Kuper, Adam. 2003   Cultura e Civilização In Cultura a visão dos antropólogos. Bauru EDUSC. Pp. 45 71
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Kuper, Adam. 2003 Cultura e Civilização In Cultura a visão dos antropólogos. Bauru EDUSC. Pp. 45 71


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1780-1950, ...publicado em
1958, Raymoncl Williams construiu uma tradição paralela de'in-
telectuais literatos (incluindo Leavis .e Eliot) que haviam formu-
lado teorias sobre o papel cie salvação da cultura na sociedade
industrial - ou, mais precisamente, na Inglaterra moderna:
Na introdução de uma nova edição cio livro, em 1983,
Williams disse que esse argumento havia se baseado na "des-
coberta cie que a idéia de-cultura, e-a palavra propriamente
dita em seus empregos mais tradicionais, passara a fazer par-
te do pensamento inglês no período que normalmente chama-
mos de Revolução Cultural".38 O termo havia entrado para o
discurso inglês juntamente com outras palavras: "indústria",
"democracia", "classe" e "arte". A noção cie cultura tomou for-
ma por intermédio da sua relação com essas outras idéias. Em
particular, a idéia de cultura havia se desenvolvido em para-
lelo ,ao que Carlyle chamou de "inclustrialismo".
Segundo Williams, o discurso inglês sobre cultura foi
iniciado pelos poetas românticos, particularmente Blake,
Wordsworth, Shelley e Keats. Muito embora reconhecesse
que muitos dos temas desses poetas podiam ser encontra-
dos em Rousseau, Goethe, Schiller e Chateaubriand, Wil-
liams insistia que havia certa inclinação inglesa em suas for-
mas cle_ pensar, moldada pela reação cios poetas à Revolu-
ção Industrial, cujo lema era "A Poesia e ó Princípio do Ego,
dos quais o dinheiro representa a encarnação visível, são o
Deus e o Mamon cio muncló", de Shelley.39 Mas Williams ar-
37. THOMPSON, E. P; Making History: Writings on History and Cul-
ture. Nova York: The Ffee Press, 1994. p. 244.
38. WILLIAMS, Raymond. Culture and Society. ed. rev. Nova York:
Columbia University Press, 1983 (publicado pela primeira vez em
Londres: Chatto and Windus, 1958). p. vii. Esse argumento foi re-
petido em Id. Keywords. Oxford: Oxford University Press, 1976.
39. As citações de Shelley, Coleridge, Arnold, Eliot, Leavis e de ou-
tros autores nestas páginas foram selecionadas por Raymond Wil-
liams para ilustrar seu argumento em Culture and Society,,
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cultura e civilização
gumentava que essa oposição maniqueísta entre arte e co-
mércio não podia ser Sustentada. "A conseqüência positiva
da idéia cie arte como uma realidade superior era que ela
oferecia uma base imediata para uma .importante crítica ao
inclustrialismo. A conseqüência negativa é que tendia...a iso-
lar a arte...e, dessa forma, enfraquecer a função dinâmica
que Shelley propôs pára ela."
Coleridge e Carlyle fizeram uma crítica mais sofisticada à
civilização industrial. Civilização significava modernidade, ma-,
terialismo, indústria e ciência: o mundo do progresso festeja-
do pelos utilitaristas: Ela anunciava que as ciências positivas
representavam a única base confiável de conhecimento. Carly-
le condenava a tese de que "não existem ciências verdadeiras,
á não ser a externa; de que para o mundo interiorizado (se é
que ele existe) o único caminho concebível é para fora; de
que, em suma, o que não se consegue investigar e compreen-
der mecanicamente, na verdade não pode ser investigado e
compreendido". Coleridge declara em itálico para chamar a
atenção "a distinção permanente e o contraste ocasional entre
'educação e civilização ".
Mas a própria civilização nacla mais é cio que um bem con-
traditório [escreveu Coleridge], se não muito mais uma influên-
cia corrompedora," uma doença que^consome, do que o viço
da saúde, e seria melhor dizer-de uma-nação assim caracteriza-
da que ela é mais envernizacla que policia, pois que sua civili-
zação não se fundamenta ha educação e no desenvolvimento
harmonioso das qualidades e aptidões que caracterizam a con-
dição humana.
