Kuper, Adam. 2003   Cultura e Civilização In Cultura a visão dos antropólogos. Bauru EDUSC. Pp. 45 71
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Kuper, Adam. 2003 Cultura e Civilização In Cultura a visão dos antropólogos. Bauru EDUSC. Pp. 45 71


DisciplinaIntrodução à Antropologia1.136 materiais32.793 seguidores
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como Freud e Elias, a questio-
narem o poclér-de salvação da-cultura individual. Quando
chegou o momento crítico, os controles frágeis, externos e hu-
manos que a civilização havia fabricado não conseguiram re-
primir as massas incultas, que Segundo palavras cie Freud são
"inclolentes e ignorantes; elas não têm amor pela renúncia aos
instintos". As massas só aceitarão o sacrifício de uma liberda-
de animal se forem compensadas em termos materiais. "Se a
perda não for compensada economicamente, pode-se estar
certo cie que resultará em graves perigos."
Ao contrário de Elias e Freud, os escritores nacionalistas
de direita preferiam não fazer diferença entre instinto e cul-
tura. Eles reservavam suas desconfianças para a civilização. O
crescimento da cultura é orgânico, o da civilização é artificial..
Cultura e civilização tendem a entrar em conflito na mesma
medida em que .divergem-'suas formas de crescimento. A ci-
vilização acaba se tornando uma concha vazia, destituída cie
espírito animado, e desmorona. Esse tema - antigo - foi re-
vivido pelos conservadores alemães à medida que o oportu-
nismo dos hegelianos foi colocado em xeque pela catástrofe.
, da Primeira Guerra Mundial, Um expoente extremo foi Spen-
gler, que possuía uma moral diametralmente oposta à. de
Freud e à de Elias e.atacava violentamente "os intelectos,
exangues cujas críticas corroem tudo o que resta cla; cultura
genuína - ou seja - a cultura espontânea".20 Assim Como vá-
rios intelectuais alemães,_Spengler acolheu os nazistas como
arautos de uma renovação cultural da raça, e como inimigos
cie uma civilização artificial.
Muito embora Elias ressaltasse o papel das universidades
na criação desse discurso sobre cultura e civilização, ele não
discutia em detalhes as disciplinas acadêmicas que foram cria-
das ria Alemanha para estudar os produtos cia cultura e cio es-
pírito humano, o Geist (Kulturwissenschaften e Geisteswissens-
20. SPENGLER, Oswald. The Hour of Decision. Nova York: Kropf,
1934. p. 88.
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capítulo l
chafieri). Fritz Ringer, em The Decline oftbe German Manda-
rins (1969), estendeu a análise de Elias cie modo a abarcar o
desenvolvimento desses campos cie estudo nos anos críticos
após a guerra franco-prussiana. A Alemanha desfrutou um pe-
ríodo de crescimento econômico rápido, porém turbulento,
\u2022 que se acelerou por .volta de 1890. Os intelectuais, temerosos.
d,o materialismo e do que Weber chamava cie racionalização
da vida pública, enfrentaram o que concebiam como um- de-
safio renovado, porém poderoso, à cultura de uma civilização
sein alma, e reagiram lançando mão cios recursos do idealis-
mo filosófico è do romantismo e também estimulando o orgu-
lho nacional. A civilização universal, racional ameaçava a cul-
tura espiritual cie um Volk e invadia a liberdade-interior cio in-
divíduo. As nações não deveriam permitir que seus valores
singulares fossem engolidos-por uma civilização comum. O
.mundo é formado por "espíritos nacionais cpntenciosos... por
culturas qualitativamente distintas".21
O materialismo científico constituía o agente mais insiclio-
so cia civilização, uma vez que -corrói os valores morais, des-
valoriza as descobertas espirituais e menospreza a.sabedoria
tradicional. Os mandarins rejeitavam a noção de que idéias são
impressas na mente pelas sensações, cie que ps valores têm
uma origem material. O Geist não deveria ser tratado como se'
