Kuper, Adam. 2003   Cultura e Civilização In Cultura a visão dos antropólogos. Bauru EDUSC. Pp. 45 71
36 pág.

Kuper, Adam. 2003 Cultura e Civilização In Cultura a visão dos antropólogos. Bauru EDUSC. Pp. 45 71


DisciplinaIntrodução à Antropologia1.132 materiais32.771 seguidores
Pré-visualização17 páginas
Ele admitia que o uso do termo nesse senti-
do "havia se destacado mais na antropologia e na sociologia
do século 20"," mas afirmava que até mesmo o uso antropo-
lógico não era novo.
O sentidodepende, na verdade, cia tradição literária. O de-
senvolvimento cia antropologia social tendeu a herckir e a for-
talecer os modos cie analisar a sociedade e a vida cotidiana que
haviam sido elaborados com base na experiência geral do in-
clustrialismo. A ênfase em "todo um moclo de vida" vem desde
Coleridge e Çarlyle, mas o que era uma afirmação pessoal de
valor transformou-se num método intelectual generalizado.
42. Icl., ibid, p. 161.
43. Icl., ibid., p. 227.
,44. Essa citação e a seguinte são Icl,,- ibid., p. 232-3.
671
capítulo l
Williams não estava familiarizado com as ciência sociais,
mas-sua esposa, que estudara antropologia na London School
of Êcpnpmics, "fez com que ele lesse o trabalho dos sociólo-
gos que constavam do programa de estudos da década ..de
1930 dá LSE"45 enquanto ele escrevia Cultura e Sociedade. En-
tretanto, ele admitia que duas lições podiam ser aprendidas
com os antropólogos. A primeira era que uma mudança pocle-
ser positiva, mas não pode ser fragmentada: "Um elemento cie
um sistema complexo dificilmente pode ser alterado-sem afe-
tar seriamente o todo." A segunda lição era que existiam ou-
tras alternativas à Civilização industrial, além cio munclo me-
dieval evocado por tantos autores ingleses que'escreviam so-
bre cultura. Mas essa "talvez fosse cie valor mais duvidoso",
uma vez que nem o primitivismo riem o meclievalismo repre-
sentavam uma opção realista em nosso próprio caso.
A verdadeira importância .do discurso de Eliot, para Wil-
liams, era seu argumento cie que a cultura varia de classe-para
classe em sociedades complexas. Uma cultura de elite não
pode florescer isolada, tampouco pode ser estendida entre as
classes sem adulteração. Isso aponta para uma. questão bas-
tante diferente. A cultura popular eleve contaminar a cultura
mais elevada, ou mais autêntica - ou poderia ser uma fonte
cie renovação? Leavis havia abordado a mesma questão em
seu livro Mass Civilisation and Minoríty Culture (1930). Toda-
via, ele aceitava a tese de Arnolcl cie que "a avaliação com dis-
cernimento cie arte e literatura depende de uma pequena mi-
noria". Essa pequena elite
.constitui a consciência da raça (ou um ramo dela) num cieter-
. minado período... Dessa minoria depende a nossa capacidade
cie lucrar com as melhores experiências do ser humano no pas-
sado... Na sua conservação... está a linguagem, o idioma'em
constante transformação, do qual depende o bem viver, e sem
o qual a distinção do espírito é frustrada e incoerente. Por "cul-
tura", refiro-me ao uso dessa .linguagem.
45.'INGLIS../?£?v/?jo«rf Williams~p. 130.
l 68
cultura e civilização
Williams afirmou que enquanto Arnold confrontava o In-
dustrialismo, Leavis identificava e desafiava outro monstro, que
emergira da fumaça e da fuligem cías\fábricas satânicas: a Cul-
tura de Massa. Esta foi representada por Leavis pela imprensa
popular e, até mesmo, pelos semanários intelectuais, e epito^
tríada por Middletown, comunidade de Illinois que havia sido
descrita por dois etnógrafos americanos, Robert e Helen Lyrid,
nüfrr livro que trazia audaciosamente como subtítulo: A Study
of Contemporaiy Culture* Leavis ficou visivelmente estarreci-
do com o quadro que os autores apresentaram, da vicia em
uma pequena ciclacle no meio-oeste. A julgar pela cultura de
Middletown, o mundo contemporâneo certamente estava em
péssimas condições. "Middletown é um livro assustador",*"
concordou Williams, mas ele insistia que a cultura manufatura-
da cios bairros elegantes cia classe média precisava ser diferen- \u2022
ciada-da cultura autêntica que emanava cia experiência da clas-
se operária, uma experiência que estimula ã oposição a pa-
drões estabelecidos e prefigura os valores sobre os quais uma
, sociedade melhor deve ser criada. Williams, conseqüentemen-
te, estava impaciente com as referência nostálgicas cie Leavis a
uma época de ouro, quando, imaginava ele, a cultura inglesa
havia se apoiado firmemente sobre a base de uma vida comu-
nal orgânica. Socialista, ele não podia se juntar à lamentação
de Leavis pela "grande mudança - essa desintegração vasta e
aterrorizante... descrita comumente como progresso".
