Kuper, Adam. 2003   Cultura e Civilização In Cultura a visão dos antropólogos. Bauru EDUSC. Pp. 45 71
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Kuper, Adam. 2003 Cultura e Civilização In Cultura a visão dos antropólogos. Bauru EDUSC. Pp. 45 71


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de valor científico.
4. MAUSS, Mareei. Lês Civilisations. In: FEBVRE, Lucien. op. clt. p.
105-6.
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capítulo l
Do ponto de vista de um sociólogo, civilização é, primei-
ramente, coletiva e distintiva. Mas esse conceito não eqüivale
.ao que os durkheimianos chamavam de "consciência :coletiva"
de uma sociedade, pois ela não está confinada a unia. popu-
lação em particular, Além disso, ao contrário das tradições cul-
turais- puramente locais, a civilização é racional, universal e,
acima de tudo, progressista. Por esse motivo, ela se dissemi-
nou de forma irresistível por todo o mundo. Com a difusão in-
ternacional da ciência e de novas tecnologias como o cinema,
o fonógrafo,e a radiotelefonia, começava a nascer uma nova
civilização, que "permeia todas( as formas de música, todos os
sotaques, todas as palavras e todas as notícias, a despeito de
\u2022todas as barreiras. Estamos apenas no início [desse proces-
so]",5 O .avanço da civilização impõe sacrifícios. Não, há garan-
tias de que vai proporcionar felicidade pessoal ou contribuir
para o bem comum. "Mas o capital da humanidade aumenta
cie qualquer forma... a tendência é de que todas as nações .é
civilizações, na verdade, fiquem mais\u2014 mais poderosas, mais
gerais e mais racionais."
Febvre iniciara esse ensaio com o famoso comentário de
que o tempo despendido na descoberta da origem de uma pa-
lavra nunca é perdido. Seu exemplo inspirou outros estudio-
sos franceses a expandirem, mais tarde, sua investigação. Em
1954, o lingüista Emile Benveniste afirmou ter descoberto
através de uma pesquisa diligente que o termo civilisati&n
fora usado pela primeira vez pelo fisiocrata Mirabeau, em
1757.6 O.sentido era depolicé, no âmbito da política, mas na
década cie 1700, o termo era usado geralmente com o signifi-
cado cie "processo coletivo original que fez a humanidade
emergir cia barbárie, e esse uso, até mesmo naquela época, le-
vava à definição cie civilisation como estado cia sociedade ei- _
vilizacla". Ele observou também que antes da revolução pou-
cas palavras francesas terminavam em -isation.
cultura e civilização
Num ensaio publicado em 1989* Jean Starobinski ressalta
que civilisation foi apenas um cios vários substantivos forma- \u2022
cios, durante aqueles anos revolucionários, com o sufixo -ation
- a partir cie verbos que terminavam em -iser. Em 1775, Diderot
definira o novo termo em relação a outra cunhagem de -ation:
"Emancipação (emancipation) ou, o que significa a mesma
coisa com outro nome, civilização (civilization), é um traba-
lho longo e difícil."7 Quanto ao uso cie Diderot, Starobinski co-
menta que "já há fartos indícios de que a civilização pode
muito bem se tornar a substituta secularizacla cia religião, uma '
apoteose da razão". , .
O novo substantivo-reunia noções de requinte e refina-
mento, bem como cie progresso intelectual e político. Contu-
do, embora Febvre afirmasse que a palavra civilisation havia
sido criada para designar uma nova idéia, ainda, que um tan-
to vaga a princípio, Starobinski transforma a palavra em pre-
cursora cia idéia. "Conseqüentemente, conforme o termo ga-
nhou popularidade graças às suas qualidades sintéticas, ele
também se tornou objeto de reflexão teórica." Essa reflexão
foi estimulada pelo fato de que o uso da palavra civilização fi-
cou corrente ao. mesmo tempo, que a palavra "progresso" em
seu sentido moderno: "Ambas estavam destinadas a manter
uma relação bastante íntima."8 Refletindo sobre esses dois
neologisrnos, os philosophes concluíram que eles "descrevem
tanto o processo fundamental da história como o resultado fi-
nal deSse processo... o sufixo clé ação -ation nos força a pen-
sar em um agente. Se esse agente for confundido com a pró-
pria ação, ele se torna autônomo".'
