Antonio Candido O Estudo Analitico do Poema
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Antonio Candido O Estudo Analitico do Poema


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escreve qualquer coisa, como 
notícias de jornal, por exemplo; Dichter é o escritor dotado de capacidade criadora. Em 
português eu posso ser um escritor, e Carlos Drummond de Andrade também o é; em alemão eu 
sou Schriftsteller, e ele um Dichter. Eu pertenço à Literatur e ele à Dichtung. A dificuldade está 
para o estrangeiro em que Dichter é tanto Drummond quanto Graciliano Ramos, isto é, no caso, 
não se diferencia a prosa da poesia, mas a qualidade do escrito, criador ou meramente 
informativo, crítico, analítico, etc. Poesie e Roman são modalidades de Dichtung.
Em italiano, Benedetto Croce, visivelmente inspirado nas acepções alemãs, que se aproximam 
da velha acepção grega de poesia como criação, estabeleceu ao longo da sua obra uma distinção 
entre Poesia e Literatura. Aquela abrange obras em prosa e verso e corresponde à Dichtung; 
esta faz parte de outra esfera, também pode ser em prosa e verso, aproximando-se da Literatur 
dos alemães. Quando traduzimos Dichtung, usamos frequentemente Poesia, chamando Poetas 
aos Dichter. Mas é preciso notar que assim estamos fugindo às nossas acepções atuais e nos 
aproximando da acepção grega.
Toda essa digressão vale para lhes mostrar a eminência do conceito de poesia, que é tomada 
como a forma suprema de atividade criadora da palavra, devida a intuições profundas e dando 
acesso a um mundo de excepcional eficácia expressiva. Por isso a atividade poética é revestida 
de um caráter superior dentro da literatura, e a poesia é como a pedra de toque para avaliarmos a 
importância e a capacidade criadora desta. Sobretudo levando em conta que a poesia foi até os 
tempos modernos a atividade criadora por excelência, pois todos os gêneros nobres eram 
cultivados em verso. Hoje, o desenvolvimento do romance e do teatro em prosa mudou este 
estado de coisas, mas mostra por isto mesmo como toda a literatura saiu da nebulosa criadora da 
poesia.
APRESENTAÇÃO DO PROGRAMA
O curso deste ano tratará dos elementos necessários para a análise dos poemas. A este propósito, 
duas considerações iniciais:
1. Trataremos do "poema" e não da "poesia".
2. Faremos "analise" e não necessariamente "interpretação".
Esclareçamos: 1. "Poema" e não "poesia"
Não abordaremos o problema da criação poética em abstrato: o que é a poesia, qual a natureza 
do ato criador no poeta; etc. Isto não quer dizer que o nosso curso não sirva, no fim, para ajudar 
o entendimento de problemas deste tipo.
Este esclarecimento é necessário também para se avaliar a relação do poema com a poesia, pois 
desde o Romantismo e do aparecimento do poema em prosa (de um lado) e da depuração do 
lirismo, de outro, sabemos:
a. Que a poesia não se confunde necessariamente com o verso, muito menos com o verso 
metrificado. Pode haver poesia em prosa e poesia em verso livre. Com o advento das correntes 
pós-simbolistas, sabemos inclusive que a poesia não se contém apenas nos chamados gêneros 
poéticos, mas pode estar autenticamente presente na prosa de ficção.
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b. Que pode ser feita em verso muita coisa que não é poesia. Julgamentos retrospectivos a este 
propósito são inviáveis, mas não a percepção de cada leitor. Assim, embora a poesia didática do 
século 18, por exemplo, fosse perfeitamente metrificada e constituísse uma das atividades 
poéticas legítimas, hoje ela nos parece mais próxima dos valores da prosa.
