Kuper, Adam. 2003   Cultura e Civilização In Cultura a visão dos antropólogos. Bauru EDUSC. Pp. 45 71
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Kuper, Adam. 2003 Cultura e Civilização In Cultura a visão dos antropólogos. Bauru EDUSC. Pp. 45 71


DisciplinaIntrodução à Antropologia1.136 materiais32.791 seguidores
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ou finanças e indústria, ele preferia
usar o termo "civilização" a "cultura".)
Será que a nossa sociedade sempre tão convicta de sua su-
perioridade e retidão, tão confiante em seus pressupostos,in-
questionáveis, configurou-se em torno de algo mais permanen-
te cio que uma congérie de bancos, empresas de seguros, e in-
dústrias, e teve alguma, convicção mais essencial cio que a dos
juros compostos e da manutenção cie dividendos?
v Refletindo sobre essas questões-logo após a guerra, Eliot
foi-levado a repensar toda a questão sobre cultura, Por cultu-
ra, .disse ele a uma platéia alemã,
refiro-me, primeiramente, ao que os antropólogos .querem di-
zer: o modo de vida de um determinado povo que vive junto
i num mesmo lugar. Essa cultura pode ser vista em suas artes,
seu sistema social, seus hábitos e costumes e sua religião. Mas
25. ELIOT, T. S. Theldea ofa Chrlslian Society. iondon: Faber anel
Faber, 1939. p. 64,
cultura e civilização
tudo isso junto não constitui a cultura...uma cultura é mais do.
que s reunião de artes, costumes e crenças religiosas. Todas es-
sas coisas agem entre si, e para compreender verdadeiramente
unia é preciso compreender todas.2'1
Em Notas para uma Definição de Cultura (1948), Eliot
contrastou essa idéia antropológica cie cultura ("como a usa-
da, por exemplo, por E. B. Tylor no título cio livro Primitive
Culture") com a visão humanista convencional, que está liga-
da ao desenvolvimento intelectual ou espiritual cie. um indiví-
duo,, grupo ou classe, e não ao modo de vicia cie toda uma so-
;
 cieclacle. A noção literária tradicional cie cultura era imprópria,
pois "a cultura cio indivíduo-depende da cultura cie um grupo
ou classe", e "a cultura cie um grupo, ou classe depende cia
cultura cie toda a sociedade".27 Cada classe "possui uma fun-
ção, a cie manter essa parte cia cultura total da sociedade que
pertence a essa .classe". A imagem de sociedade de Eliot era
hierárquica, porém orgânica. "O importante é uma estrutura
de sociedade na qual haverá, do 'topo' à 'base', uma gradua-
ção contínua cie níveis culturais."28
Em suma, cultura "inclui todas as atividades e interesses
característicos de um povo". Ela não estava confinada a um
minoria privilegiada, como acreditava Matthew Arnold, mas
abarcava o majestoso e o humilde, a elite e o popular, o sa-
grado e o profano. A título de ilustração, Eliot elaborou -uma
lista cios traços culturais ingleses: "o Derby Day, a regata cie
Henley, a cidade de Cowes, o 12 cie agosto,, uma final cie cam-
peonato, as corridas de cães, a mesa cie pinos, o alvo de dar-
dos; o queijo Wensleydale, o repolho cozido e cortado em pe-
daços, a beterraba em conserva, as igrejas góticas do século
19 e a música de Elgar".*29
26. Palestras publicadas como um apêndice em Notei Towards the
Definitfon of Culture. Londres.: Faber anel Faber, 1948. p. 120)
27. ELIOT. Notes Towards the Definition ofCitlture. p. "21.
28. Id., ibid., p. 48.
* Dérby Day, principal prova cie turfe inglesa; 12 cie.agosto, início
da temporada de caça aos galos silvestres; mesa de pinos, jogo
tradicional nos pubs ingleses. (N.T.)
29. Id., ibid., p. 31. Eliot provavelmente estava seguindo a lista de
exemplos de Robert Lowie cios traços que formam a cultura ameri-
!60 61!
