou 
mole, de um comportamento áspero. Dizemos inflamado de cólera, aquecido pelo amor, inchado 
 
3 O substantivo inglês mind apresenta diversas acepções, entre as quais \u201cmente\u201d, \u201cespírito\u201d, \u201centendimento\u201d, 
\u201cpensamento\u201d, \u201cintelecto\u201d, \u201cinteligência\u201d, \u201cmemória\u201d. Na presente tradução, nesta e nas demais ocorrências do 
termo, verteu-se sistematicamente mind para \u201cespírito\u201d. (Nota do tradutor.) 
 
de orgulho, mergulhado em tristeza; e estas são quase as únicas palavras significativas que temos 
para tais idéias. 
 Mas, embora a pobreza da linguagem e a demanda por palavras sejam sem dúvida uma 
causa para a invenção de tropos, ainda assim ela não é a única, nem, talvez, a principal fonte 
dessa forma de discurso. Os tropos surgiram mais freqüentemente, e se expandiram mais 
amplamente, da influência que a imaginação possui sobre a linguagem. Tentarei explicar o 
encadeamento segundo o qual isso se processou entre todas as nações. 
 Todo objeto que causa alguma impressão no espírito humano é constantemente 
acompanhado de certas circunstâncias e relações que nos atingem ao mesmo tempo. Ele nunca se 
apresenta à nossa visão isolé, como se diz em francês, isto é, independente e separado de 
qualquer outra coisa, mas sempre ocorre de algum modo relacionado com outros objetos: 
antecedendo-os ou os seguindo; como efeito ou como causa deles; parecendo com eles ou a eles 
se opondo; distintos por certas qualidades ou cercados de certas circunstâncias. Por esses meios, 
toda idéia ou objeto leva no seu encadeamento algumas outras idéias, que podem ser 
consideradas como seus acessórios. Esses acessórios freqüentemente atingem a imaginação mais 
do que a própria idéia principal. Constituem, talvez, idéias mais agradáveis, ou são mais 
familiares às nossas concepções, ou relembram à nossa memória maior variedade de 
circunstâncias importantes. A imaginação permanece mais disposta a demorar-se em algumas 
delas; e por conseguinte, em vez de usar o nome próprio da idéia principal que pretende 
expressar, emprega, em seu lugar, o nome da idéia acessória ou correspondente, embora a idéia 
principal tenha um nome próprio e bem conhecido que lhe pertence. Por conseguinte, uma vasta 
variedade de palavras figuradas ou que constituem tropos tornam-se correntes em todas as 
línguas, mediante escolha, não por necessidade; e os homens de imaginação vívida todos os dias 
estão aumentando o seu número. 
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 O que se disse sobre esse assunto tende a projetar luz sobre a natureza da linguagem em 
geral, e levará às razões por que os tropos ou figuras contribuem para a beleza e a graça do estilo. 
 Em primeiro lugar, elas enriquecem a linguagem, tornando-a mais copiosa. Por elas, 
palavras e expressões são multiplicadas para expressar todos os tipos de idéia, para descrever até 
as menores diferenças, os mais sutis matizes e cores do pensamento, o que nenhuma língua 
poderia possivelmente conseguir apenas por palavras próprias, sem a assistência dos tropos. 
 Em segundo lugar, elas conferem dignidade ao estilo. A familiaridade das palavras 
comuns, com as quais nossos ouvidos estão muito acostumados, tende a degradar o estilo. 
Quando queremos adaptar nossa linguagem ao tom de um assunto elevado, ficaríamos muito 
prejudicados se não pudéssemos tomar emprestada a assistência das figuras, as quais, 
apropriadamente empregadas, têm sobre a linguagem efeito similar ao que é produzido pela 
roupa rica e esplêndida de uma pessoa de classe: criar respeito e dar um ar de magnificência a 
quem a usa. Assistência dessa espécie é sempre necessária nas composições em prosa; mas a 
poesia não poderia subsistir sem ela. Por conseguinte, as figuras modelam a característica 
linguagem da poesia. [...] 
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 Em terceiro lugar, as figuras nos dão o prazer de fruir dois objetos apresentados juntos à 
nossa vista, sem confusão: a idéia principal, que é o assunto do discurso, em companhia da sua 
acessória, que fornece a ela a roupagem figurada. Vemos uma coisa na outra, segundo a 
expressão de Aristóteles, o que é sempre agradável ao espírito. Pois não há nada que mais deleite 
a fantasia do que as comparações e semelhanças dos objetos; e todos os tropos se fundamentam 
em alguma relação ou analogia entre uma coisa e outra. Quando, por exemplo, no lugar de 
\u201cjuventude\u201d, digo \u201ca