Matthew Arnold fez a declaração mais influente sobre a
oposição entre os valores cia cultura e os valores da civiliza-
ção moderna. A civilização industrial era "muito mais mecâni-
ca e exteriorizacla cio que a civilização cia Grécia ou cie Roma,
e a tendência é que essas características se intensifiquem". Os
filisteus estão, contentes com o progresso material que a civi-
lização proporciona. Mas:
Diz a cultura: "Observe essas pessoas, seu moclo de vicia,.
seus hábitos, seus costumes e seu tom cie voz; analise-as com
atenção; observe o que lêem, o que lhes dá prazer, o que cli-
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capítulo l
zem, os pensamentos que povoam suas mentes. Valeria a pena
ser rico com a condição dê' se tornar como elas?"
Williams observou com, pesar que Arnold imbuiu a tradi-
ção de-ura novo pedantismo e orgulho espiritual, reagindo- à
vulgaridade cie uma forma, por si só, vulgar. Em sua opinião,
Arnold estava infectado por "sentimentos de classe em grande
parte egocêntricos".* E se ele desprezava a burguesia de men-
talidade estreita, Arnold estremecia diante das pessoas co-
muns. A despeito da sua preocupação crescente com a educa-
ção popular, ele estava pronto a invocar proteção ao Estado,
contra as massas ameaçadoras, que "os amantes da cultura di-
zem prezar, mas contra as quais empregam fogo e força".
Arnold podia ser descartado como reacionário, mas Wil-
liams acreditava que, de modo geral, os grandes teóricos in-
gleses não compreenderam a importância permanente cio in-
clustrialismo e a natureza cia civilização que este criara. Ele de-
dicou um longo capítulo aos clois ensaios de John Stuárt Mill
sobre as idéias de cultura e civilização de Bentham e Colericl-
ge (ensaios que foram revisados por Leavis)." Mill havia ten-
tado encontrar uma forma cie sintetizar a ciência cia vida prá-
tica, representada por Bentham, com o que chamou de "filo-
sofia cia cultura humana", cujo porta-voz foi Colericlge. Mas
sua síntese, inevitavelmente, não alcançou seu objetivo, pois
^ele escreveu sobre "Civilização" de forma, geral, quando deve-
ria ter abordado especificamente a questão cio "Industrialis-
mo" (que para Williams representava realmente o capitalis-
mo). Como Mill não compreendeu a natureza cias mudanças
que ocorreram na .Inglaterra, ele não reconheceu que a rea-
ção cie. Colericlge ao inclustrialismo transcendia as fronteiras'
cio seu próprio "Utilitarismo humanizado".
Coleridge, segundo Williams, havia antecipado uma: críti-
ca mais radical à sociedade capitalista, e as intuições de Cole-
riclge foram desenvolvidas por Ruskin, Çarlyle e William Mor-
ris. Williams identificava, Morris em particular como "a figura
40. WILLÍAMS, Raymond, op. cit. p. 117.
41.-LEAVIS, E. R. (Eá.). Mill on Bentham and Coleridge. Cambrid-,.
ge: Gambridge University Press, 1950.
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cultura e civilização
central cia tradição,",'12 pois ele começou a articular uma crítica
cio inclustrialismo proto-socialista,^-indicando a possibilidade cie
um renascimento cultural .popular. Mais tarde, D. II. Lawrence
se tornaria um porta-voz mais explícito de uma sensibilidade
popular, uma testemunha das possibilidades libertantes da ex-
periência, da classe operária, Eliot, em contrapartida, represen-
tava uma posição conservadora sobre cultura, mas foi original
e importante,.pois analisou a posição que a cultura ocupava
numa sociedade clássica. ("Podemos dizer de Eliot o que Mill
disse, de Colericlge, que um 'Radical ou Liberal esclarecido'
deve 'exultar diante um Conservador assim'".)43 Williams tam-
bém louvava Eliot por sua perspectiva anti-indiviclualista, mes-
mo que seu ideal de uma sociedade integrada não pudesse ser
conciliado com a realidade da sociedade individualista atomi-
zacla que o capitalismo inevitavelmente produzia.
Não obstante, Williams insistia em afirmar que a abor-
dagem de Eliot à cultura -estava firmemente situada dentro cia
tradição literária inglesa. Para Eliot, os principais componen-
tes da cultura eram a religião e as artes, como haviam sido
para Coleridge e Arnold, e sua inimiga, como sempre, era a
civilização moderna. Williams menosprezava p significado cia
introdução da idéia de "cultura" cie Eliot como "todo um
moclo de vicia".