Kuper, Adam. 2003   Cultura e Civilização In Cultura a visão dos antropólogos. Bauru EDUSC. Pp. 45 71
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Kuper, Adam. 2003 Cultura e Civilização In Cultura a visão dos antropólogos. Bauru EDUSC. Pp. 45 71


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dora ein punho, e quando veio a paz, foi chamado pela Uni-
versidade de Strasbourg, que voltou a ser uma universidade
francesa em 1919, quando a Alsácia foi devolvida à França,
O jovem e brilhante corpo docente recrutado para a univer-.
siclade incluía alguns cios maioresvcientistas sociais e histo-
riadores da-geração seguinte, como Maurice Halbwachs,
Charles Blóndel, Georges Lefebvre e, juntamente com o pró-
prio Febvre, o'historiador Marc Bloch, com o qual iniciou
uma longa colaboração que transformaria a historiografia
francesa. Em 1929, eles fundaram a revista Annales, que se
transformou no fórum cie uma escola de historiadores estrei-
tamente; ligados às ciências sociais. Temas culturais, psicoló-
gicos e sociais foram resgatados para uma historiografia que
havia siclo dominada pelo estudo de política, diplomacia e
.guerra, e a história intelectual foi revivida.
x
 Na abertura do seminário sobre "Civilisátion", Febvre
chamou a atenção para o fato cie que pouco tempo antes ha-
via sido apresentada uma dissertação na Sorbonne sobre a "ci-
vilização" cios tupis-guaranis da América do Sul, que, obser-
vou ele; uma geração anterior teria chamado de selvagens.
"Mas há_ muito tempo o conceito de uma civilização formada
cultura e civilização
por pessoas incivilizadas tornou-se bastante.comum."3 (Ele co-
mentou cie forma morclaz que se poderia imaginar um ar-
queólogo "lidando tranqüilamente com' a civilização dos nu-.
nosr que um dia nos disseram ter sido 'o flagelo da civiliza-
ção'".) No entanto, muito embora os franceses admitissem
prontamente que os tupis-guaranis, e até mesmo os hunos, ti-
nham uma'civilização, eles ainda .tendiam a acreditar que ci-
vilização implicava progresso. Aparentemente, a palavra de-
signava duas noções bastante distintas. Uma delas Febvre ca-
racterizava como emprego etnográfico e se referia ao conjun-
to de características que um observador consegue registrar ao
estudar a vida coletiva de um grupo de seres humanos, con-
junto esse que englobava aspectos materiais, intelectuais, mo-
rais e políticos da vida social. Esse emprego não implicava jul-.
, gamento cie valor. Na segunda acepção,, a palavra significava
a nossa própria civilização, que era éxtrerriamente-valorizada
e à qual alguns indivíduos tinham acesso privilegiado. Como
podia uma língua famosa por sua clareza e lógica possuir um
vocábulo com clüas acepções contraditórias?
Febvre não conseguira encontrar uma fonte que -usasse
o termo civilisation em qualquer um cios seus sentidos mo-
-dernos antes de 1766. Civilisationxera empregado anterior-
mente apenas como termo técnico legal, referindo-se .à passa-.
gem de uma ação penal para a esfera civil. Entretanto, os ter-
mos civilité, politesse e pdlice (significando observânc-ia da lei)
remontam ao século 16. Durante o spculo, 17, os termos "sel-
vagem" e, para os povos mais avançados, "bárbaros" eram co-
muns em francês para descrever pessoas que não possuíam as
qualidades de "civilidade, cortesia e sabedoria.administrativa".
Com o tempo, civilisé substituiu o termo policé, mas no sécu-
lo 18, afirmou Febvre, houve necessidade de um novo termo
que descrevesse uma nova noção. Nascido a seu tempo, na
década cie 1770, o neologismo civilisation "recebeu seus pa-
péis cie naturalização", e em 1798 forçou as portas cio. Dicio-
nário da Academia Francesa.
