Antonio Candido O Estudo Analitico do Poema
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Antonio Candido O Estudo Analitico do Poema


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um determinado efeito sobre o leitor e o auditor. Mas vimos desde o 
começo do curso que a linguagem corrente é tecida de metáforas, criadas e usadas 
inconscientemente e incorporadas ao patrimônio léxico do povo. Segundo Charles Bally, o 
elemento de consciência, a intenção do autor, é o traço diferencial entre os dois tipos. É um 
traço de fato importantíssimo, e faz pouco dissemos que a originalidade do autor é uma das 
fontes de criação metafórica. Mas se analisarmos a própria natureza do fenômeno, veremos que 
tanto as metáforas comuns, quanto a literárias, pertencem ao universo das transposições de 
sentido, implicando analogia, comparação subjetiva, fusão semântica. Lembra Konrad com 
razão que as metáforas comuns são automáticas; mas que se fixarmos nelas a atenção, 
constataremos imediatamente que são expressões figuradas e não próprias. Karl Bühler assinala 
que, em sentido lato, toda composição literária é metafórica, e que "o metafórico não é um 
fenômeno particular". (Teoria dei Lenguaje, p. 413). E mais adiante aponta no processo 
metafórico, para além da analogia em sentido aristotélico, uma basca bastante simples do 
elemento característico de cada objeto a comparar, ligando-os por meio da abstração. Trata-se 
no caso das comparações espontâneas da criança, e Bühler escreve: "Em tais casos, é claro que a 
composição que mistura esferas distintas é a técnica de abstração psicofisicamente mais 
simples, a que menos requer do ponto de vista psicofísico. A saber, o que se dá sempre que um 
fenômeno sugestivo percebido provoca uma necessidade expressiva por falta de palavras, ou 
reclama uma característica pitoresca. O criador linguístico, neste caso, não faz mais nada (mas 
certamente nada menos) que ver o característico e se servir da lei fundamental da chamada 
"associação por semelhança" (p. 416). Conforme este ponto de vista, a metáfora comum nasce 
da necessidade de suprir a deficiência da linguagem direta, baseia-se na associação de ideias 
motivada pela semelhança, e desfecha numa comparação dos elementos característicos, por 
meio da abstração dos demais elementos. Podemos então concluir esta parte, dizendo que a 
metáfora, tanto comum quanto literária, pressupõe os seguintes elementos:
(1) - semelhança (2) - comparação subjetiva (3) - abstração 4) - transposição (5) - formação de 
uma nova realidade semântica de caráter simbólico.
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O estudo destes elementos conduz a uma série de etapas de ordem lógica, psicológica e estética, 
que podem talvez ficar mais esclarecidas se as abordamos do ângulo histórico, indagando de 
que maneira foram colocadas as questões relativas ao "por que", o "como" e o "quando" da 
comparação metafórica. Neste sentido, poderemos talvez distinguir, muito por alto, três etapas: 
retórica, historicista, psicológica.
Na etapa retórica, o problema mais importante é o da classificação dos tropos, entre os quais a 
metáfora. Ela aparece como fruto de uma necessidade de expressão, em seguida como um 
ornamento do discurso; mas sempre como criação do homem a partir de uma língua usada 
teoricamente em sentido próprio.
Na etapa historicista, ela aparece ao estudioso como forma primordial de expressão, explicando-
se pelo seu entrosamento em certo tipo de visão do mundo que abrange todos os aspectos da 
civilização e representa uma fase de desenvolvimento da sociedade.
Na etapa psicológica, ela é considerada principalmente em função da estrutura do espírito e de 
seu modo de "imaginar".
O ângulo retórico foi estabelecido por Aristóteles e desenvolvido pelos tratadistas gregos e 
romanos, recebendo uma poderosa infusão da exegese cristã. Retomado com espírito 
sistemático e redefinido no século XVI, a partir de Robortello, Castelvetro e outros, imperou até 
o Romantismo, terminando numa esclerose totalmente alheia às necessidades de compreender a 
situação literária moderna. Todavia, os fundamentos do estudo da metáfora se encontram nesta 
etapa, sendo conveniente apontar alguns dos seus expoentes.