fosse parte da natureza. A ciência do espírito era completa-
mente diferente de uma ciência natural. Na década cie 1880,
Dilthey adaptou a noção he.geliana do "Geist objetivo". O tra-
balho cio espírito coletivo era expressado e tornado público
em documentos e formas cie linguagem e, portanto, podia ser
estudado, mas apenas por meio de uma abordagem intuitiva e
subjetiva que levava a uma compreensão ampla. Os métodos
das ciências naturais não eram apropriados. O debate acirrado
entre os positivistas e Dilthey e seus simpatizantes culminou,
numa grande controvérsia metodológica,,.a Metbodenslreit,:que
teve início em 1883 e, mais tarde, levou ao desenvolvimento
.de uma-nova história cultural. Além disso, incitou Max Weber
21. TROELTSCH, Ernst. Apud RINGER, Fritz K. Tloe Decline of the
German Mandarins The German Academic Community, 1890-
1933. Carnbridge, Mass.T Harvard University Press, 1969. p. 101.
l 58
cultura e civilização
a elaborar os princípios cia sua sociologia cultural numa série
cie afirmações metodológicas que surgiram entre 1903 e 1919.
Weber definia cultura como "o legado cie uma parcela fi-
nita clã infinidade cie fatos do mundo sem significado, que tem
significado e importância cio ponto cie vista dos seres huma-
nos".22 Sua expressão mais característica foi na vida religiosa.
Embora cultura fosse uma questão de idéias, quase sempre
implícitas, que podiam ser apreendidas apenas por meio de
uni exercício cie identificação da imaginação, Weber insistia
que "as convicções e os valores são tão 'reais' quanto as for-
ças materiais" e que elas podem "transformar a natureza da
realiclade social".23 A cultura, entretanto, era vulnerável. Seus
alicerces estavam sendo minados pela civilização, pelas forças
corrosivas e irresistíveis da ciência, pela racionalização, pela
burocratização e pelo materialismo. Em sua defesa, a cultura
pode contar apenas as probabilidades caóticas de renovação
carismática e o trabalho defensivo cio intelectual.
Mais recentemente, Woodruff D. Smith aprimorou a ge-
nealogia cie Ringer em Poliiics and the Sciences of Ciiltuve in
Germany, 1840-1920(1991)- Ele extrai uma linha específica
de reflexão acadêmica liberal sobre cultura, uma Kuitlirwis-
senschaft distinta da Geisteswissenschaften da tradição herme-
nêutica. Essa maneira de pensar se aproximava mais das
idéias liberais francesas e inglesas; e Smith afirma que Herder
e Humboldt era-m mais solidários ao Iluminismo cio que pare-
ciam. Os acadêmicos clã tradição liberal abordavam cultura
com um espírito científico, buscando leis de desenvolvimen-
to, Eles definiam cultura, observa Smith, num sentido antro-
: pológico: "Quer dizer, eles se interessavam principalmente pe-
los padrões cie pensamento e comportamento característicos
cie todo um povo, e não pelas atividades intelectuais e artísti-:,;
cas cia elite.'"2?. Os destinos dessa tradição liberal - e cia tradi-
ção hermenêutica mais conservadora - flutuavam com ps des-
22. Apud SCIIROEDER, Ralph. Max Weber and the Sociology of
Culture. Londres: Sage, 1992-. p. 6.
23. Id, ibid,, p, 8.
24. SMITH, Woodruff D. Polítícs and the Sciences Of Culture in
Germany, 1840-1920.Nova York: Oxford University Press,'1991-;
p. 3.
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capítulo l
tinos cios movimentos liberais e nacionalistas cia política ale-
mfy. Os anos d.e 1848 e 1870 foram divisores de'água para am-
, bas as tradições cie pensamento, e Smith identifica o ressurgi-
mento de uma preocupação com cultura um tanto científica e
- liberal por parte da escola etnológica criada por Rudolf Vir-
chow em Berlim, nas décadas de 1870 e 1880.
.Na Grã Bretanha,-bem como na França e na Alemanha, a
crise política européia da década cie 1930 suscitou novos e an-
siosos debates em torno das questões cie cultura e civilização.
Entretanto, os intelectuais recorriam cie forma mais direta a
uma tradição bastante inglesa de reflexões sobre a posição que
a alta cultura ocupava na vicja de uma nação; o ponto cie re-
ferência desses intelectuais era a tese de Matthew Arnold, que
ficou mais. conhecida ao ser apresentada em Culture and
Anarchy (1869). A cultura, acreditavam- eles, estava ameaçada
por dois fatores: a civilização material e a cultura de massa.
Depois cia humilhação cie Munique, T. S. Eliot ficou bas-
tante apreensivo, não tanto por uma aversão às políticas cio
governo de Chamberlain, mas por algo mais profundo, "a dú-
vida sobre a validade de uma civilização".25 (Quando.Eliot es-
crevia sobre materialismo,