3. W., ibid., p. 220.
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capítulo l
Esse foi' um período cie .intensa atividade científica em to-
das as áreas, bem como de sínteses teóricas audaciosas. O,
grande leque'de materiais sobre culturas exóticas e o passado
remoto reunidos na Encydopédie 'suscitou reflexões sobre o
grande padrão cia história. A tendência do volume crescente
cie literatura sobre exploração, a princípio, era reforçar a cren-
ça na superioridade da civilização,. Os intelectuais franceses
começaram a conceber o esboço de uma história universal em
que a selvagerià levou ao barbarismo, e o barbarismo à civi-
lização. Esse modelo de desenvolvimento cultural imitava a
representação cie Lamarck cias relações entre as espécies em
sua versão cia grande cadeia cios seres vivos. Logo, entretan-
to, essa história triunfalista -de progresso começou a ser ques-
tionada. Não apenas níveis de civilização, mas até mesmo es-
tados cie civilização aos poucos foram clistinguiclos. O imenso
império clã "Ia Civilisatión" foi dividido em províncias autôno-
mas. Admitiu-se que maneiras características de ser civilizado
haviam-se desenvolvido em diferentes partes do mundo. Se-
gundo ..Febvre, a forma plural, Civilisatíons,' foi empregada
pela primeira vez em 1819.,
Febvre situou essa relativização cia noção cie civilização
no período compreendido entre 1780 e 1830, observando que
representava o clímax de um longo e paciente esforço de do-
cumentação e reflexão. Houve uma transição simultânea nas
áreas cie biologia, história, etnografia e lingüística, cio univer-
salismo do século 18 para uma perspectiva mais relativista. A
teoria de Lamarck também foi colocada em xeque. Cuvier in-
sistia que não havia Lima cadeia dos seres vivos, mas sim vá-
rias cadeias separadas. Essas mudanças no pensamento cien-
tífico refletiram-se numa alteração do clima intelectual. O oti-
mismo do período revolucionário entrara em declínio. Os so-
breviventes da revolução aprenderam algo novo: que uma ci-
vilização pocle morrer. ("E eles não aprenderam isso apenas
com os livros", frisou Cuvier.) A fé numa filosofia de, progres-
so e na perfecti.biliclacle da humanidade foi corroída. O apoio
ao pessimismo cie Rousseau e à sua preocupação com as ma-
zelas cia civilização foi renovado.
Com a restauração cia monarquia, a crença otimista
numa civilização progressista ganhou nova força. Ela foi pres-
sagiacla com maior intensidade nas obras De Ia civilisation en
cultura e civilização
Europe (1828) e De Ia civilisation en France (1.829) de Guizot.
Febvre cita a audaciosa afirmação de fé de Guizot: "A idéia cie
progresso, de desenvolvimento, a meu ver, parece ser a idéia
fundamental contida na palavra civilização." O progresso po-
clia ser medido tanto no nível da sociedade como do intelec-
to, embora ambos não andem necessariamente juntos. -A In-
glaterra, segundo Guizot, alcançara progresso social, mas não
intelectual; na Alemanha, o progresso espiritual não tinha sido
acompanhado pelo progresso social; apenas ria França ambos
haviam marchado lado a lado.
Febvre notou que uma linha diferente de. pensamento se
desenvolvera na Alemanha. No início, a noção de cultura era
bastante semelhante à icléía francesa cie civilização, mas com
o tempo foi feita uma distinção entre os aspectos exteriores .
da civilização e a realidade espiritual interior da cultura. Ale-
xander von Humbolt, por exemplo, afirmou que uma tribo
. selvagem podia ter urna civilizarão, no sentido de ordem po-
lítica, sem possuir um alto nível de "culture de.Pespfit" - e,
certamente, vice-versa. Não obstante, ambas as correntes cie
pensamento traziam em seu bojo um problema filosófico se-
melhante.. Uma avaliação relativista das diferenças entre cultu-
ras è compatível com "o -velho conceito de civilização humar
na em geral"? A pergunta foi deixada no ar.
Em outro trabalho, apresentado no mesmo seminário
sob o título "Lês Civilisations: Éléments et formes", o sociólo-
. go Mareei Mauss esboçou a concepção cie civilização que ele
e Emile Durkheim expuseram durante vários anos no Année
Sociologique;' Mauss discorreu rapidamente sobre o que ele
denominava usos vulgares em frases como: civilização fran-
, cesa, budista ou islâmica. O que estava em debate nesse ca-
sos eram maneiras específicas cie pensar, posturas mentais,
para as quais ele preferia usar a palavra .mentalité. Civiliza-
ção também não devia ser restringida a sinônimo de artes,
tampouco ser equiparada a Kultur, no sentido^cle aquisição
cie cultura. Essas eram representações folclóricas desprovidas