Kuper, Adam. 2003   Cultura e Civilização In Cultura a visão dos antropólogos. Bauru EDUSC. Pp. 45 71
36 pág.

Kuper, Adam. 2003 Cultura e Civilização In Cultura a visão dos antropólogos. Bauru EDUSC. Pp. 45 71


DisciplinaIntrodução à Antropologia1.078 materiais32.327 seguidores
Pré-visualização17 páginas
explicativa e generalidade de aplicação
é comparável á categorias como a gravidade na, física, a doen-
ça na medicina e a,evolução na biologia."
Hoje em dia as coisas estão muito diferentes. Poucos an-
tropólogos afirmariam que a noção de cultura pode ser com-
parada "em importância explicativa" com gravidade, doença
ou evolução. Embora ainda se considerem especialistas no es-
tudo cia cultura, eles precisam aceitar a idéia de quê não go-
zam mais de uma posição privilegiada na galeria condensada
e diversa cie autoridades em cultura. Além disso, -a natureza cla.
área que eles reivindicam-sofreu uma mudança radical. De
modo geral, eles transferiram sua fidelidade intelectual das
ciências sociais para as ciências humanas, e estão propensos
a fazer uma interpretação prática, até mesmo uma desconstru-
ção, e não uma análise sociológica ou -psicológica. Não obs-
tante, ,os antropólogos modernos norte-americanos vêm siste-
maciçamente aplicando as teorias culturais em uma grande va-
riedade de estudos etnográficos, e creio que seus experimen-
tos representam o mais intrigante e satisfatório teste do valor
- e talvez da validade - das teorias culturais. O objetivo pri-
mordial deste livro, por conseguinte, consiste em fazer uma
^avaliação do projeto-.central da -antropologia cultural norte-
americana cio pós-guerra.
Cheguei à conclusão de que~quanto"mais se analisam os
melhores trabalhos modernos cios antropólogos sobre cultura,
mais aconselhável se torna abandonar cie vez a palavra hiper-
:_ referencial e passar a falar de forma mais precisa sobre conhe-
cimento, convicção, arte, tecnologia, tradição ou até mesmo
ideologia (embora problemas semelhantes sejam levantados
por esses conceitos polivalentes). Existem problemas episte-
mológicos fundamentais, e não vai ser tergiversando, sobre
3. KROEBER, A. L.; KLUCKHOHN, Clyde. 'Çulture: A Criticai Re-
view of Concepts and Definitions. Cambridge, Mass.: Trabalhos cio
Peabody Musèüm, 1952, p. 3. -'.-
cultura ou apurando definições que esses problemas serão re-
solvidos. As dificuldades tornam-se maiores quando (.depois
cie todos os protestos em contrário) a cultura deixa cie ser algo
a ser descrito, interpretado ou talvez até mesmo explicado
para ser tratada como uma fonte de explicação propriamente
dita. Não quero GO m isso negar que alguma forma de explica-
ção cultural possa ser bastante útil, em seu devido lugar, mas
apelos à cultura.só podem oferecer uma explicação parcial do
que leva as pessoas a pensarem e a agirem de determinada
forma e cio que faz com que elas.mudem seu jeito cie ser. For-
ças políticas e econômicas, instituições sociais e processos
biológicos não desaparecem como num passe de mágica ape-
nas porque esse é o nosso desejo, nem podem ser assimila-
dos em sistemas de conhecimentos e crenças. E esse, eu diria,
constitui o principal empecilho no caminho da teoria.cultural,
certamente em vista de suas pretensões atuais. -
Espero que os capítulos independentes deste livro pos-
sam corroborar essas conclusões, persuadir o leitor de visão e
semear dúvidas na mente dos mais crédulos. Entretanto, po-
der-se-ia alegar que, antes cie iniciar esse projeto, eu tinha pre-
conceitos contra a maior parte cias teorias sobre cultura. Sou
membro integrante cia facção européia de antropologia que
sempre teve muita cautela em reivindicar cultura como seu
tema exclusivo, ê mais, ainda de lhe conferir poder de explica-
ção. Sem dúvida alguma, meu ceticismo inicial foi acentuado
por minhas visões políticas: sou. liberal, no sentido.europeu e
.não americano, um homem moderado, um humanista sem ex-
tremos; .mas apesar de ser bastante sensato, não posso dizer
que estou livre de preconceitos. Um materialista moderado e
com convicções brandas sobre direitos humanos universais,
sou refratário ao idealismo,e ao relativismo cia teoria cultural
moderna e não tenho muita simpatia pelos movimentos sociais
fundamentados em nacionalismo, identidade étnica ou reli-
gião, exatamente os movimentos que exibem maior tendência
de invocar a cultura para motivar ação política.