Os autores no cânon cie Williams haviam formulado um
discurso nacional distintivo sobre cultura. Eni'contraste com
os intelectuais alemães, eles não apelavam para uma cultura
especificamente nacional (e talvez isso tivesse sido mais pfò-
blemático, pois o que teriam eles feito cia cultura galesa, es-
cocesa ou irlandesa?). Ao contrário cios franceses, eles não es-
tavam inclinados a celebrar os valores nacionais cie uma civi-
lização científica e racional. Em Vez disso, eles escreveram so-
bre urna alta cultura ao mesmo tempo européia e inglesa. O
.46. LYND, Robert ; LYND, Helen. Middletown: A Study in Contem-
poraiy Culture. Nova York: Harcourt Brace, 1929: ^
47. WILLIAMS, RaymoncL.op. cit. p. 260.
69 l
capítulo l
problema central desses escritores - a relação entre alta cultu-
ra, cultura popular e progresso material na sociedade indus-
trial \u2014 foi relançado pôr Williams em termos marxistas, como
uma dimensão cie um conflito xle classe mais fundamental. ,
Na introdução cie uma nova edição do seu livro, publi-
cada em 1983, Williams comentou cie forma um tanto defen-
siva que os críticos haviam perguntado por que ele ignorava
os autores de outros países que escreviam sobre cultura. Um
biógrafo observa que ele "não sabia ler alemão e não lia fran-
cês por diversão",48 mas Williams, cie qualquer forma, estava
convencido de que o discurso inglês sobre cultura emergira
cie uma experiência histórica bastante peculiar. A revolução
industrial tinha começado na Inglaterra, e foi lá que seus efei-
tos foram avaliados primeiro.
No início, e certamente durante duas ou três gerações, foi li-
teralmente um problema encontrar uma linguagem que expres-
sasse esses efeitos. Assim, embora seja verdade que outras so-
ciedades passaram por mudanças comparáveis, e que novas
formas cie -pensamento e arte surgiram em resposta a eles, mui-
tas vezes cie maneiras tão penetrantes e interessantes quanto a
desses escritores ingleses, ou mais, é importante analisar o que
houve oncle aconteceu primeiro.1''
Esse não é um argumento persjjasivo, pois prioridade
não garante intuição mais elevada, .e no final do, século 19 a
experiência inglesa cie industrialismo era amplamente partilha-
da. De qualquer modo, os escritores com quem Williams esta-
va envolvido muitas vezes eram profundamente influenciados
pelos debates continentais. Worclsworth estava contaminado
pela linguagem e pelas Idéias cia Revolução Francçsa; Colètíd-
ge estava impregnado cia filosofia alemã (com efeito, Mill es-
creveu sobre a "escola teuto-coleridgiaiia"); Mill talvez tenha
siclo o comentarista mais sofisticado do positivismo cie Comte;
Carlyle escrevia mais extensamente, sobre Goethe e ps roniãn-
48. INGLIS, op. cit. p. 145.
49. Introdução à segunda edição de' Culturé and Society, 1983, p.
XJXÍ.
170
cultura e civilização
ticos alemães; Arnold era insistentemente europeu, um tor-
mento cie .insutaridade cultural inglesa; e Eliot baseava-se nas
idéias do escritor católico francês de direita Charles Maurras.
O próprio projeto cie Williams certamente eleve ser visto
como uma contribuição ao debate europeu mais amplo que
ocorreu em meados do século 20 sobre as origens e ó signi-
ficado de cultura e civilização. Seus depoimentos são análo-
gos aos cie Febvre e Elias; e assim como o próprio Williams
mais tarde veio a reconhecer, os argumentos que ele utilizou
eram semelhantes aos que haviam siclo desenvolvidos pela Es-
cola de Frankfurt na Alemanha e por Gramsci na Itália. À me-
dia que a Europa enfrentou sua maior crise,