\u2022 Mas o termo não sugeria apenas uma idéia. "Tão logo a
palavra civilisation foi escrita...descobriu-se que ela encerrava
uma possível fonte de equívoco." O próprio Mirabeau escre-
vera sobre "falsa civilização" e "a barbárie cias nossas civiliza-
ções". O termo podia ''-referir-se tanto a civilizações modernas
5. Id., ibid.
6. Esse ensaio foi publicado na tradução em BENYENISTE, Emile.
Prpblems in General Linguistics. Coral Gables, Fia.: University of
Miami Press, 1971. p. 291.
7. STAROBINSKI, Jean. The Word Civilization. In: Blessings in Dis-
giiise; or, 'lhe Morality ofEml; Cambridge, Mass.:lHarvarc1 University
Press, 1993 (publicado pela primeira vez em francês, 1989), p. 3.
8. Icl., ibid.,- p. 4.
9. Icl., ibid., p. 5.-..
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capítulo l
como ao idealide uma condição de vicia social civilizada. "A
avaliação, portanto, assumia duas formas: unia avaliação, de
civilização e uma avaliação formulada em nome cia civiliza-
ção."10 Em qualquer um dos sentidos, o termo implica contras-
te; mas o contraste \u2014 natural, selvagem ou bárbaro - pode pa-
recer preferível. A civilização pode ser decadente, e o remé-
dio talvez seja a re-cristianização, como argumentaria Benja-
min Constant, ou a- re-barbarização, cie modo que Rimbaucl
exigia "sangue novo... sangue pagão".11 Mas além de valoriza-
da, civilização geralmente era identificada com progresso. De
modo geral, o termo assumiu uma aura sagrada. Representar
algo como contrário à civilização significava clemonizá-lo.
Alguns anos depois cio seminário cie Febyre, Norbert
Elias, judeu alemão exilado que escrevia em Londres às vés-
peras, cia Segunda Guerra Mundial, comparou a evolução-da
noção alemã de Kultur e da idéia francesa de Civilisation."
"Elias (1897-1990.) nasceu em Breslau e estudou sociologia em
Heidelberg com Karl Marmheim e Alfred Weber. O irmão cie
Alfred, Max Weber, morrera havia pouco tempo, "mas seu le-
gado ainda estava muito vivo em sua antiga universidade. Em
1929, Mannheim foi chamado para assumir a.cadeira cie socio-
logia em Frankfurt e convidou Elias para .ser seu assistente. Lá,
Elias se juntou aos principais representantes da "Escola de
Frankfurt", um grupo criativo formado por intelectuais marxis-
tas como Theoclor Adorno, com quem Elias fez amizade, ape-
sar cio seu "ceticismo em relação à teoria Marxista.
Elias observou que os judeus, apesar cie ausentes cio
cenário político, eram "ao mesmo tempo transmissores cia
vida cultural alemã".1' "Eu estava .impregnado pela Kultur
alemã", observou ele no final de sua longa existência, mas
frisou que "é possível identificar-se fortemente com a tradi-
10. id., ibid, p. 8.
11. Id., ibid.,.p. 25:
12. Cf. MENNELL, Stephen. Norbert Elias: Civilisation and the Hu-
man Self-Image. Oxford: Blackwell, 1989 e ELIAS, Norbert. Reflec-
tions on a Life. Oxford: Polity Press, 1994.
13. ELIAS, Norbert. Ibid. p. 18-9. .
r cultura e civilização
cão cultural alemã - como é o meu caso \u2014 sem ser, não va-
mos dizer patriota, mas nacionalista". Todavia, como, judeu
(ligado, além disso, ao radical Mannheim), ele foi obrigado
a deixar a Alemanha após a ascensão de Ilitler. Depois de
uma curta estadia na França, ele mudou-se para Inglaterra e~
passou os anos imediatamente 'anteriores à guerra no Salão
de Leitura cio Museu Britânico, trabalhando em sua obra-pri-
ma sobre o processo de civilização, que foi publicada na
Alemanha em 1939. O reconhecimento-veio muito tarde,/
apenas durante seu retiro prolongado, primeiro em Bielefelcl
na Alemanha, e depois, em Amsterdã foi que ele se tornou
um ícone para uma nova geração de sociólogos .europeus.
Alfred. Weber e Karl Mannheim defendiam duas aborda-
gens opostas ao estudo, da cultura. Para Alfred Weber, cultura^
representava o munclo reservado cia arte e da religião, que
não servia a fins racionais e se opunha ao mundo material cia
civilização. Essa era a visão ortodoxa de cultura cie Heidel-
berg, e ojilósofo Karl Jasper estimulou o jovem Elias a Descre-
ver um trabalho sobre o debate entre Thomas Mann e a me-
nosprezada Zívilisationsliterat. Para Mannheim, em. contrapar-
tida, as produções culturais originavam-se