O nosso curso visa. pois, basicamente, à poesia como se manifesta no poema, em versos 
metrificados ou livres. Em seguida, seremos levados a estudar o que o poema transmite, o que 
tradicionalmente se chama o seu conteúdo, e neste caso nos aproximaremos de um estudo da 
poesia. Assim, chegaremos a ela partindo empiricamente das suas manifestações concretas, e 
não fazendo o caminho inverso, mais filosófico. Por quê? Porque estamos interessados 
sobretudo em formar estudiosos e professores de literatura, para os quais a tarefa mais premente 
é saber analisar os produtos concretos que são os poemas.
2. "Análise" mais do que "interpretação".
Sendo assim, partimos do poema em sua realidade concreta porque desejamos sobretudo 
adquirir uma certa competência na análise, e não primariamente na interpretação, que decorre 
dela. Todo estudo real da poesia pressupõe a interpretação, que pode inclusive ser feita 
diretamente, sem recurso ao comentário, que forma a maior parte da análise. A análise como 
comentário é um preâmbulo, e para o professor de literatura e de língua se torna parte 
indispensável.
Frequentemente os professores se limitam à análise-comentário. É preciso deixar bem claro que 
isto é uma etapa. Seria uma etapa necessária? A resposta varia conforme o tipo de poesia e os 
problemas apresentados por cada poema. Mas de qualquer modo, o comentário, quando feito, 
deve ser coroado pela interpretação. No 5a ano nos dedicaremos mais à interpretação; no 4fi ao 
comentário, cuja técnica deve ser adquirida pelos candidatos a professor.
O comentário é essencialmente o esclarecimento objetivo dos elementos necessários ao 
entendimento adequado do poema. É uma atividade de erudição, que não pressupõe em si a 
sensibilidade estética, mas que sem ela se torna uma operação mecânica. O verdadeiro 
fomentador experimenta previamente todo o encanto do poema, para em seguida aplicar-lhe os 
instrumentos de análise. Depois desta, a interpretação deve surgir como um reforço daquele 
encantamento, e não como seu sucedâneo ou diminuição.
Para os estudiosos de mentalidade positivista, só o comentário pode ser algo de 
universitariamente respeitável, porque se dirige a aspectos verificáveis.
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de cunho histórico, linguístico, biográfico, etc. A interpretação seria algo demasiado pessoal 
para constituir objeto de ensino e sistematização. Alguns vão mais longe, e entendem que a 
poesia tem uma essência incomunicável, quando a consideramos fora da pura experiência 
pessoal; tem uma irracionalidade profunda que se torna significativa apenas à intuição de cada 
um, e não pode portanto ser objeto de estudo.
Outros, mais modernos, adotam posição exatamente oposta, e afirmam que a poesia só pode ser 
estudada a partir desta sua natureza íntima; que ela pode ser objeto de estudo sistemático, e que 
o comentário, além de desnecessário, talvez seja até prejudicial. É a posição de um dos maiores 
teóricos e praticantes da análise literária em nosso tempo, o suíço Mil Staiger, que forjou uma 
teoria da interpretação de fundo rigorosamente estilístico, alegando que a biografia, o conteúdo 
filosófico, as ligações histórico-culturais não são essenciais ao verdadeiro estudo da literatura. E 
que este, longe de escamotear a irracionalidade profunda da poesia, parte, ao contrário, destes 
elementos imponderáveis à primeira vista, mas que são os únicos a permitir acesso à estrutura 
real do poema. (Ver Die Kunst der Interpretation - A arte da Interpretação) .
Uma posição mais equilibrada, ou pelo menos mais útil para o estudo universitário, é a de 
Benno von Wiese, para o qual não apenas não há oposição entre comentário e interpretação, 
mas "o comentário corretamente entendido é o vestíbulo da interpretação". (Ver "Ueber die 
Interpretation lyrischer Dich-tung", Deutsche Lyrik, p. 15).
Este problema é importante, pois sobre ele se baseia toda a crítica moderna, que tende a várias 
formas de interpretação, contra a tradição ossifica-da do comentário erudito, que bania o 
requisito da sensibilidade, e, portanto, a verdadeira apreensão do poema. E que estabelecia uma 
rígida relação causai que hoje não se pode mais aceitar. As modernas tendências críticas (new