Kuper, Adam. 2003   Cultura e Civilização In Cultura a visão dos antropólogos. Bauru EDUSC. Pp. 45 71
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Kuper, Adam. 2003 Cultura e Civilização In Cultura a visão dos antropólogos. Bauru EDUSC. Pp. 45 71


DisciplinaIntrodução à Antropologia1.136 materiais32.791 seguidores
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de situações sociais
e deveriam ser entendidas como expressões de determinados
interesses políticos e econômicos.
No primeiro volume cie The Civilizing Process, Elias ex-
plorou as relações entre a noção alemã de cultura e a idéia
francesa cie civilização. Na tradição francesa, civilização era
concebida como um todo complexo e multifacetado, que
abrangia fatos políticos, econômicos, religiosos, técnicos, mo-
rais ou sociais. Esse conceito amplo de civilização "expressa
a conscientização cio Ocidente... Resume tudo o que a socie-
dade ocidental cios dois ou três últimos séculos acreditam ser
superior às .sociedades anteriores ou às sociedades contem-
porâneas 'mais primitivas'".'4 Para os alemães, contudo, civj-
14. Id. ThefivüizingProcess^he Development of manners. Chan-
ges in the Code of,,Conduct and Feeling in Early Modem Times.
Nova York: Urizen Books, 1978 (primeira edição alemã, Basel,
1939). p. 3-4.
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capítulo l
lização era algo-exterior e utilitário, e, em muitos aspectos,
alheio aos valores nacionais. A civilização é aprimorada com
o tempo e transcende as fronteiras nacionais, em contraste
com ,a Kultur, limitada no tempo e nó espaço e contérmina
com uma identidade nacional. \ .
Quando os alemães expressavam orgulho por suas reali-
zações, eles não falavam cia sua civilização, mas sim da sua
Kultur. Esse termo "refere-se essencialmente a fatos intelec-
tuais, artísticos e religiosos"," e a Alemanha geralmente "traça
uma clara linha divisória entre fatos dessa natureza e fatos po-
líticos, econômicos e sociais". A Kultur não era só nacional,
mas também pessoal. O termo fora introduzido no discurso;
moderno por Hercler, que o extraíra da metáfora de Cícero,
cultura animi, que, estendia a idéia de cultura agrícola para
aplicá-la ao espírito. Kultur, por conseguinte, significava, cul-
tivo; Bildung, uma progressão pessoal rumo à perfeição espi-
ritual. Um francês e ou um inglês podia dizer que era "civili-
zado" sem que tivesse realizado alguma coisa, mas para os
alemães todo indivíduo adquiria cultura por meio de um pro-
cesso de educação e desenvolvimento espiritual.
x
 A noção de Kultur desenvolveu-se em tensão com o
conceito cie uma civilização universal associada à frança. O
que os franceses consideravam civilização transnacional, na
Alemanha era considerada fonte cie perigo para culturas lo-
cais., Na própria Alemanha, a ameaça era bastante imediata.
-A Giuilisation estabelecera-se nos centros de poder político,
nas cortes francófonas e nas cortes francófila.s alemãs. Num
' marcado contraste com os intelectuais franceses e ingleses,
que se identificavam com as aspirações da classe dominante,
os intelectuais alemães se definiam em oposição aos prínci-
pes e aristocratas. Aos seus olhos, a classe'alta não possuía
uma cultura autêntica. A civilização cia elite francófona era
emprestada; ela não era internalizada, mas sim uma questão
cie formas e de aparência^exterior. Os princípios morais cia
aristocracia aclvinham de um código cie honra artificial. Ex-
cluídos dos círculos que detinham o poder, os intelectuais
alemães decidiram reforçar as reivindicações de integridade
15. Id., ibicl, p. 4.
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cultura e civilização
pessoal e cie realização, científica é artística. O crescimento
espiritual era mais valorizado do que o status herdado e os
sinais exteriores artificiais cio estilo palaciano. A base cios. in-
telectuais era a universidade, "o equilíbrio cia classe méclia
em relação à corte",16 e eles fomentavam uma cultura literária
e filosófica alemã, adquirida, interior.