capítulo l
Essa cultura nacional era um todo integrado. Amolei,
Colericlge e Newman insistiam" - com base em pontos de vis-
ta distintos - que a cultura está ligada à religião. "Podemos
ir além", escreveu Eliot, "e perguntar se o que chamamos de
cultura e o que chamamos de religião de um povo não são
aspectos distintos da mesma coisa: a cultura sendo, essen-
cialmente, a encarhaçãp (por assim dizer) cia religião de um
povo".30 (Conseqüentemente, afirmou "ele, "bispo§ fazem par-
te cia cultura inglesa, e cavalos e cães fazem parte cia religião
inglesa".)31 Cultura e religião podem servir ao mesnío gran-
de propósito: "qualquer religião, enquanto dura, e em seu
próprio nível, confere um significado,evidente à vida, ofere-
ce a estrutura para uma, cultura e protege a massa cia huma-
nidade do tédio e cio desespero".32 Mas é também função da
. cultura> imbuir a vida de propósito e significado. "Cultura
pode até mesmo ser descrita como aquilo que faz a vida va-
ler a pena."33
Depois'da guerra mundial,. Eliot adotou um relativismo
qualificado. Era verdade que a civilização ficara mais comple-
xa, que os grupos sociais ficaram mais especializados e as ar-
tes, mais sofisticadas; mas não ocorrera nenhum progresso-
moral aparente. Além disso, ele insistia que as outras cultu-
ras deviam ser tratadas em seus próprios termos. "Podemos
também aprender a respeitar qualquer outra, cultura como um
todo, por riíais inferior que ela pareça em relação à nossa, ou
por mais que possamos desaprovar com razão algumas de
cana. Lowie havia comentado que a luz elétrica faz parte dessa cul-
tura, da mesma forma que o estusiamo por beisebol, "assim como
os filmes, os thés dansants, as máscaras do Dia de Ação de Graças,
os bares, os Ziegfeld Midnight Follies, as escolas noturnas, a im-
prensa marrom de William Hearst, os clubes de sufrágio femininos,
o movimento a favor do imposto único, as farmácias Riker, os sedas
de luxo e Tammany ríall" (LOWIE, Robert. Culture and Etbnology.
[19171. p. 7).
30. Id, ibid.; p. 28.
31., Icl., ibid., p. 32.
32. Id,, ibid., p. 34.
33. lei., ibid., p. 26.
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cultura e civilização
suas características: a destruição deliberada de outra cultura
como um todo é um erro-irreparável, praticamente tão per-
verso quanto tratar seres humanos como animais."34 É exata-
mente a diversidade das culturas que deve ser valorizada. O
ideal de uma jcultura mundial comum, por conseguinte, é
uma noção monstruosa: "uma cultura mundial cjue fosse sim-
plesmente uniforme-não seria cultura. Teríamos uma huma-
nidade des-humanizada". "Devemos aspirar, sim, a uma cul-
tura mundial comum mas que não diminua a particularidade
das partes que a compõem." Ele também alertou para o fato
de que. variedade cultural provocaria conflito. "Em última
análise, religiões antagônicas significam culturas antagônicas;
e religiões,não podem'ser conciliadas."35
Uma década mais tarde, em 1958, Raymond Williams
produziu uma genealogia dos teóricos ingleses sobre cultura,
(paralela aos ensaios de Febvre Sobre a tradição francesa e cie
Elias sobre a Alemanha). Rejeitando o apelo de Eliot-a uma
abordagem antropológica especializada, Williams o situava
exatamente dentro do .pensamento inglês tradicional de cultu-
ra, uma tradição que ele insistia ser bastante distinta das ale-
mãs e francesas.
Raymoncl Williams (1921-1988) vinha de uma classe ope-
rária, cie um meio socialista na fronteira com o País cie-Gales.*
Ele foi para a Universidade de Cambridge estudar inglês, mas
seus estudos foram interrompidos pela Segunda Guerra Mun-
dial, em que serviu ativamente. Mesmo tendo sido membro cio
Partido, Comunista por um breve período antes cia guerra,
Raymoncl foi bastante influenciado pela teoria de literatura e
cultura formulada por um dissidente carismático, porém pro-
fundamente conservador (ainda que de forma sutil), que fazia .
parte cio corpo docente da cadeira de inglês na Universidade
de Cambridge,.F. R,Xeavis.
A despeito das inclinações políticas de ambos serem bas-
tante distintas, suas abordagens tinham muito em comum, e a
descrição que E. P. Thompson fez de Williams como "um mo-
34. . id, ibid, p. 65.
35. Icl., ibid., p. 62.
36. Cf. INGLJS, Precl. Raymond Williaws..Londres: Routledge, 1995.
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capítulo l
ralísta com hábito literário"37 podia ser aplicada também a. Lea-
vis. Em 1948, Leavis publicara TheGreatTmdition, no qual de-
finia um cânon cie textos cia moderna literatura inglesa que ofe-
recia uma cultura alternativa "capaz cie contribuir para a melho-
ria da vida" aos valores cia sociedade industrial moderna de
massa! Em Cultura e Sociedade,