Pouco antes cie começar a escrever este livro, tomei cons-
ciência cie. que essas dúvidas teóricas e preocupações políticas
estavam profundamente enraizadas em minha própria condi-
ção cie sul-africano liberal. No estágio inicial cia recente trans-
12'
;
13!
prefácio
formação por que passou a África cio Sul, depois da eleição cie
F. W, De Klerk para á presidência mas antes da libertação cie
Nelson Mandela da prisão, um momento imbuído de grandes
possibilidades históricas, recebi uma carta de um eminente an-
tropólogo americano. Ele havia siclo convidado a proferir uma
palestra sobre liberdade acadêmica na Universidade da Cidade
cio Cabo. Naturalmente, ele se perguntava de que maneira um
antropólogo poderia contribuir para os seríssimos debates so^
bre raça, cultura e história que arrebatavam a África cio Sul, e
me pedia para lhe fornecer alguns subsídios sobre as discus-
sões travadas nos círculos antropológicos locais.:Eu lhe enviei
jrevisòes dos principais argumentos cia antropologia cultural
africânder, e ele me escreveu novamente agradecendo. Ele es-
capou por pouco de cometer uma grave impropriedacle, pois
seu primeiro impulso tinha sido dedicar a palestra a um dis-
curso boasiano clássico sobre cultura. Provavelmente ele teria
afirmado que raça e cultura eram independentes entre si, ,que
era a cultura que tornava"as pessoas o que elas, eram e que.o
respeito .pelas diferenças culturais deveria constituir a base cie
uma sociedade justa. Um argumento edificante nos Estados
Unidos, mas que na África cio Sul teria soado como uma justi-
ficativa desesperada para o apartheicl.
Esse paradoxo estava profundamente entranhaclo em mi-
nha consciência e, sem dúvida, constituiu um dos motivos
para a elaboração deste livro. Eu estava cursando a faculdade
na África do Sul no final década cie f 950. Naquela época, um
sistema africânder radical segurava firmemente as rédeas do
país, e sua política coercitiva de segregação racial, o apar-
theicl, estava sendo implementada com um tipo cie sadismo'
moralizante. O governo parecia ser praticamente invulnerável
e impérvio a críticas. Os movimentos de oposição africana
eram brutalmente reprimidos. E, no entanto, havia um campo
em que aparentemente 'algumás"das convicções mais sagradas
desgoverno podiam ser expostas por argumentos sensatos e
evidências irrefutáveis. .Embora muitas vezes estivessem en-
voltas na linguagem da teologia, _as doutrinas oficiais sobre
raça e cultura invocavam autoridade científica; o apartheicl es-
tava fundamentado numa teoria antropológica. Não era por
acaso que seu arquiteto intelectual,-W. W. M. Eiselen, tinha
sido professor cie etnologia.
 L
14
prefácio
Os nacionalistas africânderes suspeitavam da "missão ci-
vilizaclora" proclamada, com boa ou má fé, pelos poderes co-
loniais na África.4 Alguns acreditavam que os africanos não
.podiam ser socializados, e que até mesmo uma tentativa nes-
se sentido era contraproducente; ou, na melhor cias hipóteses,
que levaria séculos para alcançar tal objetivo, e talvez apenas
a um grande custo humano. Esse tipo cie argumento, em ge-
ral, é motivado por um racismo torpe, e o pensamento racis-
ta certamente era disseminado entre os brancos sul-africanos.
Entretanto, alguns intelectuais africânderes, entre eles Eiselen,
repudiavam os preconceitos populares. Não havia provas-cie
que, a inteligência variava com a raça, afirmou Eiselen numa
palestra em 1929, tampouco que uma raça ou nação privile-
giada deveria conduzir o mundo para todo o sempre na civi-
lização. Não era a raça, mas sim a cultura que constituía a ver-"
cladeira base da diferença, o sinal do destino. E as diferenças
culturais deveriam ser avaliadas. A troca cultural, até mesmo
o progresso, não era necessariamente uma dádiva.-Seu custo
podia ser demasiadamente alto. Se a integridade