, Seguindo Mannlieim, Elias identificou razões sociais por
trás dessas diferenças ideológicas. O conceito cie civilização
universal, por motivos óbvios, apavorava as classes dominan-
tes de Estados imperiallstas, como a França e a Inglaterra, en-
quanto "o conceito de Kultur espelhava a consciência de uma
nação [como a Alemanha] que tinha de lutar constantemente
para constituir.novas fronteiras, tanto num sentido- político
como espiritual". Atreladas às circunstâncias políticas/essas
idéias oscilavam com as mudanças históricas. Na esteira da re-
volução francesa, a antítese entre uma civilização aristocrática
falsa e uma cultura nacional genuína foi projetada numa opo-
sição entre a França e a Alemanha. Essa antítese ganhou nova
força depois cia derrota cia Alemanha na Grande Guerra, uma
guerra que fora declarada contra eles em nome de uma civi-
lização universal. A idéia de Kultur entrou em jogo na luta
subseqüente para redefinir a identidade e o destino cia Alema-
nha. Kultur e Zivilisation resumiam os valores rivais que (na.
visão cie alguns alemães) dividiam Alemanha e França: virtu-
de espiritual e materialismo, honestidade e artifício, moralida-
de genuína e mera cortesia exterior,
Mas ao contrário de Mannheim, Elias não. acreditava, que
idéias fossem simplesmente produções ideológicas, instrumen-
tos cie'dominação degradados por seus usos. Quaisquer que
fossem suas origens e a forma como Tinham sido manipulados,
conceitos como cultura e civilização podiam ter-um valor ana-.
lítico. Assim como Mareei Mauss, Elias colocou a idéia de civi-
lização em ação, e o segundo volume do seu trabalho ilustrou
o que ele chamou cie processo cie civilização na história euro-
péia. Aos poucos, as cortes européias refinavam suas manei-
ras, submetendo o corpo e suas funções a uma série "de con-
16. Id, ibid, p. 24.
55!
capítulo l
troles cumulativos. As "limitações sociais que exigiam autocon-
,'trote" ganharam força e surgiu o "limiar do constrangimento".
Esse argumento foi desenvolvido, em The Court Society, publi-
cado pela primeira vez em 1969 na Alemanha, mas escrito tam-
bém em grande parte nos anos trinta. Em ambos os estudos,
Elias retratou a clássica visão alemã do processo de civilização,
como exterior, meramente costumeira e impondo .regras for-
mais sobre os atos expressivos ou instintivos, um processo que
ele vinculava à extensão cio controle do Estado.
Elias observou que na época em-que.estava trabalhando
em seu livro ele era mais influenciado por Freud do -que por
qualquer sociólogo, até mesmo por Mannheim.1" Freud publi-
cara-recentemente dois livros sobre cultura ou civilização: The
f Future ofan Tllüsion (publicado pela primeira vez na Alema-
nha,- em 1927) e Civilisatton and Its Discontents (1930). Neles,
Freud discorria sobre "civilização humana, pela qual me refi-
ro a todos os aspectos em que a vida humana se elevou aci-
ma do seu status animal e difere cia vida das .feras \u2014 e me ré-,
cuso a fazer-distinção entre cultura e civilização".18 Essa isen-
ção talvez desculpe seu tradutor para o inglês, que usou sis-
tematicamente Q. termo civilisation onde Freud usou Kultur,
mas cie qualquer forma a oposição central proposta por» Freud
foi entre o ser humano educado e o animal instintivo. A cul-
tura transforma um simples ser humano em deus (ainda que,
'brinca ele, um deus com uma prótese). Mas esse poder é con-
quistado com grande esforço. O processo cie educação do ser
humano .é considerado puramente externo, imprimido pela
força.. Assim como o indivíduo faz o sacrifício atroz das fanta-
sias edipianas, "toda civilização eleve ser erguida sobre-coer-
ção e renunciando instinto".19 A sublimação estimula a criativi-
17. MENNEIL, Stephen. op. cit. p. 111.
18-1 FREUD, Sigmund. The Future ofan Illusion. Londres: Hpgarth
Press, 1.961 (Standard Editíon; publicado primeiramente em .alemão
em 1927). p, 5-6. .
19. Id. Cívilísation and Its Discontents. Londres: Hogarth Press,,_
1961 (Standard Edition; publicado primeiramente em alemão,
em 1930). p. 7. As citações seguintes foram retiradas da me^sma
página.
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cultura e civilização
clade cultural, mas impõe grandes sacrifícios da liberdade se-
xual e exige o controle da agressividade.
Talvez a ascensão do fascismo tenha impelido os intelec-
tuais judeus da Europa central,