Tomemos o caso de Cícero, em cujo De Oratore, Livro III, lemos este trecho interessante:
"O último grupo, o terceiro, das metáforas, tem um domínio muito vasto. O seu nascimento foi 
devido a necessidade, sob pressão da carência o da pobreza, e em seguida foi ampliado pelo 
prazer e deleite. Do mesmo modo que as vestes, imaginadas para preservar do frio, vieram em 
seguida, pouco a pouco, a dar também mais elegância e mais nobreza ao corpo, a metáfora, 
criada pela carência, se desenvolveu porque agradava. Pois 'a vinha solta gemas', 'as sombras 
luxuriantes", 'as messesrinhosas' são expressões usadas até pelos camponeses. A expressão 
própria custa a exprimir bem a coisa: pelo contrário, a expressão metafórica esclarece o que 
desejamos significar, e o faz por meio da comparação com o objeto, expressa graças a uma 
palavra que não é a palavra própria. Portanto, as metáforas são como empréstimos, graças aos 
quais tomamos noutro lugar o que nos falta. Há outras mais ousadas que não são prova de 
indigência. mas ajuntam um certo brilho ao discurso", (p. 61) (Em latim metáfora é tralatio, 
forma usada por Cícero, o mesmo que translatio, termos mais próximo à nossa língua e que 
esclarecem cabalmente o processo).
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Nestas linhas vemos uma teoria utilitarista, que pressupõe a existência da linguagem própria e 
em seguida o aparecimento de uma outra, figurada que supre a sua deficiência e acaba por 
exprimir o objeto melhor que ela. Isto constitui um enriquecimento, na medida em que, para 
Cícero, a linguagem figurada da tralatio não é apenas uma forma optativa de dizer certas 
cousas, mas frequentemente, a única possível. Aí se destaca plenamente a ideia de "carência" 
(inopia) que indica uma inexistência, e não apenas uma insuficiência. Uma teoria deste tipo 
justificaria a diferença entre metáfora comum e metáfora literária como questão de grau e como 
fruto de uma elaboração que, no processo de desenvolvimento do homem, constrói a busca do 
efeito estético sobre a necessidade pura e simples do início. Para o homem culto, a metáfora 
seria uma outra forma de necessidade, baseada não apenas ou não mais apenas na penúria dos 
recursos expressivos, mas na maior capacidade expressiva do termo transposto. Sob certos 
aspectos, este modo de ver parece aproximar-se de concepções modernas, como a já citada de 
Bühler, que se referem à insuficiência da linguagem própria levando a criar uma linguagem 
figurada. Mas se afasta delas quando pressupõe um primazia cronológica da primeira, e a 
formação da segunda como desenvolvimento posterior, que supre lacunas. Segundo Bühler, o 
processo metafórico é mais geral e mais natural, inerente à própria natureza da linguagem e à 
atuação dos "criadores linguísticos" que são, para começar, as próprias crianças. Como veremos 
daqui a pouco, mais perto das concepções modernas estaria a teoria historicista de Viço. Antes 
dela, digamos uma palavra sobre os tratadistas cristãos.
Um efeito importante da exegese bíblica foi desenvolver extraordinariamente, e não raro de 
maneira extravagante, a busca do sentido alegórico das palavras e das histórias. Assim, na 
interpretação do Cântico dos Cânticos, Orígenes considera que a Amada é a Igreja, que o 
Amado é Cristo, e transforma toda a linguagem erótica em símbolos religiosos. Quanto aos 
tratadistas que se ocuparam de retórica e de poética, a grande influência foi Cícero, e logo após 
Quintiliano, que eles repetem sem originalidade. Mas esta aparece na maneira de conceber as 
categorias graças ao referido sentimento alegórico e o senso místico