Kuper, Adam. 2003   Cultura e Civilização In Cultura a visão dos antropólogos. Bauru EDUSC. Pp. 45 71
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Kuper, Adam. 2003 Cultura e Civilização In Cultura a visão dos antropólogos. Bauru EDUSC. Pp. 45 71


DisciplinaIntrodução à Antropologia1.136 materiais32.784 seguidores
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cias culturas
tradicionais fosse minada, haveria uma desintegração social.
Eiselen achava que o governo deveria estimular uma "cultura
banto mais elevada, e não produzir europeus negros". Mais
tarde, o slogan "desenvolvimento separado" passou a ser usa-
do. A segregação era o curso adequado ^para a África cio Sul,
pois só assim as diferenças culturais seriam preservadas.
A escola cie etnologia do apartheicl citava os antropólo-
^gos culturais , norte-americanos com aprovação, embora em
grande parte em seus próprios termos; mas seus líderes eram'
radicalmente contrários as teorias cia escola britânica de antro-
pologia social, sobretudo às teorias cie A. R. Raclcliffe-Brown;
primeiro a ocupar a cadeira cie antropologia social na África do
Sul, em Í921. Radcliffe-Brown, obviamente, não negava que
4. Para uma revisão da etnologia africânder e da carreira de Eise-
len, ver GORDON, Robert. Apartheid's Anthropologist: The Gè-
nealogy of Afrikaner Anthropology. American Ethnologist, v. 13,
n. 3, p. 535-53, 1988, e para um relato mais geral sobre a antro-
pologia sul-africana, ver HAMMOND-TOOKE, W; D. Imperfect tn-
terpreters: South Africa's Anthropologists 1920-1990. Joanesburgo:
Witwatersrand University Press1, 1997.
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prefácio
existiam diferenças culturais no país, mas rejeitava a política de
segregação com base no argumento cie que a, África do. Sul
transformara-se numa sociedade única. As instituições nacio-
nais cruzavam as fronteiras culturais -e moldavam opções cie
vicia em todas, as aldeias e cidades no país. Todos os cidadãos
(ou indivíduos) estavam no mesmo;barco. As, políticas de base
acerca de diferenças culturais representavam uma 'receita para
o desastre. "A segregação é insuportável", afirmou ele à platéia
em uma de suas palestras. "O nacionalismo sul-africano tem cie
ser um nacionalismo composto poí pretos e brancos."
Em parte como resultado cia sua experiência sul-africa-.
na, Radcliffe-Brown,, mais tarde, tinha a tendência cie tratar
todos os assuntos ligados à cultura com reservas! "Não obser-
vamos uma 'cultura'", comentou ele em seu discurso de pos-
se como presidente cio Royal Antllrópological Institute, em
- 1940, "uma vez que essa palavra denota, não uma realidade
concreta, mas uma abstração, e da forma com é usada comu-
"mente, uma abstração vaga".5 Ele repudiava a opinião do seu
grande rival, Bronislaw Malinowski, de que uma sociedade
como a África cio Sul deveria ser estudada como uma arena
em que duas ou mais "culturas" interagiam. "Pois o que está
ocorrendo na África cio Sul [explicou Radcliffe-Brown] não é
a interação das culturas britânica, africânder (ou bôer), hoten-
to'te, banto e, indiana, mas sim a interação cie indivíduos e
grupos dentro cie uma estrutura social estabelecida que está.
em processo cie mudança. O que está acontecendo numa tri-
bo em Transkei, pôr exemplo, só pode ser descrito reconhe-
cendo-se que a tribo foi incorporada num amplo sistema es-
truturar político e econômico."6
Vindo da África do Sul, sem dúvida alguma eu estava
predisposto a aceitar esse tipo de argumento. Além do mais,
quaisquer preconceitos iniciais que e-ú tivesse foram reforça-
dos no meu curso de pós-graduação em antropologia estrütu^-
ral e social na Universidade de Cambridge no início da déca-
da, cie 196o. Todavia, alguns cios meus contemporâneos real-
.5. RADCLIFFE-BROWN, A. R. Ün Social Structure. Journal of the,
Rayal Anthropological Institute, v. 70, p. 1-12, 1940.
6. Icl., ibid.
16
prefácio
mente se libertaram desse condicionamento inicial e'abraça-
ram a escola cultural. Meu ceticismo sobre cultura era mais
forte, em parte por ter ficado, tão impressionado com o abuso
da teoria cultural na África do Sul. Mas não é de todo ruim
abordar uma teoria profundamente arraigada com uma postu-
ra cética. Ademais, as inclinações políticas não impedem, ne-
cessariamente, alguém de avaliar os pontos fortes e fracos cios-
contra-argumentos. Além disso, as teorias culturais geralmen-
te trazem em seu bojo uma carga política, justificando unia crí-
tica política. Mas embora minha experiência sul-africana tenha
influenciado minhas indagações acerca da teoria cultural, es-
pero que isso não determine as conclusões a que cheguei.
Qualquer que seja o preconceito que eu tenha trazido para
esse projeto, fiz o melhor que pude para respeitar tanto os ar-
gumentos como as evidências. ,
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Provavelmente, isso é tudo o que se pode pedir da his-
tória, sobretudo da história de idéias: não solucionar as
questões, mas sim elevar o nível cio debate.
Albert O. Hirschman
(introdução:
(guerras culturais
Não sei -quantas vezes desejei nunca ter ouvido a maldita
palavra.'
Raymond Williams
acadêmicos americanos estão travando-guerras
culturais. (Nem todas estão moitas). Os políticos conclamam
uma revolução cultural. Aparentemente, é necessário .que haja ,
uma mudança cultural sísmica para.resolver os problemas cie
pobreza, consumo cie drogas, crime, ilegitimidade e competi-
ção industrial. Fala-se sobre diferenças culturais entre sexos e-
gerações, entre equipes de futebol ou entre agências cie pro-
paganda. Quando uma fusão entre duas empresas não dá cer-
to, dizem que suas culturas não eram compatíveis.:O bom-cie
tudo isso é cjue todo mundo entende. "Tentamos vender 'se-
miótica', mas tivemos algumas dificuldades", declarou uma
empresa londrina chamada Semiotic Solutions, "por isso agora
vendemos 'cultura'. Essa todos conhecem e, portanto, dispen-
sa explicações".2 Além disso, não há como subestimar a cultu-
ra. "Ela fala- mais alto em termos de motivação cio comporta-
mento do consumidor", afirma o folheto cia empresa, "é mais
persuasiva do que a razão, mais 'massa' do que a psicologia"!
Existe também um mercado secundário florescente no discur-
so cultural. Em meados de 1990, as livrarias montaram seções-
de "estudos culturais" em posições de destaque que antes
eram,dedicadas à religião New Age e, antes disso, áps livros de
auto-ajuda. O gerente da Olsson's em Washington, D. C., Guy
1. WILLIAMS, Raymond. Polüics and Letlers. Londres: New Left
Books, 1979. p. 174T
2. MACFARQUAHAR, Larissa. This Semiotieian Went to Market. Lín-
gua Franca, p. 62, set./out. 1994.
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. Introdução
Brussat, explicou: "As pessoas vêem sociologia e pensam: tex-
to acadêmico árido. Elas vêem estudos culturais e pensam: Ah,
cultura! Trata-se cie uma abordagem .psicológica sutil."1
Todo inundo está envolvido com cultura atualmente.
Para os antropólogos, esse já foi um termo ligado às artes.
Hoje, os nativos falam de suas culturas. "Cultura - a própria
palavra, ou algum equivalente local - está na boca cie todos",
observou Marshall Sahlins.4 "Tíbetanos, havaianos, esquimós,
cazaques, mongóis, aborígenes australianos, balineses, caxe-
rriirenses, Ojibway, Kwakiutl e Maori neozelandeses: todos
descobrem cfue -têm uma 'cultura'." Os índios Caiapó que vi-
vem na floresta tropical da América do Sul usam o termo cul-
tura para descrever suas cerimônias tradicionais. Maurice Go-
delier descreve um trabalhador emigrante que retorna para o
seu povo na Nova Guiné, os Baruya, proclamando: "Precisa-
mos fortalecer nossos costumes; precisámos nos basear naqui-
lo que os brancos chamam de cultura." Outro habitante da
Nova Guiné diz a, um antropólogo: "Se não tivéssemos kas-
tom, seríamos exatamente como os homens brancos." Sahlins
menciona toclos esses exemplos para ilustrar uma proposição
geral: "A consciência cultural que se desenvolveu entre ás an-
tigas vítimas cio imperialismo, no final do século 20, constitui
um dos fenômenos mais notáveis cia história mundial."
Essas vítimas podem até mesmo desenvolver uma cultu-
ra crítica. Gerd Baumann mostrou que em Southall, subúrbio
multiétnico situado a oeste de Londres, em primeiro lugar as
pessoas "questionam o significado dos termos 'cultura' e 'co-
munidade'. Qs termos, por si só, tornam-se